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Opinião de Cristina Sá Carvalho
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Nós não somos Donald Trump

20 jun, 2017 • Opinião de Cristina Sá Carvalho


Sabemos o que é o aquecimento global e queremos que tragédias como a de Pedrógão Grande não volte a acontecer. Como?

Uma primeira palavra de solidariedade, consternação e pêsame para com as vítimas da tragédia que assola o centro do país. Não há alegria com o défice ou o rating que resista ao poder destruidor do fogo. Mais uma vez o Presidente na linha da frente, sempre bem, sempre oportuno, entre o professor e o jornalista, o político e o crente, o jurista e o avô. O Governo, acudindo rapidamente, evitando o efeito May.

Mas temos muitas perguntas: como é que isto foi possível? Como é que uma coluna de veículos cheios de famílias foi deixada à sua sorte numa «zona de combate»?

Porque é que a bonomia dos políticos se aspergiu mais do que a acção dos efectivos destacados para ocorrer especializamente a este tipo de emergências?

Queremos saber: nós não somos Donald Trump, sabemos o que é o aquecimento global e as alterações climáticas, e há anos que vemos a floresta arder, o opiniómetro inundar o meio-dia das televisões e como as medidas efectivamente apontadas pelos especialistas de facto nunca foram postas em prática.

Agora, tarde demais, queremos saber, queremos ter a possível certeza humana de que nunca mais vai voltar a acontecer. Também queremos que os políticos ponham em “stand by” a culpabilização mútua sobre o acontecido e que mostrem a todos os portugueses que o voto vale alguma coisa, isto é, que exerçam o seu mandato como todos os anónimos que estão a contribuir para minorar as mágoas e as dores insuportáveis de quem vive a tragédia em primeira mão: com humildade, com paciência, com dedicação, com eficácia, com lucidez.

Queremos saber, com detalhe detectivesco, como opera a Protecção Civil, que orçamento gere, como o gasta e como orienta os seus profissionais e como põe em prática os planos de intervenção em catástrofes. Vamos lá, pois, ao que interessa.

E em matéria do que interessa também interessa questionar a civilidade da cobertura jornalística que mostra os corpos humanos calcinados com o maior dos despudores. E que venha o Sindicato dos Jornalistas pedir que haja sobriedade na cobertura jornalística evidencia que há decência entre os profissionais mas também mostra que as direcções dos meios de comunicação social não deveriam enviar amadores para cobrir notícias desta envergadura.

Queremos saber tudo. Uma vez que não podemos devolver a vida a quem a perdeu nem a paz a quem foi roubado dos seus, queremos que se ajude com celeridade e convicção a recompor vidas e que se faça justiça. Queremos que se apurem responsabilidades e se penalize quem se apurar merecer penalização. Queremos poder viver a nossa vida convencidos de que as instituições que devem cuidar de nós, efectivamente, cuidam e se antecipam à desgraça e à fatalidade, para oferecer à natureza a civilização e à estupidez humana a racionalidade e a educação.

A política é um serviço, os serviços de segurança devem poder servi-la com a plenitude de meios e de lideranças próprias de uma sociedade democrática, uma sociedade democrática deve centrar-se na protecção e no bem-estar dos mais fracos. Precisamos disso para nos recompor, para seguir em frente, para oferecer ao mundo um Portugal que é história, tradição, beleza, cultura, povo, inovação.

Comentários
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  • António Costa
    22 jun, 2017 Cacém 09:29
    (1) Deixe-mo-nos de hipocrisias, Trump diz o que lhe vem à cabeça porque tem dinheiro. Os outros, os "tesos", limitam-se a repetir as frases do "politicamente correto" na esperança de que "pingue algum"......Os slogans "quatro patas bom, duas patas mau", divulgados por George Orwell apenas "mudam" com o passar tempo. Nos tempos de hoje o "mau da fita" é o "aquecimento global", num planeta em que as "épocas glaciares" alternam com "climas tropicais". Pessoalmente, acho que "Saber" é muito diferente de repetir "Slogans". (2) Por mais cuidadosos que sejamos, vão existir sempre tragédias. As medidas podem e devem atenuar as terríveis consequências de catástrofes. Mas estas vão existir sempre. O problema é "estar no sitio errado, na hora errada".
  • MASQUEGRACINHA
    20 jun, 2017 TERRADOMEIO 20:20
    Tudo muito certo. Mas, por uma vez, alguém que chame as coisas pelo nome, pois que são óbvias : neste particular caso dos incêndios, a política, esse "serviço" como lhe chama, e os políticos, esses "servidores", têm as mãos sujas das cinzas da floresta portuguesa, das lágrimas e aflições de uma parte do povo que dá poucos votos e que abunda nas anedotas de fim de almoço. Agora, têm também as mãos sujas de sangue - ou de tanto sangue que é impossível escondê-lo. A articulista é pessoa inteligente - e sabe bem que os Kamovs, os SIRESPs, a eucaliptolândia, as leis que ninguém conhece e que ninguém cumpre em nome da sacralidade da "propriedade privada", todas essas porcarias e escândalos sempre mal explicados e bem esquecidos, só podiam ter este desfecho. Com ou sem aquecimento global, a ganância, a estupidez, a preguiça, a cobardia, a arrogância, o desprezo pelos outros, todos esses inestimáveis "serviços públicos" que tão abundantemente nos têm prestado, vieram ter aqui. Acusam-se agora uns aos outros, porque nem consciência têm : têm um triturador de lixo. Eu acuso-os a eles, sob todas as suas manifestações e aparências: foram eles, os políticos, quem assassinou aquelas pessoas. Não têm sequer a atenuante da negligência.
  • Para refletir...
    20 jun, 2017 Almada 14:21
    Tenho de acrescentar que bem mais grave do que certos meios de comunicação social mostrarem certas imagens, é ignorarem e descriminarem os mais fracos, pois isto pode prejudicar gravemente os mais fracos. E queremos saber porque isto acontece?
  • Para refletir...
    20 jun, 2017 Almada 13:47
    O artigo fala em alguns assuntos importantes tais como: - As direcções dos meios de comunicação social não deveriam enviar amadores para cobrir - Mostrem a todos os portugueses que o voto vale alguma coisa,notícias desta envergadura. - A estupidez humana. - Uma sociedade democrática deve centrar-se na protecção e no bem-estar dos mais fracos. Acontece que a comunicação social que não é livre e pratica a censura é um dos grandes problemas que temos no país. A estupidez humana de facto existe e a comunicação social sabe isso perfeitamente e aproveita-se disse, daí a diversão e as não noticias que temos frequentemente. Depois o voto vale pouco porque temos grandes poderes não eleitos e a comunicação social ignora isso, eles não querem ver mais nada além da disputa política. Sim, uma sociedade democrática deve centrar-se na protecção dos mais fracos, mas a comunicação social é que ignora e descrimina os mais fracos, sendo a principal culpada da desproteção ao mais mais fracos e do atraso civilizacional que temos.
  • Nuno
    20 jun, 2017 Porto 11:32
    Título hilariante e descabido.... logo vi que não iria demorar muito a alguns palermas associar o (suposto) "aquecimento global" e a tragédia de Pedrógão. Ahhh...e Trump, claro...fica sempre bem em qualquer título!