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Um ano, dois Papas, centenas de "tweets"

12 dez, 2013 • Matilde Torres Pereira

A conta do Twitter do Papa foi inaugurada há um ano. Desde reflexões sobre a santidade a apelos de solidariedade, Bento XVI e depois Francisco pronunciaram-se em múltiplas ocasiões suportados em menos de 140 caracteres.

Um ano, dois Papas, centenas de "tweets"

"Queridos amigos, é com alegria que entro em contacto convosco via Twitter. Obrigado pela resposta generosa. De coração vos abençoo a todos." A 12 de Dezembro de 2012, o então Papa Bento XVI inaugurou assim a sua conta no Twitter, com a assinatura @Pontifex. Hoje, já depois da eleição do Papa Francisco, que utiliza a mesma assinatura, a conta abrange nove línguas e ultrapassa os 11 milhões de seguidores.

"Quando o Papa Bento XVI lançou o primeiro 'tweet', estava plenamente consciente da sua importância naquele momento", conta o presidente do conselho pontifício para as comunicações sociais, D. Claudio Maria Celli, em declarações prestadas esta quinta-feira à Radio Vaticano. "Naquela ocasião, disse-lhe: 'Santidade, enquanto lançava as suas primeiras palavras no Twitter, eu pensei na primeira vez que o seu predecessor, Pio XI, exprimiu uma mensagem através da Rádio Vaticano'. O Papa olhou para mim sorrindo e disse 'sabe que eu também pensei o mesmo?'." 

Francisco inaugurou o seu pontificado virtual com a mesma mensagem que levou à varanda da Basílica de São Pedro no dia da sua eleição: "Queridos amigos, de coração vos agradeço e peço para continuardes a rezar por mim". Centenas de "tweets" depois, o director do gabinete de imprensa do Opus Dei, Pedro Gil, olha para o fenómeno e observa que "um Papa assim é a sorte grande". "Hoje em dia fala-se muito e diz-se pouco. Os 'tweets' do Papa, precisamente, falam pouco e dizem muito", diz Pedro Gil.

"O Papa tanto fala de coisas corriqueiras como de coisas mais extraordinárias, como quando ele diz que a santidade não significa fazer coisas extraordinárias, mas fazer as coisas ordinárias com amor e fé, ou quando ele faz aquele apelo 'todos somos chamados à amizade com Jesus'", aponta Pedro Gil. "Também tem uma visão muito actual. Quando foi o furacão nas Filipinas, disse 'sede generosos na oração e na ajuda concreta'. Estamos num mundo cheio de palavras banais. Ora, os 'tweets' do Papa são frescos, são alegres, e para as pessoas funcionam como uma espécie de oásis onde se pode descansar muito bem."

O universo que existe agora
O Twitter, onde apenas se podem escrever 140 caracteres de uma vez, é um veículo apropriado para enviar mensagens relevantes a crentes e não só? Luís Santos, professor de comunicação da Universidade do Minho, acredita que sim. "É uma rede social diferente de outras porque tem uma limitação formal que faz com que tenhamos de transformar o conteúdo que lá pomos em algo especial", afirma.

"E não gostaria de olhar para a conta do Papa Francisco como se olha para a conta de um artista de cinema, de um músico, que às vezes lá põe uma fotografia do que está a comer num restaurante em Los Angeles. Presumo que não tenha sido essa a intenção da Santa Sé quando abre esta conta", sublinha Luís Santos.

Para o professor da Universidade do Minho, o sucesso da conta @Pontifex prende-se também no interesse que o próprio Papa tem gerado nas pessoas. "Não tenho ideia do aumento de seguidores nos últimos meses, mas o facto de o Papa ter sido considerado a figura do ano pela revista 'Time', de estar muito presente no noticiário por actos inusitados para aquilo que seria o padrão de comportamento de um Papa, tudo isso aumenta o interesse das pessoas na conta do Twitter", considera Luís Santos.

Quanto à validade do Twitter como ferramenta de evangelização, o professor da Universidade do Minho toma emprestadas as palavras de um outro especialista na comunicação, o padre Antonio Spadaro, o primeiro a fazer uma longa entrevista a Francisco. "A leitura do padre Spadaro é mais global: se este é o universo que existe agora, se estas ferramentas fazem parte da vida das pessoas, não faria sentido nenhum a Igreja estar longe delas."

Na opinião de Pedro Gil, o papel da Igreja continua a ser principalmente o da proximidade física. "O Papa é um entusiasta das redes sociais e conhece a força das comunicações breves. Ainda assim, acho que ele está convencido de que qualquer tecnologia é apenas um aperitivo. O prato principal só vem depois, que é o encontro olhos nos olhos e, com o coração nas mãos, estar a ouvir presencialmente, seja com Deus, seja com os outros."