Opinião de Luís António Santos
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As democracias precisam de média pouco “simpáticos”

19 mar, 2016 • Opinião de Luís António Santos


Este fim-de-semana sai para a rua o último “Independent on Sunday” e no próximo sábado imprime-se o último ‘The Independent”.

Sabe-se desde o passado dia 12 de fevereiro. Este fim-de-semana sai para a rua o último “Independent on Sunday” e no próximo sábado imprime-se o último ‘The Independent”.

O jornal nascido na efervescência da década de 80 do século passado e que, uns anos depois, com vendas diárias acima dos 400 mil, forçava Rupert Murdoch a abrir uma guerra de preço de capa com o seu “The Times”, viveu os últimos tempos já muito na sombra desse passado inovador.

Vai agora, segundo o seu proprietário, o milionário russo Evgeny Lebedev, concentrar-se na expansão “online”, com o lançamento de uma nova “app” e com a abertura de novas delegações editoriais na Europa, no Médio Oriente e na Ásia.

O “Independent” foi, à escala britânica, uma espécie de “Público” – vinha para cumprir a promessa de um jornalismo rigoroso, transparente, equidistante relativamente à tradicional bipolaridade política em Inglaterra, mas também arrojado na escolha de colunistas e no design gráfico (e aqui salienta-se uma espécie de reinvenção da Primeira Página e o lugar de enorme destaque dado ao fotojornalismo).

Esse jornal pioneiro – que, durante mais de 20 anos, de facto foi – não percebeu a tempo a Web e não resistiu ao cerco formado por um crescente envolvimento direto e explícito dos média na atividade política (maioritariamente em apoio das ideias neoliberais do Partido Conservador, como provou um recente estudo europeu) e por uma crescente espectacularização dos conteúdos informativos.

Também por cá – onde precisamente esta semana assinalámos o fim de mais um título em papel, o “Diário Económico” – vemos sinais destas pressões sobre o jornalismo que ainda insiste em ser relevante; a postura de fã assumida por tantos jornalistas e responsáveis editoriais na tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa ou a capa do “i” deste fim de semana são bons exemplos recentes.

O que fica em risco, com o cada vez mais acelerado desaparecimento de olhares variados e com a crescente submissão dos que vão ficando a normas de funcionamento que os encostam a uma leitura tendencialmente seguidora dos interesses financeiros de proprietários e/ou anunciantes, é a força do edifício político que temos.

Como escrevia há alguns anos o académico Michael Schudson, as democracias precisam de um cenário mediático diverso e pouco dado a simpatias com os poderes instituídos. Não lhes fazem falta jornalistas que pedem autógrafos a Presidentes da República; fazem-lhe (muita) falta os outros, “os que se atravessam no caminho do poder” e que para isso sentem o conforto da lei, mas também da sociedade como um todo, em reconhecimento do seu contributo vital.

Mais do que a perda de um título ou dois em papel, a quebra de relevância simbólica do “The Independent” e a sua acomodação a um lugar mais sensato na Web (certamente tentando tirar partido da “economia do click”) são sinais de preocupação.

Se é verdade que os média não fazem os regimes democráticos não será menos verdade que sem eles as democracias são mais débeis. E se é talvez exagerado ver nos média britânicos raízes para recentes opções políticas daquele país, talvez seja sensato nunca falar delas sem mencionar o papel determinante de um sistema profundamente desequilibrado em que as vozes alternativas são cada vez mais marginalizadas.

Comentários
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  • rosinda
    19 mar, 2016 palmela 12:18
    O jornalismo esta a ficar complicado!
  • António Costa
    19 mar, 2016 Cacém 11:46
    A Web também tem feito o seu "trabalho de casa", talvez muito mais do que os tais jornais "independentes"....A prova é que criticas na Web a figuras politicas em países "moderados" como a Tunisia ou a Turquia levou à prisão os seus autores. Os autores destas criticas, limitaram-se a colocar em duvida se as opções tomadas pelas a figuras publicas seriam as mais sensatas ou corretas. Foi o suficiente para irem parar à cadeia! Muito longe do insulto pelo insulto, presente nos média da Europa ocidental, que muitas vezes classifica muito mais os seus autores do que as figuras públicas visadas.