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Narradores de histórias vão ter direito a diploma

12 dez, 2014 • Olímpia Mairos

Homens e mulheres da região do Douro, que souberam guardar as histórias e lendas de outros tempos, são distinguidos este sábado, no Museu do Douro.
Dezanove contadores de histórias recebem este sábado, no Peso da Régua, o diploma de "Narrador da Memória", atribuído pelo Museu do Douro, no âmbito de um projecto de inventariação do património imaterial da região duriense.

Homens e mulheres entre os 61 e os 96 anos de idade, residentes nos concelhos de Vila Real e Sabrosa, que souberam guardar as histórias, lendas e rezas que ouviram aos serões da lareira sobretudo no período de Inverno, no tempo em que não havia televisão e a rádio chegava a poucas casas.

As histórias eram contadas pelos mais velhos da família e serviam para entreter os mais novos. Ligadas ao campo, aos animais e à fé, as velhas narrativas e contos serviam para "incutir valores" e "estreitar os laços entre familiares e amigos", refere o coordenador, Alexandre Parafita.

A entrega destes certificados vai acontecer no Peso da Régua e visa reconhecer o papel importante destes contadores, a maior parte dos quais idosos, na "transmissão às novas gerações da memória cultural da sua comunidade".

Mais de 600 narrações orais
O projecto de inventariação do património imaterial da região duriense "já permitiu resgatar um número superior a 600 narrações orais, entre contos populares, lendas e mitos da região do Douro", refere Parafita.

As histórias foram compiladas no terceiro volume da obra "Património Imaterial do Douro", que vai ser lançada, também este sábado, no decorrer do III Fórum do Património Imaterial do Douro.

Na obra, conta Parafita, "são revelados registos lendários de milagres, lugares de memória, crenças e superstições, actos de bruxaria e outros rituais diabólicos, inquietações de almas penadas, lobisomens e transfigurações do demónio".

O projecto faz parte do inventário do património imaterial da região duriense que está a ser promovido pelo Museu do Douro desde 2007. 

Enquanto a avó fazia o caldo 
Raúl Carvalho tem 89 anos e reside em Borbela, no concelho de Vila Real. É um dos contadores de histórias que vai receber o diploma de "Narrador da História".

Os tempos de criança foram vividos em Lisboa, mas foi com os avós que aprendeu as histórias que agora procura transmitir aos sete filhos, 13 netos e quatro bisnetos.

"São coisas que contavam na altura, nos serões à lareira, enquanto a avó fazia o caldo", conta.  Quase todas tinham um "fundo moral" e um "ensinamento". "Ensinavam a respeitar os mais velhinhos e proibiam de fazer isto ou aquilo", diz.

Raúl tem uma história que nunca se esquece de contar e que ajuda a compreender a expressão, ainda hoje muito usada pelos mais velhos, quando se despedem de uma conversa: "Deus te pague". Para Raúl, a expressão retrata a "história da viagem de S. Pedro à terra, a pedido do Divino Mestre".

E Raúl começa a contar. "S. Pedro desceu do céu e veio cá baixo à Terra ver como eram as coisas por aqui. Quando cá chegou..."

Desfia o conto para no final dar a súmula da história: "Já no céu, S. Pedro disse ao Mestre: desculpe que lhe diga, mas eu ouvi lá várias pessoas a queixarem-se do Divino Mestre. Ia por uma rua e por outra e só ouvia dizer: 'Deus te pague'. O senhor deve lá muito dinheiro. Mande pagar as dívidas porque se vai lá abaixo voltam a matá-lo".

Raul Carvalho quer manter viva esta e outras histórias e até já as passou para o papel. Quer "fazer um livrinho" para deixar de herança aos netos.

"Eles gostam muito de ouvir e, quando vêm cá, não lhes interessa a televisão, preferem ouvir o avô a contar histórias. Estão ali tão atentos que parecem os passarinhos de boca aberta, à espera que lhe metam alguma comida na boca", brinca Raúl.