Portugal, 1925. Há meses que o país vivia mergulhado em instabilidade política e agitação militar. Com as nuvens do fascismo a desenharem-se no horizonte, o Presidente da República, que ocupava o cargo desde 1923, pressentia que o poder iria parar às mãos dos militares e não queria ficar na história como o homem que o entregou.

Aos 65 anos, virou tudo do avesso. Queria “caminhar para a vida com todos os sentidos despertos” e sentia que aquele país soturno e corroído pela inveja o travava. Partiu no primeiro navio que conseguiu, dias depois de se demitir. Calhou chamar-se Zeus esse cargueiro que levou Manuel Teixeira Gomes para o Norte de África. Para sempre.

“É incrível como ele não é conhecido. É uma vida tão aventurosa, é uma personalidade tão marcante, pelos gestos que fez, pela carreira – foi vice-presidente da Sociedade das Nações, antecessora da ONU, foi Presidente da República, foi um grande escritor –, e as pessoas não o conhecem”, espanta-se Paulo Filipe Monteiro, que desenterrou esta história das areias do Magrebe.

Em entrevista à Renascença, o realizador conta que o filme lhe exigiu vários anos de pesquisa. Em Portugal, pouco se sabia daqueles últimos 15 anos de vida de Teixeira Gomes, passados na cidade argelina de Bougie. E na Argélia poucos rastos ficaram, porque o próprio escolheu viver no anonimato. Foi “um gesto de coragem e de liberdade”, considera Paulo Filipe Monteiro. “Ele podia ter tido regalias por ser um ex-Presidente exilado”, mas não quis que ninguém soubesse.

Uma carta de Teixeira Gomes para a filha, que o realizador descobriu num alfarrabista, prova, contudo, que não conseguiu cumprir essa vontade em pleno. O envelope indica que tinha sido aberta pela polícia militar. “A polícia francesa sabia que tinha ali uma grande personalidade e vigiava-o. Mas mais ninguém sabia”.

O algarvio fascinado pelo Islão

Aquele homem “elegante, tão chique, com uma enorme colecção de arte” era também um reformista, um defensor da classe operária, um homem de Portimão com os olhos postos no Mediterrâneo, um escritor de literatura à época considerada erótica. Visto à luz de hoje, era um homem à frente do seu tempo, por ter “essa busca da luz, da claridade, de caminhar para a vida com todos os sentidos despertos”, reflecte Paulo Filipe Monteiro.

Por outro lado, sublinha, “a paixão pelo Oriente ou pelo Norte de África era muito comum nestas décadas de 1910, 20, 30. Hoje é que se torna um pouco à frente, porque nós vivemos numa época de diabolização do islão e a atitude do Teixeira Gomes vem completamente em contracorrente com isso”. O antigo presidente e escritor “tinha crescido numa cultura algarvia, com muito de árabe, a ouvir as 'Mil e Uma Noites', as lendas das mouras encantadas, e sempre teve um fascínio enorme pelo islão e pelo Magrebe”.

O país não estava preparado para um homem com “tamanha liberdade e coragem”, admite o realizador, ao mesmo tempo que se demora a olhar para o tecto. “Estou a pensar se hoje estaria [risos]. Não sei. Ainda hoje não há muitos como ele, eu acho”.

A liberdade dá trabalho

Teixeira Gomes morreu na Argélia em Outubro de 1941. No fim do filme, lê-se que o corpo só foi transladado para Portugal em 1950 e que, quando veio o 25 de Abril de 1974, “o país reconquistou a sua liberdade e alguns portugueses também”. O realizador colocou ali a frase em jeito de lição. “Ser livre é um trabalho, nem todos têm essa liberdade que temos de conquistar e que ele conquistou. Afastou tudo o que o impedisse de ser ele próprio e foi ao encontro da sua vocação maior”.

O filme que agora chega às salas nacionais é um tríptico de múltiplas cores, em que os blocos temáticos se vão entrecruzando: um foca os últimos dias da presidência; outro mostra o tempo vivido na Argélia; outro ainda dá vida ao romance “Maria Adelaide”, que Teixeira Gomes escreveu no quarto de hotel de Bougie.

Ligado ao cinema há décadas como actor e como argumentista, Paulo Filipe Monteiro tinha já realizado a curta-metragem “Amor Cego”, em 2010. Estreia-se agora com “Zeus” na realização de longas-metragens. “Sinto que convergem aqui muitas experiências e vocações minhas, de actor, de director de actores, de encenador, de guionista, da paixão pela fotografia… Na realização de cinema há uma síntese de tudo isto”.

O filme custou cerca de um milhão de euros e contou com financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual, da RTP e do governo argelino.