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Reportagem - O interior precisa de médicos - 30/01/2018 - Liliana Carona
Reportagem - O interior precisa de médicos - 30/01/2018 - Liliana Carona
Reportagem

​Sanções para médicos internos é tratar interior "como a Sibéria"

30 jan, 2018 • Liliana Carona


Médicos internos que deixem o interior podem ficar três anos fora do SNS. Mais do que incentivos ou sanções, é preciso abrir mais vagas, defendem médicos da Guarda.

Cardiologia é apenas uma de várias especialidades da Unidade Local de Saúde (ULS) da Guarda onde faltam médicos. Cardiologia, oftalmologia, ortopedia, gastroenterologia e anestesiologia são as cinco áreas mais penalizadas, além dos cuidados de saúde primários, revela Isabel Coelho, presidente do conselho de administração da ULS da Guarda.

Com 62 anos e médica há 36 anos, natural de Videmonte, no concelho da Guarda, Isabel Coelho não gosta da maneira como o interior é visto. Acredita também que não deveriam ser necessárias leis que impusessem a deslocação de médicos para esta região.

Há um ano o Governo atribuiu incentivos à fixação de médicos especialistas em zonas carenciadas. Agora, o Ministério de Saúde estuda a possibilidade de penalizar os médicos internos que deixem o interior.

Segundo a proposta de alteração ao Regime Jurídico do Internato Médico, os médicos internos vão voltar a receber incentivos para escolherem hospitais com carências na sua área de especialidade, mas terão que trabalhar durante três anos após o fim da formação – se não o fizerem, ficam impedidos de exercer no Serviço Nacional de Saúde (SNS) durante três anos.

“Penso que a abertura de mais vagas em zonas carenciadas poderia trazer mais gente, mais até do que os incentivos. Agora, fere-me que estejam a fazer disto uma pena, como se as nossas regiões fossem tão más que aqui ficar fosse como desterrarem-nos para uma Sibéria”, lamenta Isabel Coelho.

Segundo esta administradora, os incentivos decididos há um ano não aumentaram o número médicos a trabalhar no interior. “Penso que não, foi sempre obedecendo ao número de vagas que eram abertas. E desde 2015 que não há nenhum médico a beneficiar desse tipo de incentivos”, refere.

A Unidade Local de Saúde da Guarda tem 273 médicos com contrato individual de trabalho e 93 prestadores de serviço.

“Abram mais vagas”

João Correia tem 59 anos e é especialista em medicina interna. Há 24 anos que trocou a Figueira da Foz pela Guarda. Ontem como hoje, sem incentivos.

Diz ter dúvidas de que pagar mais às pessoas vá “atrair mais médicos”. “Penso que não é por aí. As escolhas são feitas por aquilo que o serviço oferece às pessoas e o que oferece para o futuro”, destaca.

O médico especialista gosta de trabalhar no interior do país, mas não é pelo amor à camisola que deixa de apontar o dedo a algumas dificuldades sentidas na periferia. “Em Coimbra, até ao fim-de-semana tenho acesso a mais meios. Aqui tenho algumas limitações”, exemplifica.

“Há 24 anos tínhamos cinco especialistas em cardiologia, agora temos duas. Há serviços que necessitam de uma recarga rápida de especialistas”, apela.

Mais do que incentivos, “abram mais vagas”, pede ainda o médico. “Ainda estamos a aguardar que a maioria dos médicos especialistas que se formaram em Abril e Maio sejam alvo de concurso. Os meus médicos de medicina interna ainda não tiveram direito ao concurso deles. Apenas a medicina familiar”, critica.

“Precisamos de médicos, mas os concursos não abrem”, reforça João Correia. Há “toda uma engrenagem que tem de ser mais célere”, defende.

Meio ano à espera de uma consulta

A falta de médicos na ULS da Guarda é apontada também pelos utentes, que esperam e desesperam por consulta.

Constantino e Noémia da Silva, com idades próximas dos 80 anos, queriam uma consulta de oftalmologia. “Não vejo bem já há três anos e ainda não nos chamaram. Já tive que pagar no particular. Se não houvesse falta de médicos não estava tanto tempo há espera”, relata Noémia. Diz que o marido vive uma situação parecida – é diabético e “pouco ou nada vê”.

Constantino da Silva conta que está na lista de espera há meio ano. “Ainda não me chamaram”, lamenta.

O médico que os seguia “foi embora”. “Operou o meu marido a uma vista, mas foi pouco tempo que cá esteve”, conta. “Eles ganham cá pouco, vão para terras onde ganham mais. Ou os tratam cá mal ou não sei.”

Também Teresa e José Pereira sentem a falta de médicos na ULS da Guarda. Têm que se deslocar todas as semanas a Vila Real. “É um bocado incómodo, muito distante, muito dispendioso. Eu moro em Porto da Carne, a mais de 150 quilómetros, gasto 30 euros em cada deslocação”, refere o casal. Cumprem esta rotina pelo menos duas vezes por semana.

Na ULS da Guarda, estão a ser acompanhados por Iurie Pantazi, especialista em medicina interna. Veio da Moldávia há 15 anos para o hospital da Guarda. “Sou mais daqui do que de lá”, diz. Admite a falta de médicos em algumas especialidades – como urologia, para a qual só há “as consultas de rotina”.

“No interior, os médicos são mais valorizados”

Há muitos jovens ainda na formação que optam pela cidade da Guarda pelo seu hospital.

Hugo Almeida, 29 anos, nasceu na cidade mais alta do país e é lá que está a tirar a especialidade em medicina interna. “A nível da minha especialidade, posso dizer que é dos melhores sítios. Não são necessários incentivos, basta a qualidade do hospital e do serviço. Nenhum dos médicos que tem vindo sente falta de incentivos porque acabam por gostar dos profissionais que aqui estão”, considera.

Também Luís Guimarães, de 29 anos, está no interior do país de coração cheio. Trocou o Porto pela Guarda. É interno do ano comum e, apesar de há poucos meses na Guarda, garante que o futuro é ali.

“Vejo o meu futuro pelo interior e a minha primeira opção era Bragança. No interior, os médicos são mais valorizados e temos mais possibilidade de aprender, pois somos mais requeridos”, esclarece. Mas admite que os incentivos seriam uma boa ajuda para fixar mais médicos.

“As autarquias podem disponibilizar alguns serviços a quem se quer fixar cá. Por exemplo, as piscinas municipais ou a oferta cultural, não só para médicos, mas para todos os profissionais em início de vida aqui, podia ser gratuita ou ter descontos”, sugere.

Luís conta que, em conversas de café, tenta convencer outros colegas a abraçarem as zonas mais carenciadas do país. E quando lhe perguntam porque devem vir para a Guarda, a resposta é curta: “Porque a tua medicina é muito mais necessária no interior.”

Comentários
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  • Fausto
    01 fev, 2018 Lisboa 12:14
    É evidente que todos que vao para o interior com a queda demografica ficarão a medio prazo sem emprego.Fecharam serviços do estado e privado,CTT,maternidades,escolas,etc.Lembrem-se dos professores e respetivas carreiras,ninguem de bom senso e racionalmente pensante vai querer centralizar a sua vida no interior,a falta de oportunidades no litoral e zonas pr´ximas vao provocar o preenchimento temporário de alguns lugares.Agora quererem castigar quem se pretende transferir qdo surgem oportunidades internas ou externas é crime.Os médicos estão a ser fabricados em excesso é apenas aguardarem ,mas que a qualidade de vida é inferior é,senao não existia esta polémica.
  • Ponce
    31 jan, 2018 Lisboa 15:57
    O interior do País é um inferno no Verao e a Sibéria no inverno.O interior serviu para definir e defender fronteiras e viveu á custa da agricultura e certa proteção estatal.Hoje é visto como zona a não habitar .Portugal tem um problema e não quer assumir .Interior é para falir.Assim desapareceram as muralhas e respetivos castelos , a modernidade n os recosnstruiu nem voltaremos ao feudalismo.Querer manter o interior vivo e pujante em todas as áreas é uma utopia.As cidades litoral serão sempre maiores ,atrativas ,multiculturais,multifacetadas,pontos de encontro internacionais,plataformas aeroportuárias para todo o mundo,zonas de investigação e investimento apetecível.O interior é para ajudar a morrer mas não irá sobreviver.