Crise

Há quem passe fome no ensino superior

18 mai, 2012 • Mara Dionísio

Com a crise, têm aumentado os casos de alunos que desistem por carências económicas. Governo promete acelerar atribuição de bolsas de estudo.
Há quem passe fome no ensino superior

A crise tem vários tentáculos, um dos quais acentuou as dificuldades dos alunos do ensino superior que têm menos posses. "Recordo-me de um caso que me deixou bastante chocado. Uma aluna pediu ajuda e dizia ‘por favor, ajudem-me, nem que seja com senhas de almoço, porque com tanta coisa para pagar, por vezes a alimentação não fica como uma prioridade", conta à Renascença Paulo Figueira, presidente da associação académica de Évora.

Este é um cenário que se repete noutros pontos do país. "Já tivemos casos de estudantes que, infelizmente, não têm dinheiro para comer. São situações extremamente dramáticas, onde tentamos ajudar, na medida do possível", conta Ricardo Morgado, presidente da associação académica de Coimbra.

À falta de dinheiro, acresce ainda o atraso nas bolsas de estudo e o pagamento das propinas. "Os alunos em Évora sentem problemas com o atraso no pagamento das bolsas de estudo. Muitos deles não conseguem pagar a renda, a própria alimentação, já para não falar da questão das propinas", diz Paulo Figueira.

Como consequênica, aumenta o incumprimento no pagamento das propinas. "A Universidade de Évora tem uma taxa de incobráveis bastante elevada - estima-se que cerca de 1.300 alunos não pagaram ainda um cêntimo de propinas este ano", revela Paulo Figueira.

"Há sempre uma franja de alunos que tem algumas dificuldades"
No Algarve, a região com a maior taxa de desemprego do país, "há um pequeno acréscimo" de alunos que desistem por dificuldade económicas, mas "não é um acréscimo significativo", explica o reitor da academia algarvia, João Guerreiro.

"Este ano, temos um nível de desistências que rondará as 340. É um ligeiro acréscimo, provavelmente de 10% em relação ao nível de acréscimos do ano passado, mas se analisarmos isto em relação ao conjunto dos estudantes que frequentam a Universidade do Algarve, é um acréscimo marginal", afirma o reitor da Universidade do Algarve.

Já na Beira Interior, o reitor João Queiroz diz tratar-se de "uma situação que tem ocorrido um pouco ao longo dos anos". "Este ano, se me pergunta se tenho notado um crescimento exponencial no número de casos problemáticos de alunos que pagaram menos propinas ou que têm mais dificuldade, não tenho notado, mas há sempre uma franja relativamente pequena, felizmente, porque, se fosse massificada, era mais problemático - há sempre uma franja de alunos que tem algumas dificuldades."

Também o reitor da Universidade Católica diz que "há, efectivamente, alguns alunos com dificuldades em continuar os seus estudos e em pagar as suas propinas". "Temos vindo a responder a essas situações com o nosso apoio social e não temos uma situação excessivamente preocupante", explica Manuel Braga da Cruz.

À Renascença, o secretário de Estado da Educação e Ensino Superior disse que, em relação às bolsas de estudo, "um dos problemas sérios que temos é essa demora [na entrega]". João Filipe Queiró promete que o Governo está a "trabalhar para ver se melhora essa situação, para que para o ano já não seja tanto assim".