Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral

​A desvalorização da verdade

09 jul, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O relativismo que cada vez mais comanda as nossas sociedades desencoraja a procura da verdade.

Começa amanhã na Universidade da Beira Interior (Covilhã) o X Congresso Português de Sociologia. No centro deste congresso estará a noção de “pós-verdade”, hoje um dos mais graves problemas com se debatem as democracias. A “pós-verdade” traduz um desinteresse face à realidade dos factos, sendo a opinião de muita gente moldada por notícias e comentários de escassa ou nula veracidade.

A importância que as redes sociais têm agora na internet impulsionam essa tendência, pois a informação e as opiniões de muitas pessoas são formadas por “sites” ideologicamente do agrado dessas pessoas, que se recusam a acreditar em informações e opiniões provenientes de quaisquer outros quadrantes.

Mas as “fake news” existem há muito, embora com uma menor dimensão. Por exemplo, há mais de dois séculos, quando os EUA se tornaram independentes, multiplicavam-se os jornais ao serviço de políticos, divulgando factos frequentemente pouco verídicos, mas úteis para as suas campanhas. Ao longo do séc. XIX fazer política em Portugal implicava quase sempre ter um jornal.

Claro que, além da internet, no nosso tempo a publicidade tem um poder maior do que no passado (embora felizmente menor do que alguns alarmistas chegaram a prever). E que as empresas de relações públicas e de “lobbying” nem sempre servem a verdade, mas o que convém aos interesses que representam.

A desvalorização da verdade tem, porém, raízes mais fundas. A cultura chamada “pós-moderna” deixou de acreditar seja no que for. Desde logo na razão e na ciência. Daí que pessoas que não são analfabetas se neguem a vacinar os seus filhos. Ou que muitos americanos ainda hoje afirmem que Obama nasceu em África e é muçulmano. Nenhuma demonstração racional abala convicções absurdas como essas.

Estimulado pelo relativismo teórico de intelectuais que rejeitam existir qualquer fundamento para afirmações científicas ou filosóficas, o relativismo prático impregna as nossas sociedades – esta é a minha opinião, acredito nisto porque sim, ponto final. No plano científico recua o debate na procura pela verdade, como um caminho de gradual aproximação à realidade, devendo cada teoria prevalecer até surgir uma outra melhor. No plano ético, o relativismo é devastador: no fundo, ele permite tudo.

Compreende-se que a ameaça do relativismo tenha sido uma preocupação dominante do Papa Emérito Bento XVI. Os desastrosos resultados desse cancro tornam-se cada vez mais evidentes.

Comentários
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  • António Costa
    10 jul, 2018 Cacém 23:45
    É um pouco o "calcanhar de Aquiles" da Democracia. As pessoas são livres de escolher. Pois é, mas dominar "tudo" e tomar decisões sobre assuntos, dos quais não se faz a mínima ideia, é muito, muito difícil. Aqui a mentira tem terreno fértil. Incapazes de verificar o que se passa no mundo real, as pessoas acabam por apoiar vigaristas simpáticos. A censura adaptou-se à mudança dos tempos. A repetição sistemática e continua de "falsas" verdades, substituiu a "lei da mordaça". A Censura nos dias de hoje resume-se a um despejar de "informações falsas", repetidas milhares de vezes.