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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Tentar perceber

1917-2017: Igreja, Estado e sociedade

13 mai, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O catolicismo perde relevância na sociedade. Não é negativo para a fé, pelo contrário.

Neste fim-de-semana as atenções de muita gente concentram-se em Fátima e na visita ou, mais rigorosamente, na peregrinação do Papa Francisco. Por isso será oportuno olhar para o que se passou desde há um século.

Fátima aconteceu, há cem anos, num contexto marcado pela hostilidade do Estado republicano face à Igreja Católica. A I República restringiu o número de eleitores e não deu o voto às mulheres, receando a influência que os padres teriam sobre elas.

A chamada lei da separação entre o Estado e a Igreja, de 1911, era, no fundo, uma lei de sujeição da Igreja ao Estado. Nesse aspecto não era muito diferente do que acontecia na monarquia constitucional, com a diferença de o catolicismo ser a religião oficial do Estado monárquico. Esse Estado nomeava bispos e párocos, o que era tudo menos saudável, para a política e para a religião.

Em 1917 ia a I Guerra Mundial no seu trágico terceiro ano. Foi então que Portugal entrou nesse conflito sangrento, na Europa, muito por motivos de política interna - unir os partidos em torno dos Democráticos de Afonso Costa. O que, aliás, não foi conseguido: a raiva dos soldados portugueses para com os políticos que os enviaram para as trincheiras da Flandres foi um dos factores do colapso da I República.

1917 também foi o ano em que caiu a monarquia absoluta na Rússia e, meses depois, triunfou a revolução comunista, num país atrasado e pobre, onde tal coisa não era prevista acontecer. Um comunismo militantemente ateu.

O Estado Novo e a Igreja

Depois do colapso da I República, a Igreja Católica acolheu-se à “protecção” do Estado Novo, ainda que com excepções e limites. Tal aproximação serviu a ditadura de Salazar mas teve custos para a vivência da fé católica. Por volta de 1960 várias personalidades e sectores do catolicismo começaram a distanciar-se do regime, com destaque para o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e para o Bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto.

No plano externo, as relações entre o Estado de Salazar e o Vaticano deterioraram-se, muito por causa das divergências sobre a autodeterminação dos povos colonizados. A vinda de Paulo VI a Fátima no cinquentenário das aparições (1967) esteve para não se realizar, por oposição de Salazar. Acabou por acontecer num ambiente gélido entre o Papa e o presidente do Conselho.

Após o 25 de Abril de 1974 houve o cuidado da parte dos principais políticos, a começar por Mário Soares, de não repetir os erros da I República no relacionamento com a Igreja. E da parte desta realizou-se um considerável esforço de convivência pacífica e cooperante com um Estado laico numa sociedade cada vez mais pluralista.

O chamado “catolicismo sociológico”, isto é, uma religião culturalmente predominante e que regia os usos e costumes sociais, esse catolicismo foi-se desvanecendo a partir de então. Decerto que não foi fácil à Igreja adaptar-se a esta profunda mudança. Mas a mudança favoreceu a autenticidade da fé, que deixou de ser um mero hábito. Agora, em Portugal e em muitos outros países, só é católico quem escolhe sê-lo.

A vitalidade do Evangelho

No nosso tempo, “as práticas crentes deixaram de contar com o reconhecimento cultural e a protecção social de um centro incontestado, bem delimitado e seguro. Perante a indiferença de muitos e a hostilidade de alguns, (nós, católicos) tornámo-nos pobres, não tanto de coisas, mas de relevância, de lugares e de identidade. (...) O cristianismo parece atravessar, hoje, a dor da perda e da insegurança”. São palavras de José Frazão Correia, Superior Provincial dos jesuítas em Portugal, no seu livro “Entre-tanto – a difícil bênção da vida e da fé” (Ed. Paulinas, 2014).

Nos católicos, em Portugal e na Europa, essa “dor da perda” conduz a reacções diversas. Alguns desanimam e abandonam a Igreja, convencidos da irrelevância do catolicismo. Noutros casos, a insegurança leva católicos a refugiarem-se em rígidos preceitos e normas, numa atitude defensiva mais próxima dos fariseus do que de Jesus Cristo – que lembrou que o sábado é para o homem e não o inverso.

Mas há respostas mais saudáveis. Importa lembrar que Cristo, contrariando as expectativas judaicas de um Messias poderoso e político, repudiou as tentações do poder, do dinheiro, do espectáculo. E não se furtava a dialogar e até a comer com gente socialmente mal vista, de prostitutas a cobradores de impostos.

O padre José Frazão Correia alerta para que aquilo que “estamos a perder pode não ser o essencial da nossa fé. Poderão ser formas de segurança sociológica e cultural que, na realidade, encobrem e enfraquecem a surpreendente vitalidade do Evangelho”. É essa vitalidade que o Papa Francisco coloca em primeiro lugar.

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  • ALETO
    14 mai, 2017 Lisboa 17:08
    À «Indignada»: eu julgava que corruptos e cleptocratas eram os partidos da direita, sendo que alguns que se auto-proclamavam «socialistas» (como exemplo, António Guterres e José Sócrates) os tentavam imitar, para ganhar votos, dado que a maioria do povo português (com acento acima do rio Mondego) não vota em partidos da esquerda, devido às imposições da Igreja Católica que ainda vive no tempo da Idade Medieval.
  • Indignada
    14 mai, 2017 Fig Foz 02:37
    Sem dúvida que há uma perda..., que não é trágica. O que é trágico, é a mentalidade de "moeda de duas caras" que muitos católicos têm, revelando uma inaceitável hipocrisia, caso de apoiarem políticos abortistas, corruptos, que usam e abusam do Poder em proveito próprio! Será que não percebem que não é possível ser-se discípulo de Jesus Cristo e do socialismo (doutrina materialista), irem à igreja (ou a Fátima) bater com a mão no peito e votar em partidos da esquerda, corruptos e cleptocratas?
  • Jorge
    13 mai, 2017 Sintra 22:37
    Li o artigo com atenção e, concordo/discordo. Tem muito a ver com a janela/ componente ideológica de cada um. Em 1910, tínhamos uma igreja conservadora, com um pendor marcadamente obscurantista. Aliás, herdeira natural da beatice e despotismo "Miguelista". Por seu lado, temos uma Primeira República, radicalmente anticlerical e ateísta , o que chocava a Igreja, face a uma sociedade profundamente católica. A entrada de Portugal na Guerra em 1917, diz a História, terá a ver com a defesa do ultramar português... por outro lado, é bem conhecido o "germanismo" de "Sidónio". No Estado Novo a cumplicidade da Igreja com o fascismo é de grande visibilidade, mas havia segmentos da igreja que contestavam essa política...Quanto à Rússia, o Marxismo foi mesmo deturpado e falhou, mas A Revolução de Outubro de 1917, enquanto símbolo libertador, foi de uma incomensurável importância para a classe operária e não só, na sua luta emancipatória!, "O catolicismo perde relevância na sociedade. Não é negativo para a fé, pelo contrário". A laicidade do Estado,reflecte-se na sociedade, naturalmente. A derrota do analfabetismo, as qualificações académicas da população, leva que a doutrina religiosa não seja "tiro e queda" como no tempo dos nossos pais. E, alterando-se os valores, mudando-se as regras e as normas, mudam-se também os comportamentos das pessoas, mesmo em matéria religiosa. Penso que agora, partimos, para a fé mais esclarecidos. Parabéns pelo artigo/temática.
  • Alexandre
    13 mai, 2017 Lisboa 15:26
    Texto pouco esclarecedor. Não esclarece porque Portugal entrou na I Grande Guerra. Por motivos da política interna ou por pedido externo? A raiva dos soldados portugueses contra aqueles que os enviaram para a guerra foi um dos factores do colapso da I República ou foi um dos factores para a implantação da primeira ditadura presidencial, através de Sidónio Pais? Francisco Sarsfield Cabral esquece que alguns dos soldados que lutaram no estrangeiro foram maltratados e até presos pelo regime imposto por Sidónio Pais (ex: Jaime Cortesão). É nesse contexto que Portugal assiste ao chamado «milagre de Fátima» que nada tem a ver com o evangelho, nem com os cristãos, admiradores e seguidores de Jesus Cristo.