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Opinião de Manuel Pinto
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​Educação: a verdade, o belo, o bem e o justo

13 fev, 2017 • Opinião de Manuel Pinto


O currículo escolar como a organização do ensino devem colocar as competências emocionais e sociais ao lado das competências cognitivas e que o tempo de escola não pode ser apenas ocupado com aulas.

“Limitar a educação à transmissão de conhecimento académico é correr o risco de estupidificar os alunos, reduzindo-os à competição com os computadores, ao invés de focar em características humanas fundamentais que permitem que a educação fique à frente dos progressos tecnológicos e sociais. Pensar sobre a verdade, domínio do conhecimento humano e da aprendizagem; sobre o belo, domínio da criatividade, da estética e do design; sobre o bem, domínio da ética; o justo, domínio da vida política e cívica; o sustentável, domínio da saúde da natureza e física. São apenas alguns exemplos”.

A citação é de Andreas Schleicher, director do Departamento da Educação da OCDE, numa entrevista dada este sábado ao 'Observador'. Todo o texto, de resto, constitui um apelo a que tanto o currículo escolar como a organização do ensino devem colocar as competências emocionais e sociais ao lado das competências cognitivas e que o tempo de escola não pode ser apenas ocupado com aulas. Mais interacção entre as áreas e disciplinas, mais trabalho colaborativo, com a participação dos alunos, mais experimentação, mais personalização, mais vida cultural. Ou seja, mais inovação dentro e fora da sala de aula.

Os adeptos de uma escola centrada nos conhecimentos em vez de centrada nos alunos dirão que tudo isto não passa de ‘eduquês’. Mas até uma organização como a OCDE, através de um seu alto quadro, vem dizer-nos que, sem a aposta na formação para a verdade, para o belo, para o bem e para o justo, a educação escolar ficará necessariamente amputada. E isso faz-se não apenas nos conteúdos mas, não menos importante, na qualidade do ambiente que se procura promover no quotidiano.

Tenho vindo a defender, com muitos outros comunicadores e educadores, que a educação dos nossos dias não pode prescindir de uma leitura atenta e crítica do mundo, quer o mundo mais próximo (da escola e da comunidade local), quer o mais distante (nacional e internacional). O acompanhamento da atualidade, a capacidade de ler criticamente os media e de os usar com responsabilidade e respeito pelos outros, assim como as competências para distinguir entre o que é informação digna de crédito da que é falsificada ou parcial são desafios que não podem deixar de estar presentes na formação do século XXI.

Como dizia, na entrevista citada, Andreas Schleicher, Portugal “precisa de ter cuidado para educar as crianças para o seu próprio futuro e não para o nosso passado”.

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  • MASQUEGRACINHA
    13 fev, 2017 TERRADOMEIO 16:00
    Bom, mas já não se tinha concluído que o que é preciso é que a escola funcione à medida das necessidades das empresas, dos call-centers e do "tecido económico", das fábricas de sapatos e de t-shirts, e dos restaurantes e hotéis, sempre tão lamentosos por não haver "quem queira trabalhar"? Isso de filósofos e artistas serve para quê, afinal?, não era a grande pergunta para que se buscava resposta? A educação, e o saber em geral, estão sob o império da utilidade. Ironias à parte, muito me comprazem estes altos voos da mente num país onde tantas escolas estão a cair aos pedaços, literalmente, e onde os alunos aprendem, como observadores participantes, que mais não são do que insignificantes ovelhas numa manada mega-agrupada, cercados de adultos, professores, pais, funcionários, atolados em chatices, sempre agarrados ao cartaz ou ao cadeado. Mas, homessa! Não é propriamente como quando se ia para a escola sem sapatos nem bucha, pois não? E é para se irem habituando ao mundo real que os espera, que educação também é isso, não é?