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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Desumano é equivaler o cão ao homem

28 abr, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Ao equivaler o cão ao homem, o animalismo dessacraliza a vida humana, dessacraliza os direitos humanos, atira a vida humana para o estado da natureza. Os exemplos desta desumanidade já são às dezenas.

“Os cães não são coisas”, “quem não gosta de animais não é boa pessoa”, “eles (os cães) vêem sempre quem é boa ou má pessoa”, “gosto tanto dos meus cães como dos meus filhos”, “ter um cão ensinou-me a ser pai/mãe”, “os animais têm a mesma dignidade dos homens” e, claro, “os animais são mais humanos do que os próprios homens”. Estas e outras frases já fazem parte da poluição sonora que nos apascenta. O que até é compreensível. Este animalismo pagão é o reflexo de uma sociedade de gente sozinha, triste e com enorme doses de ressentimento por tratar.

O animalista é quase sempre uma pessoa que respira raiva contra outras pessoas, contra o ex-marido, contra a ex-mulher, contra a nora, contra a humanidade em geral, esse vírus que consome a mãe natureza. O alegado amor pelos animais é só uma forma de sublimar esse ódio galopante. É compreensível.

Somos uma sociedade de divórcios, de relações instáveis, de filhos únicos, de idosos solitários que passam meses sem ver os filhos ou netos. Não há primos ou irmãos, não há tios ou tias, não há netos ou avós, não há maridos e mulheres. Neste deserto emocional, é evidente que muitas pessoas transferem as emoções para os animais; cães e gatos funcionam como espelhos passivos onde são projectados afectos e ressentimentos. “Os cães são fiéis, ao contrário das pessoas”. Tudo isto é compreensível, sem dúvida, mas há limites. E este animalismo já passou há muito os limites morais de uma sociedade civilizada.

Quem é que recebe a maior onda de indignação? O toureiro que fere um touro ou o dono do rottweiller ou pittbul que mata um bebé? A resposta é o primeiro. E o poço é ainda mais fundo. O cão recebe uma campanha de compreensão na internet. As pessoas lembram-se do nome do cão assassino e não do nome do bebé assassinado. A humanização do animal (o abate é visto como um “assassínio”) causa assim a desumanização do bebé, da criança, do ser humano.

O espantoso é que esta tribo animalista equipara moralmente uma pessoa a um cão com uma vaidade moral que faz lembrar os marxistas dos anos 50. Julgam-se superiores, acham que são a vanguarda moral, julgam-se super-humanos. E, tal como as ideologias do passado, esta hubris esconde a sua intrínseca desumanidade.

Ao equivaler o cão ao homem, o animalismo dessacraliza a vida humana, dessacraliza os direitos humanos, atira a vida humana para o estado da natureza. Os exemplos desta desumanidade já são às dezenas. O parlamento que criminaliza o abandono de animais é o mesmo parlamento que recusa criminalizar o abandono de idosos. O PAN recusa barrigas de aluguer no gado suíno mas apoia as barrigas de aluguer em pessoas. Começa a ganhar força a ideia de que um animal “consciente” tem mais valor do que um ser humano inconsciente. Exagero? Lembrem-se das declarações do líder do PAN: “há mais características humanas num chimpanzé ou num cão do que num ser humano em coma”. Portanto, se seguíssemos esta lógica, teríamos de dizer que o abate de um cão é mais indecente do que a eutanásia de um homem em coma. Se repararem bem, já lá estamos, já vivemos nesta lógica: o ar do tempo defende a eutanásia enquanto grita histericamente contra o “assassínio” de um cão.

Rir ou chorar? A sociedade que se cala ante o aborto, ante a eutanásia, ante a eugenia cada vez mais aberta, ante a nanotecnologia que cria um futuro pós-humano, ante as barrigas de aluguer que transformam bebés em bens que se podem comprar, enfim, esta sociedade que transforma o humano numa coisa é a mesmíssima sociedade que grita histérica “os animais não são coisas”.

Comentários
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  • Ana Ávila
    17 mai, 2017 Açores 10:10
    Concordo plenamente, vivemos numa sociedade com valores morais só contrário, eu gosto de animais, aliás tenho vários mas filhos são aqueles que tive, humanos.
  • Graça Gouveia
    16 mai, 2017 Amadora. Lisboa 13:53
    Parabéns ao autor deste belíssimo artigo. Muita " gentinha " tola vai enfiar a CARAPUÇA e, votar um tremendo ÓDIO e RAIVA de morte ao CRONISTA.! Porreiro.!
  • Joaquim
    16 mai, 2017 Lisboa 00:44
    Ao equivaler os direitos dos animais aos direitos dos humanos, ou mesmo ultrapassá-los e por causa disso fica escancarada a porta do esclavagismo. Eu explico: Se os animais tem os mesmos direitos que os humanos porque é que são propriedade dos humanos. Será um regresso ao tempo da escravatura? Será uma escravatura dos afectos entre os necessitados humanos e os animais de cara fofa que dão esse conforto?
  • nuno granja
    09 mai, 2017 Lisboa 10:55
    Susbcrevo na integra.
  • Miguel Ferreira
    07 mai, 2017 Azeitao 08:08
    Existe uma praga que se está a propagar por este mundo fora, que está a consumir todos os recursos da terra, que se está a multiplicar aos milhões, que come todo os tipos de animais, de plantas, que polui irreversivelmente grandes áreas do planeta, que explora os recursos fósseis da terra! Este texto é um exemplo do egocentrismo do homem sobre todas as outras espécies! Enquanto o homem se achar que é um ser superior e que todos os outros seres lhe devem prestar vassalagem irá sempre haver textos deste nível! Há outros seres com mais espiritualidade que muitos seres humanos que partilham este planeta!
  • Pinho
    06 mai, 2017 Lisboa 10:57
    Brutal! Verdadeiro e Inconveniente!!!
  • maria
    06 mai, 2017 evora 09:04
    Enfim...quando pensamos que a nova geral é sinónimo de evolução, deparamos com um texto idiotamente escrito. Afinal o que sabe sobre emoções? Ou sobre comportamento animal, desenvolvimento humano e etc.....
  • Milene
    06 mai, 2017 Pombal 00:00
    Repugnante. Não acrescento mais nada.
  • Ana Isabel
    05 mai, 2017 Guimarães 19:54
    Desumano é equivale-lo a si aos meus cães. Eles dão- lhe 10 a 0. Caríssimo, parece bem evidente a sua falta de contato "humano" com outros seres, arrisco até a dizer com outros humanos. É bem notório que sofre também de graves recalmentos, se calhar desenvolvidos na sua infância, quiçá numa outra reencarnação! Aconselho-o terminantemente a procurar ajuda, algumas sessões de psicoterapia poderão ser a solução para o ajudar a ultrapassar os seus recalmentos e frustrações. Caso não resolva, tente um lugarzinho como bobo da corte do Trump, pois a sua visão da sociedade parece espelhar-se bem na dele ;) Caso queira aprender a viver nesta realidade, contacte-me, estou na TOTAL disposição de lhe mostrar e demonstrar o que é um amigo de 4 patas, como lidar com eles e quanto eles são HUMANOS. E não tenha medo, eles não mordem. Já eu...
  • Artur Pinto
    05 mai, 2017 Amadora 15:21
    Extremamente interessante o seu artigo. Eu adoro animais, mas não nego que o seu artigo dá que pensar e vai de encontro as minhas duvidas e reflexões. Acho que os animais; animais de companhia claro está, porque as cobras ou os mosquitos ou ratos ou peixes ou frangos; etc; também são animais e pela lógica com o mesmo direito à vida; fico a pensar como disse e bem que se culpa o dono do cão e a sociedade mas ninguém fala na criança ou no idoso atingido pelo animal; É uma questão complexa mas acho que faz bem em levantar estas questões "contra-corrente". Eu gostei muito de ler o seu artigo; alguem que pense; porque não devemos ser simples ovelhas. Estamos a animalizar e tornar as pessoas coisas ao passo que queremos tornar os animais pessoas. Acredito que na igualdade animal e um justo e respeitoso tratamento para cada ser.