Opinião de Manuel Pinto
A+ / A-

"​O essencial é invisível para os olhos"

19 dez, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


“O Principezinho” representa um belo desafio natalício. Para lá da loucura das prendas, buscar o essencial, o Outro.

“Sempre gostei do deserto. Uma pessoa senta-se numa duna. Não vê nada. Não ouve nada. E, no entanto, há qualquer coisa a brilhar em silêncio. O que torna o deserto bonito (…) é haver um poço escondido em qualquer parte…”.

A fala é de um pequeno príncipe vindo de outro planeta, que nos foi apresentado por Antoine de Saint-Éxupéry, no longínquo ano de 1943, nos Estados Unidos. A edição de ‘O Principezinho’ em França só surgiu três anos depois, quando a Europa viu a Libertação do pesadelo da guerra. Foi há dias que o país natal do autor evocou os 70 anos desta espantosa obra, entretanto traduzida em cerca de 265 línguas, com 145 milhões de exemplares vendidos, sendo hoje considerada uma das mais lidas do mundo (dados do site oficial).

E na verdade relê-la é fazer a (re)descoberta do caminho da sabedoria. É dar-se conta de como o sentido da vida se plasma em dimensões simples e perenes, que assentam numa atitude de busca. E essas dimensões são de uma actualidade que dói e desafia.

O livro parte do encontro entre o narrador (que, tal como o autor, se viu perdido no deserto do Sahara, onde se viu forçado a aterrar o seu avião avariado) e o pequeno príncipe. Ambos andam à procura de pessoas. De pessoas que “não sabem do que andam à procura” e, portanto, “não fazem senão andar à roda...”. De pessoas formatadas, sisudas, auto-centradas e que gostam mais de números do que de gente: «Quando vocês lhes falam de um amigo novo, as suas perguntas nunca vão ao essencial. Nunca vos perguntam: "Como é a voz dele? De que brincadeiras é que ele gosta mais? Ele faz colecção de borboletas?" Mas: "Que idade é que ele tem? Quantos irmãos tem? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?" Só assim é que pensam ficar a conhecê-lo».

A esses – a nós – falta o tempo para cuidar da sua rosa, para criar laços com outras pessoas, para cultivar a amizade. Andamos em busca do conhecimento, sem perceber que só conhecemos o que amamos e que caminhar nessa direcção nem sempre é avançar “em linha reta”. Descuramos a paciência e a atenção que o criar laços requer e perdemos de vista o ritual do cuidado, “que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas”.

“O Principezinho” representa um belo desafio natalício: no deserto, encontrar “qualquer coisa a brilhar em silêncio”. Para lá da loucura das prendas, buscar o essencial, o Outro. Que é “invisível para os olhos”.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • António Costa
    20 dez, 2016 Cacém 01:48
    O "planeta" onde vivia o “O Principezinho” era o asteroide B 612, "descoberto" por um astrónomo turco em 1909, mas apesar do astrónomo apresentar a sua descoberta num Congresso Internacional, ninguém lhe ligou. Por causa da roupa que o astrónomo vestia. Mas entretanto "um ditador turco impôs ao seu povo, sob pena de morte, de se vestir à europeia". Então vestido à "europeia", em 1920 já foi levado a sério. Saint-Exupéry refere-se à obrigatoriedade de se vestir à europeia, imposta evidentemente à força na Turquia, sob pena de morte. O ditador turco era obviamente Kemal Atatürk. O "“O Principezinho” é um extraordinário livro sobre a Amizade. Amizade no Estado Puro. Através dos personagens que aparecem, faz também uma caricatura da sociedade da sua época e nem a Turquia escapa.
  • MASQUEGRACINHA
    19 dez, 2016 TERRADOMEIO 15:52
    Como não me passa pela cabeça pôr em causa que comentadores de livros como "O Principezinho" os hajam efetivamente lido até ao fim, sinto muitas vezes algum espanto com as poéticas conclusões a que chegam. Não porque não sejam verdadeiras, sem dúvida estão lá, e de forma expressa. Mas como também lá está que, a final, o Principezinho desistiu de encontrar na Terra o que buscava. E, embora com medo e choro, suicidou-se, fazendo-se morder por uma serpente, num acto não só voluntário como premeditado, a que o narrador assiste, paralisado, e que descreve de forma pungente. Leio, na contracapa do meu exemplar, que é "um dos grandes clássicos da literatura infantil" - eu, nunca me atrevi a oferecê-lo a crianças. Ser-me-ia bastante difícil explicar-lhes o como e o porquê da desistência do Principezinho, e o amargo significado para o resto das suas vidas contido no último parágrafo: "E nunca nenhuma pessoa crescida há-de entender como isso é importante!" Mas constato que muitas pessoas (crescidas) acham o livro apenas ternurento, bonito e de mensagem chã, como se o seu desenlace, e com ele a "moral da história", não fosse, afinal, o que é realmente importante. E talvez tenham razão, pois já não dizia Saint-Exupéry "Não me deixem ficar assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou..."?