Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Merkel e os alemães

06 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O problema não é tanto a chanceler estar hoje algo enfraquecida, mas é sobretudo a opinião pública alemã continuar hostil a partilhar riscos com os parceiros da RFA na zona euro.

A chanceler Merkel foi muito criticada por, há oito anos, ter demorado longo tempo a concordar com um resgate financeiro da Grécia. Depois, esse resgate foi concedido com condições duríssimas. Agora, as críticas a Merkel visam a sua resposta – positiva, mas limitada – às propostas do presidente Macron de refundar o euro e a própria UE.

Esta resposta de Merkel permite, pelo menos, que o eixo franco-alemão apresente alguma coisa, embora nada de radical, no Conselho Europeu no final deste mês. Não o fazer, seria perigoso dada a situação em Itália.

É verdade que Merkel está hoje um tanto enfraquecida politicamente. E que o partido eurocético Alternativa para a Alemanha é a principal força de oposição ao governo. E, ainda, que a abertura à imigração que Merkel inicialmente defendeu lhe tem valido críticas não só do partido aliado da Baviera como no interior do seu próprio partido.

Estes são motivos que aconselham prudência a Merkel em matéria de reformas europeias. Mas a razão predominante dessa prudência é a opinião pública alemã. E não só a atual.

É sabido que os alemães têm desde há muito um receio inato da inflação. E que altamente estimavam o seu marco, uma moeda forte – isto é, que não perdia poder de compra. A política rigorosa do seu banco central, o Bundesbank, era geralmente apreciada.

Por isso, não foi sem algum desgosto dos alemães que Helmut Kohl decidiu ancorar mais firmemente o seu país na Europa aderindo ao euro, logo no início da moeda única.

Tal decisão, sublinhe-se, não foi submetida a referendo na RFA – se o fosse, provavelmente o resultado seria uma recusa germânica a trocar o marco pelo euro.

Hoje, as sondagens dizem que a maioria dos alemães é contrária, por exemplo, a um seguro europeu de depósitos nos bancos, que completaria a união bancária.

E a constituição germânica obriga a que cedências de soberania e gastos financeiros com a integração europeia passem pelo Bundestag, o parlamento federal. Daí as cautelas da chanceler. Disse ela ao “Frankfurter Allgemeine”: “A solidariedade entre Estados da Zona Euro nunca poderá criar uma união de dívidas”.

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