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Opinião de Henrique Raposo
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NEM ATEU, NEM FARISEU

Almoço com colegas ou jantar com filhos?

19 mai, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


A principal causa da baixíssima taxa de natalidade de Portugal é a forma como organizamos o nosso dia-a-dia. Deitamo-nos tarde, levantamo-nos tarde, começamos a trabalhar tarde e, como se tudo isto não fosse suficiente, temos o hábito do longo almoço.

Quando o relógio indicar 14 horas, façam-me um favor: olhem à vossa volta e registem o que estão a ver. O retrato não será muito diferente do seguinte: são duas da tarde mas a cidade ainda está no almoço; ainda se come feijoada ou tomate com queijo feta de forma pausada, quase pachorrenta; os grupos de colegas de trabalho que por acaso já acabaram o repasto regressam em ritmo estival ao escritório depois da longa pausa imposta pelo sacramento que é o farto almoço – farto na comida, nas palavras e no tempo desperdiçado. Mas qual é o problema com este quadro bucólico? Uma sociedade que retoma o trabalho depois das duas é uma sociedade que só vai sair do trabalho às seis, sete ou mesmo oito da noite. E onde é que ficam os filhos nesta equação? Não ficam. De resto, ninguém me tira da cabeça que a principal causa da baixíssima taxa de natalidade de Portugal (1,2 filhos por mulher, talvez a mais baixa do mundo) é a forma como organizamos o nosso dia-a-dia. Deitamo-nos tarde, levantamo-nos tarde, começamos a trabalhar tarde e, como se tudo isto não fosse suficiente, temos o hábito do longo almoço, que não se limita a cortar o ritmo de trabalho, também corta o tempo para os miúdos. Os portugueses almoçam com os colegas de trabalho mas não jantam com os filhos. Ou jantam à pressa. Come-se uma “coisa qualquer” e não há aquela conversa formativa à mesa. Os miúdos, ou melhor, o miúdo fica entregue ao frigorífico e ao tablet.

Um dos efeitos desta cultura almoçarista ficou evidente nesta semana: a obesidade crescente nas nossas crianças. Temos portanto a taxa de natalidade mais baixa da Europa e, como se isso não fosse suficiente, estamos a criar os garotos mais obesos da Europa. Poucos e gordos. Devido ao hábito “cultural” do longo almoço, devido à mania “cultural” de ficar até tarde no trabalho, os pais chegam demasiado tarde a casa, seis e tal, sete, oito, se não for nove. Se houver dinheiro para empregada, o cenário tem remédio, a Dona Amélia, a Svetlana ou a filipina ilegal deixam sopa e comida feita e, durante o dia, foram à fruta. Mas, se não houver dinheiro para criadagem (a maioria dos casos), come-se “qualquer coisa” à pressa. Desta forma, os pais não ensinam as crianças a cozinhar e a comer. E claro que na escola as crianças também não vão à cantina, comem entulho remotamente orgânico no boteco mais próximo.

Acham que isto é um mero pormenor? Não, não é. Quem trabalha ou trabalhou nos EUA ou na Europa percebe logo que está aqui um problema. Na Alemanha, por exemplo, o trabalho acaba no máximo às quatro/cinco horas, porque se começa cedo e porque não se sacraliza o almoço com colegas; sacraliza-se o jantar com a família. Perante esta comparação com a Alemanha, já estou a imaginar a vossa contra-argumentação: dir-me-ão que esta é a nossa cultura, que temos direito ao almoço e à sesta. Lamento, mas essa é uma argumentação reaccionária. O que é “cultural” e “tradicional” não é sagrado, sobretudo quando é uma causa de morte lenta. O hábito da pausa do almoço e da sesta nasceu numa sociedade patriarcal que atribuía a gestão da casa e dos filhos à mulher, que só podia ser dona de casa; os homens no passado podiam ter longos almoços e ficar a trabalhar até tarde, porque em casa as mulheres tratavam dos filhos e do consequente futuro demográfico da sociedade. Hoje isso já não acontece. Com as mulheres no mercado de trabalho, o longo almoço torna a vida familiar num inferno e atira-nos para o deserto demográfico. Moral da história? Nós não podemos querer sol na eira e chuva no nabal. Não podemos ser modernos e desejar a mulher no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, não podemos ser reaccionários e desejar um horário de trabalho do patriarca marialva. Portanto, quando o relógio indicar 20 horas, façam-me por favor. Abram o vidro do carro e perguntem o seguinte ao vizinho do lado aí do engarrafamento: “um almoço de uma hora com colegas de trabalho é assim tão importante? Porque é que a nossa sociedade está organizada em redor do almoço com meros colegas e não em redor do jantar com a nossa família?” Obrigado.

Comentários
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  • André Oliveira
    24 mai, 2017 Lisboa 15:42
    "Acham que isto é um mero pormenor? Não, não é. Quem trabalha ou trabalhou nos EUA ou na Europa percebe logo que está aqui um problema." Pessoalmente sempre trabalhei na Europa (em Portugal).
  • Inês
    23 mai, 2017 Lisboa 13:03
    Fico admirada com todos os seus artigos, são tão cretinos e desinformados que não sei porque lhe pagam. Vamos fazer um exercício de matemática simples? O meu marido e eu ganhamos 1600 euros mensais, pagamos de renda de casa 400 e de colégio 450 sem comida (não há vagas nas ipss, se não teria sido a opção)ora sobram 750, certo? Agora é preciso somar todas as outras despesas; fraldas, comida, água, luz e passe e não é que já chegámos rebentámos o orçamento? Como se pode ter um segundo filho? Em relação aos horários de almoço faço em média 10 min, o meu marido muitas vezes nem consegue almoçar. Vivo ao lado do trabalho chego a casa às 20h, (adoraria chegar às 17h mas depois não ganhava para as despesas, o pai do meu filho às 21h30, muitas vezes nem o vê acordado, porque quer? Ou porque precisa de apresentar resultados para a empresa não arranjar outro "escravo"? Já que é tão moralista, tenho certezas que não frequenta nenhum lugar para comprar o que quer que seja depois das 17h? claro que não porque isso seria hipocrisia pura, criticar e ser parte do problema...nunca, não é Sr. Henrique?Já em relação à obesidade, temos dois polos distintos, o primeiro um facilitismo por parte dos pais e escolas (que no meu ver não deveriam ter determinados alimentos) e depois outra vez o aspecto económico. é tão mais barato comprar comida de plástico, mas neste ponto não posso nem defendo a maioria dos pais porque acredito que existam opções igualmente baratas e nutritivas.
  • Joana S.
    22 mai, 2017 França 10:34
    Este senhor comentador conjuga duas das coisas que mais mal fazem ao nosso pais: o moralismo catolico bacoco e ultrapassado (e longe da benevolência do papa Francisco) e a superioridade arrogante das classes superiores portuguesas (faz um pouco pensar na Cenhoura da Criada Malcriada...) ... Nao sei se este senhor tem patrao, mas nao parece. Nunca deve ter tido horàrios fixos para cumprir com patrao a olhar por cima do ombro, nem a pressao de pares para sair o mais tarde possivel. Tudo isto é cultural, mas autorizado largamente por um estado deleixado e permissivo. Nao sei se este senhor jà viveu no estrangeiro, mas aqui em França tira-se uma hora para comer ao almoço e isso é considerado como positivo e fazendo parte duma certa cultura latina que ainda aprecia a qualidade de vida e nao a obsessao funcional anglo-saxonica. E sim, qualidade de vida e eficiência, os dois sao compativeis. Nao sei se este senhor jà deu à luz em Portugal, mas antes de me explicarem o milagre que isso seria oiçam antes os relatos catastroficos de tantas maes que oiço e que me explicam que o segundo està fora de questao por terem sido tao mal tratadas, seguidas e aconselhadas. Por fim, nao desejo a este senhor as condiçoes financeiras ou o ostracismo da gravidez na empresa que chegam a tantas familias que gostavam de ter mais filhos mas nao os têem. Nao julgues e nao seràs julgado... especialmente se nao sabes do que falas.
  • mara
    21 mai, 2017 Portugal 12:38
    Caro Dr. Henrique Raposo o vosso artigo é simplesmente excelente parabéns e teve o condão de me trazer à memória, um caso passado há cerca de cinquenta anos, um pai duma dezena de filhos e casado em segundas núpcias, já avançado em anos, morando numa zona montanhosa muito isolada, foi convidar mais uma vez uma senhora para madrinha duma criança, a senhora muito admirada com o caso perguntou: O compadre tem mais outra criança? Comadre não temos outro espaircimento... O Governo se quer aumentar a natalidade tem de proibir os almoços e mandar os casais para o isolamento das serranias...
  • Ana
    21 mai, 2017 FAFE 12:24
    Parece-me um bocado leviano atribuir quer a obesidade, quer as baixas taxas de natalidade, aos almoços. Henrique Raposo, lá sabe do que fala, na sua experiência de vida. Mas se quiser uma leitura mais sofisticada, verifique az horas de trabalho da maior parte dos casais, da distribuição de tarefas no casal, e nos habitos sedentários e a qualidade da alimentação que os nossos alunos têm!
  • Claudia Pimentel
    21 mai, 2017 Lisboa 02:27
    Concordo que 1 hora de almoço é excessivo mas a nossa lei assim o exige. Na minha empresa, todos queriam ter menos hora de almoço e sair mais cedo e, espanto geral, mesmo com a concordância dos trabalhadores a Inspeção do Trabalho não deixou... parece mentira mas não é! 😞
  • Carlos
    20 mai, 2017 Lisboa 20:25
    100% de acordo. Só o Tuga bronco que só sai de PT com a equipa de futebol pode esta em desacordo. Trabalhei na Holanda, na Suíça e na Bélgica e confirmo as palavras de HR.
  • Ângela Veloso
    20 mai, 2017 Lisboa 15:01
    Henrique Raposo, de certeza que está a falar por si na sua vida. Abandonar um miúdo ao frigorífico ou ao tablet, só demonstra o péssimo exemplo que Henrique Raposo é como pai.
  • João Lopes
    20 mai, 2017 Viseu 14:54
    Excelente artigo!
  • Miguel Botelho
    20 mai, 2017 Lisboa 09:03
    Por este texto, ficamos a saber que a causa da baixa natalidade no nosso país é devido aos almoços prolongados. Os almoços são na sua maioria «feijoada ou tomate com queijo». Faço ideia o resultado de alguém a abrir o vidro do carro, às 20 horas, para perguntar ao vizinho do lado do engarrafamento: “um almoço de uma hora com colegas de trabalho é assim tão importante? Porque é que a nossa sociedade está organizada em redor do almoço com meros colegas e não em redor do jantar com a nossa família?” Provavelmente, não responde, porque não há engarrafamento. Por último, alguém poderá dizer o que significa uma causa de «morte lenda»? Obrigado.