O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

Defesa europeia, mera aspiração

17 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A UE não tem forças militares credíveis. Por isso não existe uma política externa europeia

O ataque com mísseis a instalações sírias de produção e armazenamento de armas químicas foi curto e contido. Não terá feito vítimas civis e evitou cuidadosamente atingir militares russos e iranianos. Mas sem qualquer estratégia coerente para a Médio Oriente da parte de Trump, o ataque de sexta à noite pouco ou nada resolverá.

Nesse ataque os EUA foram acompanhados por britânicos e franceses. À primeira-ministra Theresa May convém aproveitar tudo o que distraia das difíceis negociações do Brexit. E ao Presidente Macron também interessa desviar as atenções da forte contestação sindical que as suas medidas estão a provocar.

Além disso, a França tem vindo a intervir militarmente em zonas conturbadas de África, como o Mali (onde soldados franceses sofreram ataques este fim-de-semana). A afirmação externa da França é um uma das prioridades de Macron.

Mas a participação britânica e francesa no ataque à Síria é curiosa do ponto de vista americano. O isolacionista Trump nunca se mostrou preocupado em cultivar aliados, exceto para lhes vender armas (casos da Arábia Saudita e de Israel, por exemplo). Talvez a influência do Secretário da Defesa, general James Mattis, esteja a introduzir alguma racionalidade nas decisões do presidente.

Do lado da UE, o envolvimento neste ataque foi escasso. O Reino Unido está de saída da Europa comunitária e apenas outro Estado-membro, a França, participou na iniciativa militar.

Foi notada a posição tomada por Angela Merkel: ficar de fora de qualquer operação militar. É natural que entre os alemães ainda pese a memória de terem provocado duas guerras mundiais, o que os tem levado a um certo retraimento em iniciativas militares. Mas há um outro fator importante: como muitos outros países europeus, os alemães acomodaram-se em matéria de segurança a viver sob proteção americana, investindo pouco dinheiro na área da defesa.

A Alemanha gasta com as suas forças armadas apenas 1,2% do PIB, quando a meta da NATO são 2%. A Alemanha não dispõe de um único submarino operacional, dos 89 jatos da sua força aérea só 39 conseguem voar e dos 119 tanques Leopard apenas metade funciona. Esta debilidade militar não permite a afirmação militar alemã, algo que a falta de empenhamento de Trump na NATO torna perigosa.

Ora, sem uma defesa militar credível não existe política externa digna desse nome.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • António
    17 abr, 2018 Porto 23:11
    Quantos dias têm de resistência a Europa perante um ataque bélico da Rússia, é essa a questão posta, com o arsenal de hoje, nenhum, com mais arsenal dois, ainda mais três e por ai não é? Até ao cúmulo de ter o mesmo arsenal e dependendo da moral das tropas, esta é uma questão a outra é para quê, porque estaria a Rússia interessada em conquistar este continente, recursos energéticos? Para fazer voz grossa? Ai ou tem razão ou não, a China existe tal como a América e os europeus têm de abandonar a ideia de colonizadores têm que aceitar ser frágeis nesta terra tal como qualquer outro país. Caminhadas no sentido de fazer peças para jogos de tabuleiro está completamente fora do tempo, esse tempo já foi e quem tem peças para vender tem de se cingir em patrocinar jogadas no sacrificado povo Árabe e aspirar a América Latina e Africa pois a Europa não é nada prático.
  • Cidadao
    17 abr, 2018 Portugal 15:19
    Por uma vez estou de acordo com SC: a Europa acomodou-se a estar protegida pela América, e além da inexistência de um exército comum, os exércitos dos Países Europeus, mesmo os mais fortes como Alemanha, França e Inglaterra, são uma sombra do poderio que esses exércitos tiveram um dia... Isso inviabiliza qualquer iniciativa, ou tomada de posição com "voz grossa", que entre em choque com Rússias e companhia.
  • Guilherme Leite
    17 abr, 2018 Lisboa 08:32
    Esqueceu-se de mencionar que os EUA ainda têm bases militares na Alemanha. Os EUA também têm bases militares espalhadas pela Europa. A defesa militar europeia será credível quando expulsar os americanos e as suas bases. Enquanto as bases americanas permanecerem na Europa, a política externas será sempre subserviente aos interesses bélicos americanos.