Opinião de José Miguel Sardica
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Opinião de José Miguel Sardica

Que fazer com a islamização da Europa?

26 jun, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


O recente caso do “Aquarius” veio recordar uma questão que só hiberna no pico do inverno: a do afluxo de refugiados das mais diversas partes do mundo ao continente europeu.

Os 630 migrantes resgatados ao largo da Líbia vaguearam pelo Mediterrâneo durante uma semana; recusado o desembarque por Itália e Malta, acabaram em Valência. Não há sinais de que nos próximos tempos, como desde há anos, estas multidões traumatizadas pela guerra, pela repressão, pela intolerância ou até pelas alterações climáticas abrandem em número e vontade de chegar ao velho mundo.

O problema dos refugiados, e em particular o da imigração para a Europa, tem décadas. Não foi inventado agora pelos nacionalismos xenófobos ou pelos populismos radicais. A questão está em que o assunto tende a tornar-se cada vez mais sério e politizado.

Os sinais de intolerância são claros. A extrema-direita de Matteo Salvini, agora no governo em Roma, já declarou o fecho da Itália ao “tráfico” de “carne humana”. Na Hungria, Viktor Orbán acaba de aprovar uma lei que ameaça com prisão quem quer que ajude imigrantes em situação irregular. A Áustria vai repor, uma vez mais, o controlo temporário de fronteiras. Na Alemanha, a CSU, parceira de governo de Merkel e aflita com a progressão eleitoral dos nacionalistas da AfD, já exige à chanceler que limite a entrada de imigrantes no país. Em França, Marine le Pen denuncia as “banlieues” de várias cidades que – como Molenbeek, nos arredores de Bruxelas – parecem “no-go zones” para ocidentais, tal a guetização e radicalização islâmicas que ali grassam.

E mesmo em Espanha, onde Pedro Sánchez permitiu que o “Aquarius” aportasse, já há quem se alarme com o efeito de chamada que esse gesto poderá ter no futuro próximo. Não vale a pena fingir que o problema não existe, e muito menos que ele é uma criação de políticos radicais antissistema.

Sim, o populismo xenófobo cavalga a crise dos refugiados – mas só o faz porque a islamização da Europa (a grande maioria dos refugiados é muçulmana) está em curso e porque a opinião pública europeia começa a votar a favor desses líderes intolerantes.

Em Portugal não há políticos populistas ou xenófobos, não só, mas também, porque não há fluxos significativos de migrantes (e os que aqui chegam querem, na verdade, ir para o norte da Europa). Velho estado-nação coeso e unitário, isolado no extremo mais longínquo do continente, o país pode contemplar sem alarme a questão e aplaudir sem reservas a hospitalidade pedida pelo ACNUR e pelas ONG’s. No centro e no leste da Europa, e também no sul latino mais contíguo ao Norte de África, o caso é diferente, para pior: as democracias começam a dar sinais de incapacidade para salvaguardarem identidades nacionais e modos de vida ocidentais que parecem ameaçados por uma islamização que não vem para se integrar e diluir, mas para criar uma vizinhança difícil, de comunidades que não se interrelacionam e que, por isso, se radicalizam. De acordo com estudos recentes, a população muçulmana na Europa pode triplicar até 2050 (no caso alemão, dos c. de 7% atuais para c. de 20%), quer pelas vagas de migrantes provenientes do Médio Oriente e de África, quer porque, por nossa culpa, o inverno demográfico europeu veio para ficar.

Há uma questão humanitária às portas da Europa, a que o continente e o mundo não podem voltar costas – sem dúvida. Mas do que poucos querem falar – e é isso que assusta os que votam e elege os xenófobos do nosso tempo – é de como se enfrenta o desafio da islamização europeia em curso (pela qual se infiltra o terrorismo) num continente de longa história cristã, com democracias que parecem paralisadas pelo relativismo e incerteza dos seus valores e do seu rumo.

Comentários
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  • Anónimo
    02 jul, 2018 Porto 02:40
    Por uma questão de lógica quem está mal muda-se logo o fluxo de emigrantes é de pessoas cinco estrelas, estava mal, ficaram os que se sentiam bem naquelas anarquias. As outras religiões têm que procurar construir pontes com o novo testamento, o espirito santo é só um, fala sempre da mesma forma, para quê uma cópia se o original é gratuito? Ninguém nasce com religião, o homem é só um, Deus é só um, depois de conhecer o novo testamento escolhem as religiões que quiserem nenhuma (infiéis) ou o Islão que têm um ordinário mais perto de Deus, sem imagem alguma, casas de Deus sem decoração alguma, sem mobiliário de espécie nenhuma (até nova ordem vinda do proprietário), rituais de caridade, relação (postura) do Homem com o culto e o Ramadão.
  • MASQUEGRACINHA
    29 jun, 2018 TERRADOMEIO 16:39
    Coloca, com o rigor possível em tão curto espaço, as questões que todos nos colocamos. No entanto, não avança qualquer resposta, nem sequer sugestão de resposta. Ficamos, assim, todos na mesma. Talvez um pouco mais alarmados, já que o artigo é um tanto alarmista. Mas quiçá a ideia fosse mesmo essa, alarmar os mais distraídos, aqueles que ainda não repararam que, se "o populismo xenófobo cavalga a crise dos refugiados só o faz porque a islamização da Europa está em curso". Curiosa lógica, como se o populismo xenófobo não tivesse cavalgado sempre, ao longo da história, as "crises em curso" mais à mão... Serão, então, 20% na Alemanha? Parece grave. Mas ainda sobram uns sólidos 80% de boa e má cepa germânica para lhes mostrar quem manda no bocado, e que não costumam ficar-se por soluções de paninhos quentes. Devo dizer que não tenho um mínimo que seja de simpatia pelo Islão, enquanto religião e sistema de vida. A boa-educação impede-me, até, de dar uma franca opinião sobre o assunto. Mas, pergunto: não será a convicta capacidade do Islão de preencher o vazio espiritual no "continente de longa história cristã" o que, na realidade, assusta? É que eles são, ou serão, 20% de crentes convictos, necessariamente sempre sub-inseridos, mas inseridos em quê? Num universo onde os ateus/agnósticos funcionais são a larga maioria? Os países têm que ser mais firmes na defesa dos valores europeus demo-liberais, e os muçulmanos têm que se resignar a viver com isso. Ponto final.
  • António Costa
    26 jun, 2018 Cacém 09:48
    O problema maior é quando se acha que o Islão é uma "Religião Protestante". A Submissão e Obediência Total a Deus é a Basse do Islão. Desobedecer aos seus dirigentes é o mesmo que desobedecer a Deus. Estamos a "anos-luz" da Democracia ocidental, em que César e Deus estão separados. As Regras e Leis do dia-a-dia são adaptadas à realidade presente na Democracia. Não são impostas por "Direito Divino".