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Reportagem

O meu escritório é perigoso

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O meu escritório é perigoso

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10 fev, 2020 - 07:10 • Celso Paiva Sol

Todos os dias milhares de pessoas correm risco de vida, apenas porque trabalham na estrada. Muitas são vítimas, precisamente por estarem a socorrer outras vítimas. Números rigorosos não há, mas todos os anos morrem alguns destes profissionais e dezenas de outros ficam feridos.

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Portugal tem 18 mil quilómetros de estradas, onde diariamente trabalham muitos milhares de pessoas. Na construção, manutenção e reparação, na fiscalização e vigilância, na emergência e socorro, na limpeza e jardinagem, e em todo o tipo de assistência, sobretudo, a mecânica.

No conjunto da rede rodoviária nacional, registam-se todos os anos mais de 130 mil acidentes, um número incalculável de avarias e milhares de trabalhos programados, desde obras de maior dimensão, até outras mais pontuais e rápidas, como a manutenção técnica de semáforos ou a colocação e pintura de sinalização.

Mas também muitos milhares de imprevistos, como os obstáculos que aparecem na via, as consequências do mau tempo, as muitas centenas de animais que são atropelados, ou até, por mais estranho que pareça, muitas dezenas de viaturas abandonadas nas bermas, até das autoestradas.

Trabalhar nas estradas constituiu um risco permanente. Todos os anos há notícia da morte de alguns destes profissionais, ferimentos, por vezes muito graves, em dezenas de outros, e um número infindável de sustos que ficam para a vida.

A velocidade e a distração são as principais ameaças, e os atropelamentos e colisões as principais consequências.

Apesar das evidências, não há dados concretos sobre este tipo de sinistralidade. A tentativa de os recolher com rigor esbarra em várias dificuldades, a começar no desconhecimento ou desinteresse das entidades responsáveis por esses trabalhadores.

A Infraestruturas de Portugal, por exemplo, gestora de mais de 80% das estradas nacionais, diz não ter dados sobre este tipo de acidentes. Lembra que parte significativa dos trabalhos que realiza são subcontratados, e reconhece que não tem este tipo de informação – nem interna, nem externa.

A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária também não consegue isolar este tipo de acidentes, entre todos os que costuma explicar em pormenor, e o mesmo acontece com a Autoridade para as Condições do Trabalho, cujas estatísticas nada ajudam a perceber a questão em causa.

Já a segunda maior concessionária do país, a BRISA - gestora de mais de 1.600 quilómetros - nem sequer respondeu às perguntas.

Seja porque a subcontratação dispersa os números e a responsabilidade de cada um, seja por causa da dúvida sobre como devem ser classificados estes acidentes – se de trabalho ou rodoviários, e de que sector de atividade - seja até pela forma como os processos são geridos pelas seguradoras, a verdade é que ninguém sabe ao certo quantos destes trabalhadores são vítimas no seu local de trabalho.

Histórias na primeira pessoa

António Marcolino, 58 anos, é encarregado na área da assistência e vigilância da Ascendi, concessionária onde já trabalha vai para 18 anos.

“Um dia, fui fazer umas medições a um painel. Saí da viatura, que já estava balizada com sinalização, e passei para o outro lado das guardas de segurança. Já estava do outro lado, quase a chegar ao painel, vem um pesado, passa-me por cima do carro que ficou irreconhecível. Se eu lá estivesse dentro, não estava aqui para contar esta história”, conta à Renascença.

Ou como naquele dia em que “tínhamos acabado de montar um corte de via esquerda para fazer uma reparação, com a sinalização toda adequada, e vem uma viatura que entra pelo corte a dentro. Só tive tempo de puxar o meu colega. Ficámos encostados ao separador central e o carro passou por nós mesmo rentinho a nós e levou tudo e mais alguma coisa à frente”.

Patrício Dias, 46 anos, oficial de assistência e vigilância da Ascendi. “Em 17 anos já fui abalroado quatro vezes, três delas parado na berma. Sustos? O pior deles todos, o primeiro. Foi de noite, e estava parado na berma a fazer testes de SOS, que na altura eram feitos todos os dias à noite. Uma pessoa despistou-se e veio embater na minha viatura.”

Foi o maior, mas não o único. “Um dia estava num acidente, ia a caminhar em direção à viatura e vi um condutor, quase a par da viatura, a levantar os olhos do colo – possivelmente estava com o telefone, e estava porque mais tarde confirmou – e como estava muito próximo, desviou-se e veio embater na minha viatura.”

No socorro, tal como na manutenção e assistência, os mesmos riscos, os mesmos receios, e o mesmo tipo de recordações.

João Nunes, 38 anos, formador e um dos elementos do gabinete de comunicação do INEM, passou por uma experiência destas quando desempenhada as funções de técnico de Emergência pré-hospitalar.

Dificilmente esquecerá aquele dia de março de 2010, num dos acessos á Ponte 25 de Abril em Lisboa. Estava numa operação de assistência a um acidente “já com a vítima dentro da ambulância, tudo devidamente balizado e com a autoridade no local. Há um veículo que entra em peão, com seis ocupantes dentro de um veículo, e embate de forma violentíssima contra a ambulância. Eu era o condutor da viatura e estava a deslocar-me para a porta quando ouvi a travagem. A minha sorte foi não tentar perceber o que é que lá vinha e em vez disso saltar para trás do rail, ao mesmo tempo que o carro se desfez contra a ambulância onde estava a minha colega e a vítima”.

À vítima que já estava na ambulância juntaram-se mais seis vítimas que vinham dentro do carro que se despistou, para além da outra técnica do IMEM, que teve uma lesão grave do joelho.

Dulce Leitão, 30 anos, é bombeira de 3.ª classe nos Voluntários dos Carvalhos e enfermeira de profissão. O dia que não esquece é o 22 de agosto de 2016, quando circulava na A4 a caminho de Marco de Canavezes.

Ao passar por um acidente, a equipa decidiu parar para prestar auxílio às vítimas que ainda se encontravam dentro das viaturas. “Eram 23h30, a visibilidade era quase nula e nisto deu-se o acidente. Foi muito rápido, talvez uns cinco segundos. Eu cheguei à beira da viatura em que estava uma senhora a sentir-se mal e nessa altura vejo o meu colega a fazer sinal através do refletor dos nossos fatos. Um sinal muito rápido como se fosse para abrandar, mas quando olho já vejo as luzes a virem na nossa direção. Fomos atropelados e fui projetada uns 15 metros.”

Já lá vão três anos e meio, mas ainda perduram as consequências das múltiplas fraturas numa das pernas. “Três cirurgias, a aguardar mais 2, 9 meses de fisioterapia, e algumas dificuldades no dia-a-dia, que vão ficar sempre.”

"Se eu estivesse dentro do carro, não estava aqui a contar a história."

Forças de segurança e pessoal do reboque também em risco

Sujeitos a este tipo de perigos, estão igualmente muitos milhares de elementos das forças de segurança. Nas localidades ou fora delas, em missões de fiscalização, de patrulha, de assistência, e de acompanhamento de trabalhos ou de provas desportivas, os números falam por si.

Na GNR, só nos últimos dois anos, um militar morreu e outros 36 ficaram feridos, na sequência de quase meia centena de acidentes.

A maior parte foram colisões: mais de 20, também 13 atropelamentos e uma dezena de despistes.

Na PSP, resultados muito semelhantes. Nos últimos seis anos, 95 polícias ficaram feridos em acidentes com estas características, numa média de 16 por ano.

Osvaldo Félix, 44 anos, chefe na divisão de trânsito da PSP de Lisboa. Nos 20 anos que já leva de carreira foram muitas as situações em que se sentiu em perigo, mas recorda em particular o acidente na A8 em novembro de 2018.

“Estávamos a fazer o acompanhamento de um serviço de marcação de marcas rodoviárias da autoestrada. A sinalização é feita por duas viaturas a uma distância de 500 e de 200 metros e os trabalhos são feitos com duas viaturas em movimento: uma que está a fazer as pinturas e, a outra policial, que segue à retaguarda com os dois agentes no interior, sempre em movimento. Daí estarmos todos dentro dos carros. Foi uma colisão com todos os intervenientes dentro das viaturas, não existia ninguém no exterior. Foi uma colisão traseira, com o arrasto da viatura policial durante uns 20 metros.”

Presença constante nas estradas nacionais é a dos reboques… ou não fossem a solução para tantas avarias e acidentes. Pelo menos, dois destes profissionais morreram em 2019 e muitos outros ficaram feridos.

Nuno Madail, proprietário de uma empresa de pronto-socorro na zona de Aveiro, também tem marcas para contar.

“Nas autoestradas já me passaram várias tangentes às costas e às pernas, onde que só tive tempo de fugir e saltar para a berma. Um dos maiores foi numa estrada nacional, onde estava abaixado para engatar um cabo numa viatura, e fui mesmo atropelado. Passaram-me por cima das pernas literalmente. Tive alguns ferimentos, fui para o hospital, nada partido, mas várias escoriações. Fiquei sem andar uns dias com várias lesões musculares, porque me passaram mesmo por cima do músculo. Fiquei alguns dias sem trabalhar.”

Como se não bastasse, este tipo de acidentes presta-se às mais diferentes interpretações, e, pelo que se percebe, a dificuldade em caracterizar estes intervenientes no acidente, acaba muitas vezes por penalizar ainda mais quem estava a trabalhar.

Foi o que aconteceu a Nuno Madail. “O condutor pediu desculpa e assumiu a sua responsabilidade, mas a companhia de seguros devolveu todas as despesas e declinou qualquer responsabilidade pelo ato.”

Do mesmo se queixa a Bombeira Dulce Leitão. “No início toda a gente está connosco, porque é um acontecimento, é bombeira. No início temos o apoio de muita gente, mas depois acabamos por estar sozinhos no meio do oceano. O meu acidente já foi há três anos, e não tenho nada resolvido.”

O problema está apenas na distração dos condutores a alta velocidade?

Renato Silveira, diretor de segurança da ASCENDI, garante que esse é o único fator impossível de controlar, porque de resto, mesmo que se consiga sempre fazer melhor, em Portugal já se cumprem todas as normas.

“O protocolo é o manual de sinalização que é idêntico e está normalizado em Portugal, que divide os esquemas em três tipos. O esquema P (perigos temporários), que é essencialmente usado pelos nossos oficiais de assistência e vigilância, perante os cenários de acidente ou obstáculo na via; depois existem os esquemas F (trabalhos fixos) que são trabalhos planeados: e depois ainda há os esquemas M (trabalhos móveis) que são realizados com as viaturas em movimento.”

Renato Silveira reconhece, no entanto, que por melhor que seja o protocolo técnico, a sua aplicação constitui, só por si, um risco para quem trabalha, sobretudo nas autoestradas.

“Temos em Portugal uma boa sinalização, mas assenta muito na sinalização vertical. Os nossos esquemas ainda estão muito na base de ter que se montar a sinalização, uma panóplia de sinais, que obriga os trabalhadores a atravessar as vias para os colocar no separador central. Países como o Reino Unido já acabaram com os atravessamentos há largos anos e apenas aplicam a sinalização num dos lados, recorrendo muito à sinalização luminosa”.

Nos 630 quilómetros que tem à sua responsabilidade, distribuídos por seis concessões, na última meia dúzia de anos, a ASCENDI registou três vítimas mortais – dois funcionários da empresa e um externo - e 11 feridos, três deles com gravidade.

Para atacar este problema em concreto, a ASCENDI prepara-se para adquirir um sistema de proteção já usado no Reino Unido, em França e nos Estados Unidos, mas para já ainda inédito no nosso país. “Depois de alguns anos a tentarmos que se começasse a usar em Portugal um sistema que é o TMA - que é essencialmente um atenuador de impacto móvel acoplado às viaturas, em especial a camiões - é com muito agrado que estamos em contactos para adquirir dois desses sistemas, mas estamos a pensar adquirir mais, para usarmos nas nossas vias.”

Um sistema que protege essencialmente quem está exposto na estrada, mas que poderá também minimizar as consequências para quem entra em despiste. “É um sistema que se pode considerar passivo, ou seja, ele não evita o acidente. O que faz é diminuir o impacte que o embate possa ter no utente, e em quem está a manobrar viaturas no local de trabalho.”

"Temos que começar a substituir a sinalização vertical pela luminosa."

A solução ideal seria que os automobilistas ganhassem consciência da ameaça que são para quem trabalha na estrada, mas enquanto isso não acontecer, resta a prevenção.

João Nunes, do INEM, diz que a grande aposta deveria ser feita na visibilidade. “Na caracterização dos próprios meios, já há neste momento visibilidades superiores àquelas que nós estamos a usar. Porque não evoluir? A Alemanha já o faz. Aquilo que nós consideramos mínimo para nós para eles já é rudimentar. Quer queiramos quer não, o que evita um acidente numa faixa de alta velocidade é eu ver mais cedo, é perceber mais cedo”.

Lembra ainda que há uma série de pequenos objetos luminosos que podem ser distribuídos pela estrada, que ocupam pouco volume e até podem estar colocados nas viaturas de emergência.

No caso dos reboques, diz Nuno Madail, é preciso distinguir as autoestradas das outras vias. No primeiro caso “devia ser obrigatório por lei, quando há um pedido de assistência serem logo acionados os meios de proteção nas autoestradas. A Brisa e a Ascendi devem estar sempre no local quando há uma viatura avariada. Porque eles não estão lá, muitas vezes sinalizam os carros deixam os pinos e vão-se embora, mas depois se houver uma tragédia aparece lá tudo. Acho que o risco deve ser prevenido e não remediado.”

Já no caso das estradas nacionais “é mais difícil, não podemos chamar as autoridades cada vez que temos um serviço de assistência porque muitas vezes não é necessário. Parte de nós sinalizar o mais que pudermos, pormos os triângulos quando eles não existem, sinalizar bem as viaturas, ter o maior cuidado possível, porque de facto não estamos sozinhos na via pública”.

Para o chefe da PSP Osvaldo Félix, o ideal seria que os automobilistas cumprissem a lei. “Quando existe sinalização temporária as pessoas têm de cumprir. É para termos atenção e para diminuirmos a velocidade, porque algo se passa mais à frente.”

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  • Nuno Andrade
    10 fev, 2020 LISBOA 12:10
    Dou os meus parabéns à Radio Renascença, primeiramente pelo excelente trabalho informativo e jornalístico levado a cabo, que durante tantos anos contribui para nos tornar pessoas mais informadas, sobre tantos e diversos temas. Neste caso concreto, o grande jornalista Celso Paiva Sol, agarrou num tema por vezes esquecido, cuja visibilidade é momentânea, pois não se trata de futebol, ou outros assuntos cor de rosa, que apenas serve para ser tema de conversa momentânea, fútil e banal. Agradeço o convite que me foi feito pelo Celso Paiva Sol, para dar o meu contributo nesta temática, que infelizmente ficou tão presente na minha vida, mas por motivos que me são alheios, não foi possível a minha participação. O tema: “O meu escritório é perigoso”, não podia ser o mais apropriado, pois são centenas os profissionais que nas mais diferentes áreas, de forma mais direta ou indireta contribuem para a segurança dos demais utilizadores da nossa rede viária, expondo-se assim de forma direta, a perigos que o condutor comum não tem noção que existem. Só quem já trabalhou ou trabalha nas estradas e autoestradas, sabe a violência e o perigo que os veículos em movimentam são. O nosso veículo é uma arma sempre municiada, capaz de provocar a morte ou incapacidade a quem os conduz, a quem partilha a mesma via, seja apeado, a conduzir ou a trabalhar. Vivemos uma guerra civil que todos os anos ceifa centenas de vidas, destróis centenas de lares. POR FAVOR RESPEITEM O ESCRITÓRIO DOS OUTROS