É pequeno, tem pintinhas e um apetite voraz. Saiba o que anda a matar as palmeiras

03 fev, 2014 • Maria João Costa

Chama-se rhynchophorus ferrugineus, tem entre três e quatro centímetros. O chamado “escaravelho da palmeira” só em Lisboa já matou meio milhar de exemplares.
É pequeno, tem pintinhas e um apetite voraz. Saiba o que anda a matar as palmeiras
É pequeno, tem pintinhas e um apetite voraz. Saiba o que anda a matar as palmeiras
Já pode ter reparado quando anda na rua. São cada vez mais as palmeiras que morrem pelo país. As folhas secas que vão caindo, e que em alguns casos já foram responsáveis por danos em viaturas estacionadas, denunciam a presença de um insecto. O “escaravelho da palmeira” tem pouco mais de três centímetros mas, só em Lisboa já matou nos últimos anos 500 palmeiras, duas delas no Jardim Botânico de Lisboa.

É um verdadeiro devorador de palmeiras e chama-se rhynchophorus ferrugineus. Este pequeno escaravelho que tem atacado em Portugal veio da Polinésia, entrou pelo Norte de África e, em 2007, chegou ao Algarve.

“É um escaravelho que tem umas dimensões que andam à volta de 3 a 4,5 centímetros e as larvas às vezes ainda são maiores”, começa por explicar à Renascença Filomena Caetano, directora do Laboratório de Patologia Vegetal "Veríssimo de Almeida" do Instituto Superior de Agronomia.

Segundo Filomena Caetano, o rhynchophorus ferrugineus “come vorazmente as palmeiras, afecta os tecidos tenros e pode afectar os tecidos que produzem as folhas das palmeiras. Quando isso acontece, este tecido morre e as palmeiras acabam por apodrecer quer no seu interior, quer na base, e as palmas acabam por cair”.

Como identificar uma palmeira doente?
Pelo país há mais casos, as autarquias têm estado em alerta e a tentar minimizar o problema, diz a investigadora Filomena Caetano que descreve como se identifica uma palmeira doente: “Num primeiro estádio, muitas vezes é difícil detectarmos o ataque, porque é um insecto que se desenvolve no interior das palmeiras. O que podemos ver é furos na base das palmeiras e também algumas palmas podem aparecer roídas. Depois, se repararmos bem, na palmeira poderá aparecer uma assimetria de coroa, ou seja, faltam-lhe folhas em cima.”

“O último estádio do ataque deste insecto é a coroa das palmeiras (parte das folhas) em chapéu-de-chuva. Até costumo dizer, o chapéu de praia pelo aspecto acastanhado que tem. Quando isto acontece é sinal de que as palmeiras já estão muito afectadas”, acrescenta Filomena Caetano.

Os tratamentos existem, mas são caros. Ainda assim Filomena Caetano, que investiga agora um fungo para tentar combater o escaravelho, diz que não se deve baixar os braços: “Não devemos desistir desta luta entre planta e insecto. Na cidade de Lisboa temos alguns casos de sucesso, como algumas palmeiras do Campo Grande e também algumas palmeiras daquela zona emblemática do Campo das Cebolas.”

Se é verdade que por vezes há casos de sucesso, outros há em que as palmeiras mortas podem provocar estragos, em alguns casos já deram lugar a indemnizações.

Palmeira das Canárias tem sido a mais afectada
A investigadora que tem dedicado os últimos anos ao estudo deste escaravelho explica que o insecto, de cor de ferrugem com pintinhas, ataca 23 espécies de palmeiras, cinco delas em Portugal.

“Neste momento, em Portugal conhecem-se cinco espécies de palmeiras que já foram afectadas por este tipo de escaravelho, sendo a mais afectada a palmeira das canárias e também a chamada tamareira. Neste momento, na Grande Lisboa tenho conhecimento também de ataques à palmeira de leque”, explica Filomena Caetano.

A especialista do Instituto Superior de Agronomia acrescenta ainda que, segundo dados da Câmara de Lisboa, “cerca de 500 palmeiras já foram cortadas desde o aparecimento deste insecto até agora. É um esforço substancial da Câmara para deter o avanço deste insecto”.

Duas dessas palmeiras morreram no Jardim Botânico de Lisboa. Teresa Antunes, responsável pela colecção cultivada, explica que têm tentado combater o escaravelho, mas nem sempre são bem-sucedidos: “O Jardim Botânico temos as phoenix canariensis infectadas. Temos feito luta biológica e química. Desde 2011, mensalmente, são aplicados os produtos, mas não conseguimos resistir.”