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Opinião de João Ferreira do Amaral
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​A grande contradição

19 abr, 2018 • Opinião de João Ferreira do Amaral


Então não é verdade que desde o início se sabia que o euro iria criar países ganhadores e países perdedores e que foi isso, aliás, que fez “indemnizar” os países perdedores com mais uns patacos de fundos estruturais?

Quando se olha para as vicissitudes da integração europeia a partir da criação da União Europeia em 1992, não deixa de nos surpreender a inconsistência do caminho seguido. Isto é particularmente verdade nos últimos tempos, em que parece que os náufragos do projecto falhado do federalismo europeu se agarram às mais irrealistas esperanças e aos mais perigosos e contraditórios sonhos.

Toda a inconsistência do processo se pode resumir na imensa contradição que é de fazer apoiar o projecto de integração, supostamente, um projecto de união entre estados, naquilo que, afinal, mais divide a Europa!

Estou evidentemente a falar do euro, que neste tempo de descalabro das ilusões dos europeístas extremados é apontado por estes como o grande e talvez único factor de união, que pode “salvar” a Europa.

Como é possível tanta cegueira? Então, esquece-se que foi justamente o euro que, em particular a partir da crise, criou clivagens na União como até aí não se conheciam? Então não é verdade que desde o início se sabia que o euro iria criar países ganhadores e países perdedores e que foi isso, aliás, que fez “indemnizar” os países perdedores com mais uns patacos de fundos estruturais? Então, alguém nega que o euro e as suas instituições fizeram que a Alemanha ganhasse um desproporcionado poder na União agravando as clivagens que por outra via se iam criando?

Pensar que será o euro o factor de união desta Europa criada, massacrada e dividida por ele, é uma enorme contradição.

E a História demonstra que os projectos grandiosos que se se autocontradizem, normalmente têm vida curta e são extremamente penosos quando se afundam.

Comentários
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  • MASQUEGRACINHA
    19 abr, 2018 TERRADOMEIO 18:04
    De facto, não me parece que a questão do euro tivesse a ver com qualquer espécie de cegueira - acho, até, que os objectivos pretendidos foram alcançados. Por um lado, como bem descreve, uma Alemanha tornada desproporcionalmente poderosa, ao ponto de ninguém lhe pedir contas por défices ou excedentes - está acima disso tudo, e nem cuida de disfarçar a sua ética de vampiro; por outro, o sábio doseamento de estímulos de cenoura e chicote, de garrote que se aperta e desaperta, para ir permitindo a circulação, mas sempre em risco de gangrena, que vão mantendo a procura espevitada e a concorrência entretida a pagar juros. A clivagem é definitivamente um método elástico, a aparente cegueira é só isso, aparência. E a coisa resulta, porque, de facto, é apenas o euro que mantém a UE unida: não ficou já claramente demonstrado pelo caso grego (mas não só!) que os povos até sairiam alegremente da UE política, mas não querem nem ouvir falar em sair do euro? O euro é, para todos os efeitos, a cola que nos une, filhos e enteados. No entanto, o método elástico pode deixar de funcionar, a previsível racionalidade dos povos já provou não ser um dado adquirido, a clivagem pode mesmo passar um ponto de não retorno... Mas suponho que a aparente cegueira também já tenha visto isso, e tenha uma solução: dois euros, um deles fraco, mas indexado ao marco alemão... quero dizer, ao euro alemão.
  • couto machado
    19 abr, 2018 Porto 15:58
    Parabéns senhor doutor João Ferreira do Amaral, pela lucidez (mais uma vez), acerca do famigerado euro. Lá vamos cantando e rindo até que um dia acordamos estremunhados com a derrocada. Mas tudo na vida, tem conserto.
  • benjamin
    19 abr, 2018 famalicão 10:40
    Há pessoas que são teimosas por natureza, e mesmo perante indícios e razões que deveriam ser motivos suficiente para a mudança, a verdade é que...não mudam. Isto para dizer que, o senhor JFAmaral, que até parece evidenciar uma boa lucidez na abordagem às questões de foro económico, continua a insistir na ideia peregrina do anti-Euro, e não percebe que vai morrer e o Euro...vai continuar! Sinceramente, eu acho que já era tempo de fazer alguma inflexão e reavaliar a sua posição. Pior do que essa visão, só mesmo a ideia enraizada em Passos Coelho e seus seguidores, de que vem aí o Diabo! Já chega, peso eu de que...