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Bela Flor. “Falta de tudo ali”

25 jul, 2015

Neste bairro de Lisboa, o isolamento pauta a vida dos moradores, que se queixam de terem sido postos "numa cova antes do tempo” depois da destruição, há 14 anos, das mais de 600 barracas que lá existiam.
Bela Flor. “Falta de tudo ali”

A vida no bairro lisboeta da Bela Flor, vizinho de alguns dos principais acessos à capital, está longe de poder ser comparada à de grandes cidades europeias. É antes o retrato de um sítio onde tudo falta.

Alguns moradores, ainda com a ideia feita de que "Lisboa é Lisboa, e o resto é paisagem!", não hesitam em dizer que vivem num bairro que se assemelha às "províncias lá para o Norte", lamentando o "buraco" onde estão.

Com vista para o Aqueduto das Águas Livres e numa das ruas largas do bairro municipal, Maria Helena Vicente contabiliza os 50 anos como moradora da zona para lamentar, logo a seguir, a "falta de tudo ali", desde o supermercado ao autocarro.

"Está tudo para lá de Campolide. Tem de se ir a pé, ou esperar que venha o Porta-a-Porta (transporte operado pela junta de freguesia)", porque a paragem de autocarro mais perto pode "significar o sacrifício de 20 minutos a pé até ali ao 2 [carreira da Carris]".

Com excepção dos domingos, feriados e noites, a carrinha municipal passa a cada meia hora, mas os moradores reivindicam transportes como no resto da cidade, porque por ali só um café "ajuda" os moradores, como faz questão de frisar Maria Helena, referindo-se à venda de pão no local.

"Faz-nos lembrar as províncias lá para o Norte, que não têm nada. Mas lá ainda têm peixeiro que vai à porta e padeiros. Aqui não vem ninguém", lamenta a moradora, ao mesmo tempo que lembra como era antes: "seis mercearias, talho, leitaria e carvoeiro".

Muito se alterou depois da destruição das barracas do bairro, que deviam chegar a "quase 600" e que "há 14 anos quase existiam todas". "Era melhor que uma aldeia", garante Maria Helena.

"Tomara eu a minha casinha e a minha liberdade, não me chatear com a escada, nem com nada", diz a moradora, que "nunca desejou estar num andar" em Lisboa, onde chegou "aos 13 anos para servir".

Outra moradora, lamenta que tenham posto os moradores "numa cova antes do tempo" ou, como Alexandra Gonçalves, prefere dizer num "buraco".

Residente em Campolide há 42 anos, Alexandra Gonçalves volta a lembrar que a opção para chegar a vários serviços é "ir a pé".

"Não temos um multibanco, nem uma farmácia, acho que a gente merecia um bocadinho mais", diz a moradora, que olhando para cima, onde está a rua de Campolide, avança que deve ser preciso "meia hora ou um bocadinho mais para subir isto tudo".

O autocarro 2 já esteve mais perto, antes de "começar a haver o bairro, que é um buraco".

Ainda assim, Alexandra Gonçalves elogia o local: "É sossegadinho, o nosso bairro é lindo, não há problemas nenhuns, mas devia haver um autocarrozinho".

50 euros de passe para andar a pé
Adão Moura faz questão de mostrar o recibo do passe de transportes e repetir que apesar de pagar 50 euros tem de andar a pé.
O emprego num hipermercado da Amadora faz este morador do Bela Flor sair de casa pelas 5h00 e percorrer, a pé, uma "média de três quartos de hora" até Sete Rios para apanhar dali um comboio.

"Não há transportes nenhuns aqui, nem farmácias, nem multibanco", enumera Adão Moura, que garante não ter recebido resposta a um abaixo-assinado para pedir, pelo menos, um autocarro.

Um "gueto social" e um "gueto de localização" são outras das expressões para designar o bairro, desta vez pelo sociólogo Orlando Garcia, um dos responsáveis por um projecto cívico no local.

O responsável recorda, por outro lado, a dificuldade que houve em levar moradores do bairro ao Jardim da Estrela para participarem numa actividade do projecto Denominadores Comuns, provando que para fazer pontes "são precisos transportes".

Em tom mais ou menos de brincadeira, o sociólogo avança uma solução ideal: "tuk-tuk" não poluentes.