Opinião de Manuel Pinto
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​O pequeno Aylan na manjedoura do presépio

21 dez, 2015 • Opinião de Manuel Pinto


O presépio de Santo António é o grito silencioso de alerta para uma tragédia silenciosa que só aparentemente está longe da nossa porta.

Aylan, de três anos, camisola rubra e calção preto, rosto colado à areia, na borda da costa turca, permanecerá como símbolo dos milhares de mortos na fuga da guerra e do medo. Este ano, o Padre Ángel, fundador da ONG espanhola Mensageiros da Paz, fez dos refugiados o tema do seu Natal Solidário. Entre 4 de Dezembro e 6 de Janeiro, tem aberto na igreja de Santo António, em Madrid, um presépio alusivo, em que na gruta de Belém colocou, na manjedoura, uma escultura do pequeno Aylan, rodeado dos seus pais.

Os Mensageiros da Paz dedicam-se a acolher e a cuidar dos refugiados há mais de 20 anos. Desde 2012, procuram responder às necessidades das dezenas de milhares que se encontram concentrados no campo de Al-Zaatari, na Jordânia. Actualmente desenvolve um vultuoso projeto na Macedónia, na Sérvia, na Croácia e na Grécia, que atende diariamente mais de 12 mil pessoas fugidas, na sua maioria, da Síria. Cozinhas móveis, tendas aquecidas, e com camas e sítios para tomar um duche e tomar um pequeno-almoço são os “luxos” oferecidos.

O presépio de Santo António é o grito silencioso de alerta para uma tragédia silenciosa que só aparentemente está longe da nossa porta. A intervenção em Al-Zaatari e nas fronteiras europeias de Leste é uma resposta a esse apelo.

No domingo de 6 de Setembro, o Papa Francisco pediu a bispos, paróquias, mosteiros e santuários da Europa para acolherem cada um uma família de refugiados. Afinal, também a família de Nazaré teve de fugir da Palestina para evitar a morte do pequeno Jesus e certamente alguém a acolheu no Egipto. O apelo do Papa já por si era uma ação. Mas, para o modo como Francisco vê a Igreja (recordam-se do hospital de campanha?), não bastava. Umas semanas depois, já havia duas famílias de refugiados acolhidas em instalações do próprio Vaticano.

Nos tempos que correm valoriza-se o diferente, o provocatório, o que chama a atenção. Se assim é, haverá “cena” mais instigante e desafiadora do que um Deus fazer-se menino, criatura igual a nós, que nasce num qualquer barraco da vida e desafia a mudar de vida? Aylan na manjedoura é, por contraste, esse apelo a fazermo-nos próximos dos outros, dos que precisam dos nossos cuidados. E que “estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros”, a escutá-los. “Então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições”(*). A construir uma cultura de diálogo, de ternura, de paz e de justiça.

(*) Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014

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  • Ze Fala Barato
    21 dez, 2015 Braga 22:49
    Nestes tempos que correm há por aqui muita gente a invocar o santo nome de Deus em vão a favor de gente que o despreza.O 1 mandamento -eu sou teu Deus me amaras como unico Deus.Mas aposto que quem aqui escreve pouco ou nada disso sabe