Cultura é maior antídoto contra fanatismos, dizem representantes religiosos

15 abr, 2015

Em representação do cristianismo, D. Carlos Azevedo defendeu que é preciso dialogar com todos e tentar perceber as raízes por detrás dos fenómenos violentos.
Cultura é maior antídoto contra fanatismos, dizem representantes religiosos
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Representantes católicos, muçulmanos e judeus defenderam hoje, durante uma conferência em Lisboa, a necessidade de parar para reflectir, apontando a cultura, o diálogo e abertura ao outro como o "maior antídoto" contra os fanatismos da actualidade.

“A cultura é, de uma forma geral, um dos mais importantes instrumentos de convivência humana e o maior antídoto contra o fanatismo que exclui e persegue em nome de uma ‘verdade’ única, seja qual for”, considerou Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.

Esther Mucznik falava no painel “A cultura para lá da religião”, no primeiro dia de conferências do Fórum Internacional “O Lugar da Cultura”, a decorrer em Lisboa até 17 de Abril, e que reúne artistas, governantes, pensadores e especialistas de diferentes áreas, para debater o papel da cultura na actual sociedade portuguesa.

Lembrando que, nos dias que correm, a “religião não tem muito boa fama”, por “demasiadas vezes” se terem praticado e continuarem a praticar “crimes invocando o seu nome”, a investigadora assinalou que foi na religião “que foram escritos alguns dos mais belos livros da humanidade, construídos magníficos templos e elaborados alguns dos códigos éticos mais sábios e humanos”.

“Por tudo isto, a cultura religiosa é património indelével da humanidade”, sublinhou.

Também presente na mesma sessão, o delegado do Conselho Pontifício para a Cultura no Vaticano, o bispo português D. Carlos Azevedo, sublinhou a importância de encontrar, num “contexto multicultural e de pluralismo cultural”, convergência em valores como a dignidade da pessoa humana, os direitos humanos, a liberdade religiosa, a igualdade entre homens e mulheres ou a atenção aos pobres.

“A cultura ocupa o seu lugar quando promove a dignidade humana, educa para a personalidade e a identidade, para a contemplação e para o sentido profético da religião”, disse D. Carlos Azevedo.

Para D. Carlos Azevedo, vivemos num “contexto cultural resistente, estranho e indiferente ou até hostil, próprios de uma sociedade à deriva e em rápida transformação”, que “requer acompanhamento no caminho da verdade e da paz, renunciando a qualquer violência”.

À margem da conferência, D. Carlos Azevedo, defendeu, em declarações à agência Lusa, a necessidade de o mundo “parar para reflectir” e questionar sobre o que está na origem dos tantos fenómenos violentos que se verificam hoje.

Para o bispo é preciso “dialogar com todos”, para perceber quais os contextos, as decisões e o que é que “estamos a fazer mal” e que leva determinadas pessoas a tomarem atitudes de grande violência.

Também convidado da conferência, David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, traçou um breve perfil do que considera ser a cultura islâmica, desmistificando a ideia de que “nem tudo o que o muçulmano faz é religião”.

“Às vezes é cultura e outras é tradição e nem sempre se consegue distinguir”, disse.

Adiantou que a cultura islâmica “promove a sabedoria e a paciência” e que “não é dominadora, mas também não é exclusivista”.

“Devemos colaborar com várias pessoas e culturas e beneficiar do conhecimento de todas as pessoas. A cultura islâmica ensina a escutar e a dialogar com os outros”, disse, apelando para o aprofundamento do conhecimento do islão.

O Fórum “O Lugar da Cultura”, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, prossegue quinta-feira, com os painéis do colóquio “Cultura e Desenvolvimento - Estudos Cultura 2020”, no quadro de financiamento europeu 2014/2020, e, sexta-feira, com mesas redondas sobre políticas sectoriais, com a participação dos principais responsáveis do sector.