O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-
NEM ATEU, NEM FARISEU

Sexo e morte

05 mai, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Tem de haver um mundo equilibrado algures entre a carpideira que nos reduzia à dor e a sexóloga que nos reduz à condição de orangotangos excitados.

Quando os nossos pais nasceram nos anos 30, 40 ou 50, a morte não era uma raridade. Hoje em dia, podemos chegar aos 50 anos sem atravessarmos esse Rubicão moral que é a morte de alguém mesmo próximo.

Esta ausência de sofrimento era impossível há mais de meio século. Aliás, há mais de meio século nem toda a gente chegava aos 50 anos. Morria-se cedo e às mãos de doenças que entretanto foram dominadas pela tecnologia farmacêutica.

A vitória da medicina e da química sobre a doença, sobretudo em países pobres como Portugal, estava muito longe dos actuais quinze-a-zero. As doenças e as mortes constantes ainda estavam no centro da nossa condição; o choro da carpideira era uma das faixas obrigatórias da banda sonora. Desde a infância, a pessoa habituava-se aos acordes da treva. O pai ou a mãe podiam morrer aos 30 ou aos 40; as crianças sabiam que podiam perder a mãe no parto de um irmão mais novo, ou sabiam que podiam perder o tal irmão mais novo, ou os dois. Depois, mesmo que sobrevivesse ao parto, aquele irmão mais novo poderia morrer nos primeiros anos de vida. Perder um bebé ou uma criança para a doença hoje em dia é um inferno raro. Mas, no tempo da minha avó, era tão natural como o vento a passar nas árvores.

Neste contexto, a morte nunca poderia ser o tabu que é hoje; era uma porta de uso frequente que o futuro poderia abrir a qualquer instante. Aliás, nem havia porta, o frio entrava sem licença.

Se a morte não era um tabu, o sexo era com certeza o grande interdito. Ou seja, a sociedade onde os nossos pais nasceram era o exacto oposto da sociedade onde estão a nascer os nossos filhos. Como se vê em vários aspectos (a higienização da Páscoa, o azedume em relação à fé, a distanásia médica, o culto do corpo, a paranóia com a alimentação), o nosso tempo não sabe lidar com a doença, com a dor, com a morte. Até se procura retirar a morte do espaço público. A morte é um embaraço. Os familiares não visitam as campas dos seus mortos no cemitério. O próprio luto já é considerado uma doença pela hiperactiva psiquiatria moderna.

As autarquias até aboliram o termo “cemitério”, agora fala-se em “complexo mortuário” ou “centro funerário”. Ao mesmo tempo que fecha a morte neste casulo, a sociedade abre o sexo por completo, transformando o corpo sexualizado, sobretudo o corpo feminino, na grande presença do espaço público. Os soluços da carpideira deram o lugar aos gemidos de prazer no centro da banda sonora.

O meu pai nasceu numa época que normalizava a morte e que interditava o sexo. As minhas filhas nasceram numa época que normaliza o sexo e que interdita a morte. Não estou a fazer juízos de valor, estou só a constatar uma total inversão dos interditos, que, parece-me, ainda desorienta grande parte dos cristãos. A cristandade ficou sem pé com esta mudança. Mas também me parece que a síntese destes dois tempos tão distintos só poderá ser cristã. Tem de haver um mundo equilibrado algures entre a carpideira que nos reduzia à dor e a sexóloga que nos reduz à condição de orangotangos excitados.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Maria Mesquita
    08 jul, 2017 Bobadela 16:41
    Concordo com tudo.Mas ha sempre mudancas nas civilizacões ..na forma de cultos...inevitavel!Por acaso eu e minha familia nao concorda com cemiterios.Morreu meu filho agora e foi cremado.Morreram meus Pais e tambem foram.Choro na mesma...penso neles na mesma.Cada um de nos filhos mora num a cidade...qual escolheriamos?Quem trataria da campa?E depois da nossa morte.Ja o meu filho morreu no edtrangeiro.Tinha emigrado pelos motivos sabidos e tinha 2 licenciaturas uma de 5 anos..outra pis-Bolonha.Ganhava uma miseria..ela tambem. Todos os paises estao em mudancas neste momento...
  • Vera
    07 mai, 2017 Palmela 02:50
    É isso tudo que o Sr.Henrique Raposo acabou de escrever! é correcto e afirmativo! e os pais eram donos dos filhos, até eles irem para a tropa! e não havia vacinas para o sarampo, por isso se morria mais! mas havia vacinas contra a falta de educação, por outras palavras: havia vergonha na cara! mas, "muda-se o tempo, mudam-se as vontades" e "não se pode ter tudo". Então "cá vamos, cantando e rindo!" aonde é que eu, já ouvi isto?... ah! já sei! era nas aulas de 'canto coral' do ensino preparatório!!! - Então meninas!... E nós, com grande esforço, parávamos de rir. Era tudo ridículo! menos a educação, que era assim como a tabuada, ficou para sempre! pois ficou.
  • João Galhardo
    06 mai, 2017 Lisboa 09:26
    Já percebi que todos os comentários contra Henrique Raposo são censurados pela Renascença. Excepto alguns, como aquele transmitido por Miguel Botelho. Ficam em maioria os comentários a favor. É desta forma que a Renascença quer continuar a ser vista como estação emissora imparcial?
  • maria
    05 mai, 2017 lisboa 19:02
    belíssimo texto, a morte é o tabu desta era, que as pessoas querem ignorar a todo o custo colocando por vezes os seus familiares bem longe
  • Domingos Simões
    05 mai, 2017 Caldas da Rainha 18:31
    Vou repetir-me, numa como que declaração de "interesse na minha proteção pessoal"! Todas as opiniões são válidas e são 100% respeitáveis todas aquelas em que o opinante não falte ao respeito a si próprio e a outrem. Sobre o tema que hoje é tratado pelo estimado HR, não me abstenho de felicitar o autor do artigo, pela clareza com que expressa o seu pensamento escorreito, sem sinais de teias de aranha, nem na cabeça nem no coração. Muito agradecido lhe fico.
  • Miguel Botelho
    05 mai, 2017 Lisboa 14:55
    Após constatar que Henrique Raposo não serve para escrever artigos de opinião (isso ficou patente no seu último texto), eis que a Renascença aposta na sua continuação. A Renascença assegura o caminho da mediocridade, apostando em vozes vindas do radicalismo de direita neste país. Miséria!
  • saul mendonça
    05 mai, 2017 ervedal 14:48
    portugal dos anos 50... que bom... morria muita gente, principalmente os pobres que não tinham acesso a cuidados de saúde. mas pelo menos eram obedientes e sexo só para procriar, como os restantes animais da criação divina e já agora, que tal um relógio comemorativo das aparições? ou 1 tenda por 500€ em fátima - tudo muito sacrossanto. ganhar dinheiro com a fé dos outros não é pecado. fazer amor, pelos vistos, é. e se comprar o relógio? já posso amar sem pecado?
  • João Lopes
    05 mai, 2017 Viseu 12:50
    Artigo interessante de HR. Ajuda a pensar na realidade atual: absurda, irracional, incoerente, incongruente, sem sentido para muita gente, mas que consciente ou inconscientemente tem vindo a impor-se: vive-se apenas o momento que passa e só se valoriza a sensação e o sentimento e não sabem pensar…