Opinião de José Miguel Sardica
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Opinião de José Miguel Sardica

Por um Museu da História de Portugal

30 mai, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


A globalização fez-se da Europa para as quatro partidas do mundo. E nessa exata perspetiva, houve… “descobrimento”. Depois houve também tudo o resto: cobiça, violência, guerra. Mas isto não foi um exclusivo português.

A polémica tem semanas: deve a Câmara Municipal de Lisboa avançar com o projeto de um "Museu das Descobertas" ou dos "Descobrimentos"? Esgrimem-se argumentos a favor ou contra - parece que mais contra do que a favor, criticando sobretudo o suposto neocolonialismo serôdio da designação. Como historiador, embora não especialista na era da Expansão, eu também discordo de um tal Museu, mas não porque ele possa, ou venha a, chamar-se dos "Descobrimentos".

Está na moda os antigos colonizadores terem de exibir o seu arrependimento e vergonha públicos por um dia terem posto o pé em terra alheia: de acordo com o moralismo antieuropeu e autopunitivo, navegar, aportar, descobrir, comerciar, guerrear e unir o mundo significou apenas explorar e oprimir. Até me admira que os radicalismos da moda não tenham ainda dinamitado o Padrão dos Descobrimentos, em Belém! Não há espaço, nesta crónica, para explicar o simplismo de ver as coisas assim. Consideremos apenas a palavra “descobrimento”, sem as suas passadas leituras salazaristas, que ninguém quer reificar. De facto, de Ceuta ao Oriente, durante os séculos XV e XVI, os portugueses descobriram novas costas, povos e continentes, no sentido em que não havia conhecimento direto destes na Europa de onde partiram os navegadores lusos. Camões disse-o: “Dar novos mundos ao mundo”. Havia outros mundos, sem dúvida; e os chineses até circum-navegaram a ponta sul de África até ao Atlântico. Mas não foram eles, ou outros, que vieram ter com a Europa, mas o contrário. A globalização fez-se da Europa para as quatro partidas do mundo. E nessa exata perspetiva, houve… “descobrimento”. Depois houve também tudo o resto: cobiça, violência, guerra. Mas isto não foi um exclusivo português, já existia em muitas das comunidades em que os portugueses se foram miscigenar e, acima de tudo, não deve haver reservas em contar a história tal como ela aconteceu, destacando os seus muitos pontos positivos e não tendo medo de expor e problematizar os seus pontos negativos – devidamente contextualizados nos próprios padrões morais da época.

Não me chocaria, pois, que houvesse um Museu dos Descobrimentos. As razões por que acho que ele não deve existir são duas outras - uma prática, outra cívica. Quanto à primeira, além do que já está em exposição no Museu da Marinha e de mais alguns mapas ou crónicas da Torre do Tombo, há pouco espólio original musealizável da epopeia henriquina, dos navegadores ou das comunidades a que os portugueses chegaram. Resta a segunda razão – que é também a minha proposta. Num país com pouco dinheiro para a cultura, o que realmente faz falta, para alento e mostruário de um patriotismo esclarecido (entusiasta ou crítico é opção individual), é um grande Museu da História de Portugal, contando visualmente a narrativa coletiva de um estado-nação que é das mais valorosas da Europa e do mundo e que dura vai para 900 anos. Para isso, haveria espólio (e sucesso - veja-se o número de visitantes do «Lisbon Story Center»), desde os códices monásticos do tempo do Condado Portucalense até às fotografias, filmes, discursos ou outros objetos do Portugal democrático e europeu, a etapa temporal presente do que há séculos tem sido uma extraordinária viagem. E nesse Museu da História de Portugal, os Descobrimentos teriam o seu espaço, sendo até mais compreensíveis e compreendidos, em perspetiva, pela relação dessa época com o que a motivou, antes, e com o que se lhe seguiu, depois, ao longo das etapas dos ciclos imperiais, até ao momento, nos anos 1970-80, em que o velho Portugal pluricontinental se reinventou como novo Portugal democrático e europeu.

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