Exportadoras portuguesas temem a força do Podemos? Nem por isso

07 nov, 2014 • João Carlos Malta

O bipartidarismo espanhol tem a primeira ameaça real: o Podemos, força de esquerda nascida nas ruas, que lidera sondagens. Será que esta (possível) mudança política vai afectar as relações económicas Portugal-Espanha? A Renascença procurou respostas. Não existe só uma.
Exportadoras portuguesas temem a força do Podemos? Nem por isso
"Sondagens são sondagens", "uma coisa é o que se diz até chegar ao Governo e outra é o que lá se faz", "queremos mesmo um partido como o Bloco de Esquerda a governar Espanha?" ou um talvez surpreendente "até pode ser melhor para os negócios entre Portugal e Espanha". Estas foram algumas das respostas que a Renascença obteve de empresários, investidores e personalidades com passado na diplomacia económica sobre a erupção do fenómeno Podemos, que saltou das ruas de Madrid para a liderança das sondagens em Espanha. Tudo apenas em oito meses.

Ainda assim, a um ano das eleições legislativas espanholas, do lado de cá da fronteira a maior parte dos gestores e líderes de empresas exportadoras desvalorizam o impacto que o movimento liderado por Pablo Iglésias, que defende a nacionalização de sectores estratégicos da economia, entre outras medidas, possa ter nas relações económicas entre os dois países. Espanha vale cerca de um quarto do total das exportações portuguesas.

A Inapa actua em Espanha desde 1984, onde é uma empresa de topo na distribuição de papel. O director executivo da firma cotada em bolsa José Félix Morgado diz que "ainda é muito cedo para se avaliarem os impactos".

"Sondagens são sondagens. Já vimos outros partidos de natureza semelhante que apareceram e inicialmente tiveram alguma simpatia mas na hora de votar tudo é diferente", enfatiza o gestor.

Félix Morgado diz não ter dados para avaliar o resultado que uma possível vitória do Podemos terá nas relações económicas entre os dois países, mas ainda assim relativiza algumas das propostas do movimento que em duas sondagens aparece no topo das preferências dos espanhóis. "Quem não espera chegar ao poder faz sempre algumas propostas que na hora da verdade são difíceis de concretizar".

Até 'podemos' sair a ganhar
Pablo Iglésias, um intelectual que transitou das universidades para a política com o impulso da rua por trás, já anunciou o contrário. "Estamos aqui para ganhar e governar".

OO ex-presidente da AICEP, agência que promove o investimento e o comércio externo, Basílio Horta não vê que isso fosse negativo.

O homem que ajudou a fundar o CDS e liderou a diplomacia económica de Portugal entre 2007 e 2011 vê neste acontecimento um dos sinais de que a Europa está a mudar. E vê uma oportunidade onde outros vêem perigos.

"Creio que [uma mudança de governo] até pode beneficiar [as relações económicas entre Portugal e Espanha], se o programa do Podemos for equilibrado e inovador e conseguir cortar com esta política de austeridade a todo o custo que tem caracterizado a política europeia e nos tem levado para uma posição cada vez mais grave", sintetiza.

Quanto ao facto de o programa do Podemos ter referências a nacionalizações, o agora presidente da Câmara de Sintra contextualiza: "Não sei se o PSD já mudou o programa original, mas se o vir dizia o mesmo: nacionalização dos sectores estratégicos da economia".

"Acho que uma coisa é o que se diz nos programas e outra é aquilo que a prática aconselha a fazer", disse Horta, seguindo, neste aspecto, o raciocínio de Félix Morgado. Mas de imediato faz uma inflexão, para mostrar que mesmo na substância concorda com uma maior intervenção do Estado na economia.

"Não me repugna nada que o Estado tenha um controlo apertado com os sectores estratégicos, que são sectores básicos e que alimentam todo o processo económico como a energia, as vias de comunicação, e os portos", elogia o socialista, que diz ainda apreciar as críticas ferozes que o Podemos faz ao sector financeiro.

Queremos uma Espanha com uma economia bolivariana?
Mais em desacordo com Basílio Horta, não poderia estar Jon Velasco, um basco há 30 anos em Portugal, e que lidera a sucursal portuguesa da produtora de componentes de automóvel alemã Huf.

Jon Velasco frisa que está a falar em nome pessoal e vai directo ao assunto: a vitória do Podemos "seria um atraso monumental na história de Espanha", logo agora que os indicadores económicos apresentavam melhorias.

Jon Velasco parte de seguida para uma comparação com as experiências dos modelos de esquerda que estão a ser testados na América Latina. "A economia da Bolívia ou da Venezuela não parece que estejam muito fortes. Espero que seja impossível isso acontecer em Espanha. Mas estou convencido que se o Podemos crescer muito, e mesmo que seja só a terceira força política, vai ser mau para a economia espanhola".

E a seguir avisa: "Os investimentos [portugueses] poderão sofrer com isso, mas agora ainda não é momento de grande alarido. O líder do Podemos apoia agora o Bloco de Esquerda, e a pergunta é: se o Bloco governar Portugal será bom para economia? Bom, 5% das pessoas diria que sim mas o resto acha que não", reforça.

O líder da CIP, confederação que junta os industriais portugueses, António Saraiva põe alguma água na fervura. "As relações comerciais, as relações institucionais não se alteram porque mudarem os partidos do espectro partidário tradicional. Não creio que ocorra nada de mais, nem de perigoso", acredita o líder associativo.

Mas não é diferente para as exportadoras e investidores nacionais ter o Podemos ou ter o PSOE ou o PP no poder? "Acho igual, porque não creio que a alteração desta ou daquela força politica altere relações criadas, relações essas com laços muito fortes", sublinha.

Nem aquece, nem arrefece
Quem parece estar a passar ao lado do sismo político no país vizinho são os investidores nacionais.

O presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais, Octávio Viana, diz não ter notado "qualquer reacção nos investidores". "Nem nos portugueses, nem nos estrangeiros", acrescenta.

Viana diz que este nem foi tema de conversa com investidores portugueses ou espanhóis, até porque "é uma sondagem e as sondagens têm interesse mas ainda não são uma decisão".

Pelo contrário, em Espanha o jornal económico "Cinco Días" titulava no início deste mês que o "Podemos é uma dor de cabeça crescente para os investidores".

O jornal citava o gestor da Abante (consultora para investimentos), José Ramón Iturriaga, que diante de um grupo de mais de uma centena de investidores internacionais disse que o Podemos "será sol de pouca dura".

E acrescentou que "o PP tem que perceber como recuperar os quatro milhões de votantes que ficaram em casa mas últimas eleições". "Mas acredito que a percepção das pessoas mudará até às eleições", somou.

Na mesma edição, Miguel Paz, director da Unicorp Património, do grupo Unicaja, considera que "o discurso de Pablo Iglésias é claramente enfocado em ganhar votos. E vai consegui-lo". "Quanto mais se conhecerem dados da corrupção do PP e do PSOE, mais pessoas vão votar no Podemos. Pouco importa se as suas medidas são viáveis", sintetizava.

O silêncio é a alma do negócio
Há quem não queira misturar política e negócios. Alguns gestores contactados pela Renascença optaram por não comentar.

O director executivo da Logoplaste, Alexandre Relvas, não se alonga em comentários em "on": "Não fazemos comentários políticos sobre os países em que fazemos negócios".

O"Temos uma forte presença em Espanha e não temos opinião respeitando aquilo que é a opinião do povo espanhol", reforçou.

Já Pedro Mendes Leal, director executivo da Empark que ainda no Verão passado ganhou a gestão de mais 155 mil lugares de estacionamento em Espanha que juntou a um já vasto portfólio naquele país, responde que nunca se debruçou sobre este assunto. " Não costumo estar atento à vida politica em Espanha, pelo que a minha opinião é superficial e não tem a profundidade necessária", considera o gestor.

Catalunha é que preocupa
A Frezite tem duas empresas de vendas em Espanha, com equipas pequenas, e é liderada por José Manuel Fernandes. O gestor que já foi vice-presidente da CIP considera que haverá "retracção de um certo movimento que a Espanha está a ter de investimento".
 
"Se houver instabilidade, isso pode levar a que o movimento de recuperação possa desaparecer", teme. Para depois desdramatizar. "Não creio que eles entrem num desmando e numa desordem da ordem pública".

A Renascença ouviu ainda um alto quadro de uma multinacional espanhola a actuar em Portugal que pediu para não ser identificado. Justificou-se: "Não quero meter foice em seara alheia".

Mas imediatamente diz acreditar que o discurso do Podemos tem uma vertente "encantatória".

"Não quero parecer conservador e defensor dos partidos do ‘establishment’, mas até ao momento este movimento não tem escrutínio, exceptuando a sondagem [do fim-de-semana passado]. Mas temos visto alguns destes casos acontecerem e depois desaparecerem", reflecte.

Este gestor não crê que o Podemos venha a influenciar as relações económicas entre Portugal e Espanha. E acaba a recentrar o debate. Não é o Podemos que mais assusta os investidores, defende.

"A consulta na Catalunha em termos internacionais e as possíveis consequências para o investimento em Espanha geram maior desconforto aos investidores. Este é o facto que está a criar maiores ondas de choque em que investe", remata.