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Opinião de Henrique Raposo
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Miguel Araújo, ou Deus nas pequenas coisas

01 jun, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Não sei se Araújo é crente ou não, também pouco importa. O que importa é que ele é impermeável ao cinismo. Isto fica de novo evidente em “Será Amor”, uma música que celebra o amor e a alegria entre “chiliques”, o “shopping dos olivais”, “as buzinas da hora de ponta”, “o cheiro a gasolina” da VCI.

A música de Miguel Araújo interessa-me por três razões. Primeira, ele é do Porto, o que é capaz de ajudar. A atitude sem peneiras está lá, tal como a recusa do embrulho que muitas vezes engana. Não há ali a “persona”, há só um homem que escreve e canta. O que interessa não são os neons e lantejoulas do “artista", mas sim as letras e acordes da música, da arte. Não é um pormenor. Segunda, percebo de imediato o que ele canta. Não me levem a mal. Eu oiço sobretudo música clássica, uma linguagem musical em estado puro e próxima do Verbo, uma linguagem sem os verbos que nós inventámos para nos aproximarmos da verdade. Ora, se vou estar a ouvir músicas com letras, então exijo que as ditas sejam não só audíveis mas também percetíveis. E um dos sarilhos da pop é que uma boa parte das letras não são perceptíveis; não se percebe o que as bandas ou cantores estão a cantar, é preciso ir ler. Miguel Araújo canta para ser ouvido e entendido – parece fácil, mas deve dar um trabalhão. Terceira e mais importante: ele cruza o universal e o particular na dose certa.

A parte mais complicada da criação é a mistura entre o concreto e o universal. O concreto não vale por si, é apenas o buraco da fechadura para espreitarmos o universal. Caso contrário, se o particular se fechar sobre si mesmo, vamos criar uma obra muito fechada e datada, um mero regionalismo. O universal deve estar sempre presente, mas também não pode ficar sozinho. Sem a âncora do concreto, o universal cria poesia vaga, abstracta, inumana. A meu ver, ou melhor, a meu ouvir, as letras de Araújo são notáveis porque conseguem a mistura certa. O maior exemplo é porventura a “Balada Astral” que ele canta com Inês Viterbo, uma voz a pedir mais letras.
Escrever sobre o amor é como atravessar um abismo em cima de uma corda e sem a ajuda da vara; o desequilíbrio é constante, porque caímos com facilidade na lamechice ou na grandiloquência de frases como “as curvas dos teus olhos”. Como é que se corta este efeito enjoativo? Com pormenores do dia-a-dia: “eu pensava que ia comprar pão, Tu pensavas que ias passear o cão”, “cruzámos caminhos, Tropeçamos num olhar”. Uma música de amor construída em redor da imagem do tipo que vai comprar papo-secos é um feito audaz e belo. É audaz, porque foge às “curvas dos teus olhos”; é belo, porque é assim que o amor acontece nas nossas vidas, no inesperado, na ida ao pão, na porta do elevador que encrava forçando um olhar, nos acasos do dia-a-dia. Mas então tudo acontece por acaso? Vivemos num mundo caótico e arbitrário? Não. Temos bom astral porque há um Deus que zela por nós... se O quisermos escutar. "Balada Astral" é notável. Uso-a para celebrar o amor pela minha mulher e, ao mesmo tempo, posso usá-la para explicar a Providência às minhas filhas. Ao contrário de Nick Cave, Araújo é bem capaz de acreditar num Deus intervencionista, um Deus bom que, no seu “cósmico vagar”, conspira para nos unir. Não, não estamos a salvo da Sua "conspiração". Não sei se Araújo é crente ou não, também pouco importa. O que importa é que ele é impermeável ao cinismo. Isto fica de novo evidente em “Será Amor”, uma música que celebra o amor e a alegria entre “chiliques”, o “shopping dos olivais”, “as buzinas da hora de ponta”, “o cheiro a gasolina” da VCI. E um músico que mete um coliseu inteiro a cantar "o mundo é feliz, la-ra, la-ra, o mundo é feliz, la-rai, la´rai” só pode ser um músico especial. É especial, porque resgata o amor da tenaz que o asfixia: a lamechice brega e fácil, de um lado, e o cinismo dos alegados sofisticados, do outro lado; a primeira transforma o amor num quindim enjoativo, o segundo assume que o amor e a esperança não existem ou que não são temas sérios e sofisticados – Araújo prova o contrário.

Mas repare-se que Araújo não se fica pelo Paraíso. Ele tem coragem para descer ao Inferno. Aliás, fico à espera de um álbum só sobre o cone infernal. A música “meio conto”, por exemplo, diz-me muito. Conta a história do menino de Lisboa, um Jaime do Areeiro ou do Oriente, que se perde na droga, que rouba “autorrádios” para ir comprar “meio conto” ou algo pior. Os leitores mais novos não devem saber o que é um “autorrádio”. Eu explico: quando eu e o Miguel Araújo éramos putos, Portugal sofreu uma das maiores epidemias de droga e sida da Europa (outra história de violência portuguesa que corre o risco de ficar esquecida). Os "agarrados" varriam as ruas armados de navalhas e seringas e roubavam sobretudo os autorrádios dos carros, que, na época, eram portáteis e amovíveis. Toda a gente perdeu um ou mais amigos para esta peçonha. Além da consciência da queda, há em Araújo a consciência da pobreza. Nota-se esta sensibilidade na "Laurinha” que quer ter o título nobiliárquico dos pobres, o “Dona”; nota-se nas meninas da “Via Norte”, que, ao contrário das “donzelas” da “burguesia que devia sair da toca”, não tiveram sorte e ganham a vida encostadas a um pinheiro torto. No fundo, o encanto de Araújo talvez seja este: sente-se Portugal e/ou o Porto nas suas letras; "toda a fauna e toda a flora" estão aqui, desde a "burguesia” de “corpete” que não sabe a sorte que tem quando dá mergulhos na “piscina da estalagem” até à "periferia" do "camionista que desemboca” e que tem uma filha na estrada a dizer adeus à sorte. É um país concreto, pessoal e intransmissível, mas sempre abraçado ao fôlego universal. A “Laurinha” que não gosta da “stôra de história” também não escapa à conspiração Daquele que criou as leis que nos penduram aviões no céu. E que eu morra aqui se também não passei dias a ver os aviões no telhado da madrinha que dava pròs velhos portos do Tejo.

Comentários
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  • José Lopes
    11 jun, 2018 Trofa 11:18
    Caro Henrique, o Miguel Araújo é crente, cristão católico apostólico romano. Um abraço!
  • João Lopes
    02 jun, 2018 Viseu 16:03
    Análise interessante!
  • Cristiana Marques
    01 jun, 2018 Guimarães 13:20
    Parabéns pela crónica! As músicas do Miguel conseguem mesmo ser cativantes logo nos primeiros acordes. Eu gostava que em Portugal houvessem mais músicos como o Miguel que se conseguissem expressar tão bem como ele e nos fizessem sentir a música da mesma forma que ele,