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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Santo António & Chesterton

16 jun, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Estes “modernos” não compreendem que a religião não é um sistema filosófico de ideias, é uma paixão. São Francisco de Assis e Santo António não amavam a Humanidade, que é uma ideia, amavam homens concretos.

Quando escreveu a biografia de São Francisco de Assis, G. K. Chesterton deixou um aviso: abordar um homem pio dos séculos XII ou XIII é uma jornada intelectual que não pode ceder a duas pulsões tentadoras e incapacitantes, a pulsão laica e a pulsão devota ou espiritualista.

A primeira elogia o homem sem falar do santo, procura uma visão higienizada que retira Cristo da equação, elogia os feitos do biografado mas evita estabelecer uma ligação entre esses feitos notáveis e a fé. Mas falar da sensibilidade social de Santo António (por exemplo, o ataque à usura) sem invocar Deus é como tentar explicar o aventureirismo dos Descobrimentos sem invocar o sonho da Índia ou do Preste João. É impossível. Tal como é impossível falar do génio literário de Dante ou Flannery O’Connor sem abordarmos o assombro religioso que marcava a visão do mundo destes escritores. Intelectuais modernos como Renan e Arnold tentaram esta missão impossível, isto é, abordaram santos medievais como Assis e António através de uma lente que despreza o ascetismo, os jejuns, os estigmas, os sacrifícios, o desejo de martírio. É o mesmo que tentar explicar “Romeu e Julieta” sem o amor, esse pormenor que surge como uma irracionalidade debaixo da lente destes alienistas científicos que arquitectaram o desencantamento do mundo ao longo dos séculos XIX e XX.

Ainda hoje, estes “modernos” não compreendem que a religião não é um sistema filosófico de ideias, é uma paixão. São Francisco de Assis e Santo António não amavam a Humanidade, que é uma ideia, amavam homens concretos. Nem sequer amavam o Cristianismo, que também se pode transformar num ismo farisaico. Amavam Cristo. Os cínicos contra-argumentarão que eles amavam uma pessoa imaginária. Mesmo que isso fosse verdade, seria necessário sublinhar que se tratava de uma pessoa imaginária, não de uma ideia imaginária.

A segunda pulsão, a devota ou espiritualista, comete o erro inverso: retira o biografado do seu contexto humano e social, transformando-o num anjo que por acaso desceu à terra; há um excesso de entusiasmo teológico que transforma a biografia numa hagiografia ininteligível para o não crente. Aliás, até o crente tem dificuldades em captar o nevoeiro onírico da hagiografia. Parece-me que Aloysio Thomaz Gonçalves cedeu a esta segunda pulsão. Com apenas mais oito anos do que “São Francisco de Assis” (1923) de Chesterton, o livro “A Vida de Santo António de Lisboa” (1931) é uma hagiografia ultra-adjectivada que segue uma tese que me parece perigosa: a ideia de que Santo António era quase um anjo que por acaso se viu preso num corpo humano. É perigosa porque esquece que um santo é um pecador que não desiste, não é um anjo extra-humano que executa obras-primas morais sem qualquer esforço.

Seja como for, “A Vida de Santo António de Lisboa” tem uma vantagem sobre abordagens mais higiénicas. Não isola as ideias de Santo António em grandes chavões abstractos e regurgitáveis para o público moderno; o autor tem o mérito de seguir o rasto empoeirado das viagens de Santo António por Portugal, Itália e França. Isto não é um pormenor. Para não cair no destino desumanizante dos restantes ismos, o cristianismo tem de evitar o abstracto, tem de se centrar no concreto, no biográfico, na peregrinação. O cristianismo só faz sentido numa literatura de viagens. Se repararmos bem, a viagem está no centro da nossa fé: o Antigo Testamento é uma epopeia de êxodos e regressos, o Novo Testamento é composto pelas viagens de Cristo na Palestina e pelas missões de Paulo no Mediterrâneo; depois temos os caminhos de São Tiago, as viagens de São Francisco de Assis e do seu mais notável seguidor, Santo António de Lisboa. Também não é por acaso que o grande poema cristão, Divina Comédia, é uma viagem. Imaginária, sem dúvida, mas uma viagem e não uma mera divagação.

Sou católico, mas confesso a minha relativa descrença em relação a aparições e milagres. Contudo, isto não impede o meu fascínio narrativo pela figura do santo católico, que me faz lembrar a figura do profeta do Antigo Testamento. Nos dois mil anos D.C., os santos católicos têm desempenhado o papel que os profetas hebreus desempenharam nos dois mil anos A.C. – têm sido os almocreves da fé, os símbolos moventes da aliança entre Deus e o seu povo, os vasos sanguíneos que tentam estancar a gangrena da descrença, da violência, da hubris. E repare-se que o tempo de António de Lisboa era violento e arrogante. Se Padre António Vieira viveu a decadência portuguesa e católica perante o avanço protestante, Santo António viveu a força portuguesa e católica na época da reconquista cristã.

Antes de ser repabtizado como António, este grande sábio do século XIII dava pelo nome de Fernando Bulhão, filho de uma família lisboeta, aristocrática e guerreira, típica da época das cruzadas. Para espanto dos seus, o menino Fernando recusou o estatuto social e a glória guerreira, preferindo a clausura religiosa que se consubstanciou em Coimbra, nomeadamente naquela que é hoje a minha igreja de Coimbra – a igreja de Santo António dos Olivais, local histórico da ordem mendicante criada naquele tempo por São Francisco de Assis. Por uma série de razões que não cabem neste espaço, Fernando deixou a ortodoxia religiosa e entrou na heterodoxia quase revolucionária dos franciscanos. O seu nome passou a ser António, o primeiro sábio da ordem seráfica e caixeiro viajante que enfrentou os pecados da Europa daquele tempo. Por exemplo, debateu-se com a grande heresia do catarismo, um culto niilista, maniqueísta e oriental que pervertia o humanismo cristão. António lutou com palavras contra os hereges em França (albigenses). Sem sucesso, diga-se. Os niilistas albigenses não se converteram, forçando assim a famosa cruzada albigense que está na génese, por exemplo, da Inquisição.

Se em França lutou contra a heresia, Santo António enfrentou em Itália a grande divisão política da Idade Média, o choque entre guelfos e gibelinos. Foi neste contexto que surgiu o meu episódio favorito das aventuras de Santo António: a forma como enfrentou a personificação da tirania, Ezzelino III.

O conflito entre guelfos e gibelinos era a tradução italiana do conflito entre o Papado italiano e o Sacro Império alemão. Os guelfos apoiavam o papado, os gibelinos o Imperador. Ezzelino era o lacaio italiano de Frederico II, imperador da família Hohenstaufen, grande inimiga dos papas. Implacável na guerra, Ezzelino conquistou Verona, Vicenza, Bréscia e Pádua para a causa gibelina. Era implacável antes, durante e depois das batalhas. Lendária se tornou a forma como tratava os prisioneiros: arrancava-lhes olhos, matava-os à fome, queimava-os vivos. Num só dia, queimou onze mil cidadãos de Pádua, a cidade de eleição de Santo António. Quando conquistou Verona, Ezzelino fez prisioneiro um amigo de Santo António, o Conde Ricardo de São Bonifácio. Consciente dos perigos que corria, António pediu um face-a-face com o tirano e pediu a libertação do amigo. Falhou no intento, mas cumpriu um desígnio cristão: estar disponível para morrer não pela Humanidade, abstracção vaga, mas por um amigo concreto. Este é o meu episódio favorito porque revela um homem de coragem. António não era um mero sábio ou teórico, era um homem com o sentido trágico da acção (na teoria não há tragédia). Tendo em conta a sua profunda sapiência, podia ter procurado refúgio numa biblioteca para nos deixar a sua Suma Teológica, mas, em vez disso, calcorreou o mundo, enfrentou hereges que o apedrejavam, debateu-se com tiranos e usurários que o ameaçavam, palestrou ao povo em gigantescos sermões que paralisavam cidades até altas horas da madrugada. Sim, até de madrugada, porque António ficava a ouvir as confissões de centenas e centenas de pessoas tocadas pelas suas palavras que fundiam o frio da erudição com o ardor da piedade.

Santo António representa uma viagem exterior (Lisboa, Coimbra, França, Itália) e uma peregrinação interior que nós, portugueses, devíamos recuperar. Espero que a reedição deste livro hagiográfico mas honesto seja apenas o início dessa redescoberta.

PS: salvo duas ou três alterações feitas agora mesmo, este texto é o meu prefácio da reedição de “A Vida de Santo António de Lisboa” (Paulus, 2016)

Comentários
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  • João Lopes
    17 jun, 2017 Viseu 10:29
    Excelente artigo de Henrique Raposo!