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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Moderar o optimismo

20 mar, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os “ratings” e os juros da dívida pública portuguesa não justificam optimismos.

No princípio deste ano, o ministro das Finanças mostrou-se esperançado na melhoria dos “ratings” da dívida pública portuguesa, bem como numa descida dos juros. Até agora, nem uma coisa nem outra aconteceram, excepto muito pontualmente.

Há dias, Mário Centeno manifestou ao “Financial Times” a sua frustração por as agências de “rating” não terem valorizado os bons resultados do Governo. Permanece a desconfiança dos investidores em relação a Portugal.

É injusta essa desconfiança? Não, porque os êxitos orçamentais obtidos em 2016 não são sustentáveis.

O investimento público, ridiculamente baixo no ano passado, assim como muitas despesas correntes “cativadas” (não efectuadas) em 2016, terão de subir este ano, sob pena de colapso em escolas, hospitais, tribunais, etc. E não haverá novo perdão fiscal. Vamos sair do Procedimento por Défice Excessivo, instaurado pela Comissão Europeia, mas a dívida pública tem aumentado.

Entretanto, no mercado secundário o juro da dívida portuguesa a dez anos mantém-se em torno dos 4%, contra 2,8% há um ano. Com um crescimento do PIB de 1,4% em 2016 e fracas perspectivas de melhoria nos próximos anos, essa taxa de juro, muito superior às da Espanha e da Itália, não permitirá uma redução significativa da dívida e levanta dúvidas sobre a nossa capacidade para a pagar um dia. Não espanta, assim, que subam os prémios de risco da dívida pública de Portugal para mais do dobro dos que paga a espanhola.

Tudo indica que os juros irão subir daqui em diante. A fase dos juros historicamente baixos acabou. A Reserva Federal já concretizou a primeira subida das três que se propôs fazer este ano.

O BCE mais tarde ou mais cedo seguir-lhe-á o caminho. E a sua compra de dívida portuguesa começou a diminuir e poderá cessar em breve.

O Presidente da República advertiu na semana passada o Governo contra excessos de optimismo. Para não cair no erro oposto – excesso de pessimismo – termino lembrando que os bancos em Portugal, que detém muita dívida pública nacional, poderão lucrar com os elevados juros dessa dívida. Ao menos isso.

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Comentários
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  • Basta
    21 mar, 2017 Olhão 07:00
    Sr Cabral porque razão não refere na sua brilhante homilia os juros negativos a prazos mais curtos. Será que no seu curso de economia não lhe disseram o que significa juros negativos.
  • MASQUEGRACINHA
    20 mar, 2017 TERRADOMEIO 19:13
    O artigo aponta factos que têm que ser levados em linha de conta, e que, esperemos, estejam a ser levados em linha de conta pelo governo. De resto, o Sr. S. Cabral sabe bem como funcionam essas coisas das confianças e desconfianças dos investidores: por lineares que as "justiças" ainda pareçam, cada vez o parecem menos. A economia dos mercados, se fosse desporto, era como a patinagem: tem sempre nota técnica e nota artística. Não quero deixar de expressar aqui como achei tocante o Sr. S. Cabral querer deixar-nos, apesar de tudo, um raiozinho de optimismo: vão então os bancos portugueses lucrar com isso! Ainda bem que, apesar do descalabro que expôs, ainda haja alguém que lucre, não é? É caso para estar optimista, de facto.
  • maria
    20 mar, 2017 lisboa 16:00
    os intolerantes do costume não aguentam opiniões diferentes das suas, não sabem viver em democracia, é uma boa cronica e diz o mesmo que a Dra Teodora que pelos vistos foi maltratada pelo energúmeno antonio c
  • JC
    20 mar, 2017 charneca da caparica 15:44
    Sr. Cabral ¿Por qué no te callas?
  • jorge
    20 mar, 2017 Sintra/Queluz 14:57
    São comentários à La Palisse. mas que estes comentadores não perdem a oportunidade para nos dizerem, que não conseguem digerir ideologicamente a derrota do anterior governo. Em nome da "liberdade de expressão, respeito o comentário do Sr. Francisco.
  • Justus
    20 mar, 2017 Espinho 11:39
    S. Cabral bem gostaria de ver a economia portuguesa por baixo, a resvalar para a crise e recessão em que se manteve durante todo o governo anterior. É bem patente nele e noutros escribas enfeudados a demagogias que apenas procuram o assalto ao poder para se banquetearem, o desânimo por verem o país a sair da depressão, do populismo e da mentira. Há ainda muito para fazer, claro que há, mas com perseverança, moderação e trabalho as coisas vão melhorando. Para quem andou um ano inteiro a apresentar previsões erradas e catastróficas do evoluir da nossa economia e teve que engolir muitos sapos vivos, era tempo de se calar, pedir desculpa pelos males feitos e começar a arrepiar caminho. Mas não. S Cabral continua igual a si mesmo, apresentando os seus desejos como se fossem certezas, o futuro como previsível de acordo com piores prognósticos e o passado como se não tivesse existido. Foram bons os êxitos orçamentais conseguidos o ano passado, mas S. Cabral vem imediatamente dizer e com grande contentamento, que isso não mais se verificará, não são sustentáveis! Olhe que sim, Sr. Sarsfield, olhe que sim! Não comece a dizer o que lhe vem à cabeça, porque de números pouco percebe e nós não somos parvos. Viu-se o ano passado e o despeito e vingança são maus conselheiros. Tente falar por si, não pelas agências de "rating", aquelas que, no governo anterior, colocaram a nossa economia no lixo. Agora, este governo tem que reverter a situação: tirar-nos do lixo que o Sr. sempre encobriu.
  • Miguel Botelho
    20 mar, 2017 Lisboa 08:30
    Infelizmente, o seu pensamento em relação a este tema continua a ser igual ao de Pedro Passos Coelho e Assunção Cristas. Só falta concluir, no final, «que vem aí o Diabo», como fez Passos Coelho há meses.