Tudo o que a água pode levar. Saiba quais as zonas com maior risco em Lisboa

05 mai, 2014 • José Pedro Frazão e João Santos Duarte

Lojas, restaurantes e o átrio do Coliseu dos Recreios são algumas das zonas em maior risco de inundação. Um estudo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa revela em pormenor o impacto da chuva muito intensa em Lisboa, Porto, Gaia, Coimbra e Algés.
Tudo o que a água pode levar. Saiba quais as zonas com maior risco em Lisboa
Tudo o que a água pode levar. Saiba quais as zonas com maior risco em Lisboa
Há novos estudos sobre os danos de grandes inundações em Lisboa. Mas a capital está preparada para responder a estas calamidades? Saiba mais na reportagem multimédia "Um próximo dilúvio", para ver segunda-feira, em rr.sapo.pt.
A Renascença avança esta segunda-feira, em primeira mão, a avaliação dos riscos e dos danos provocados por inundações feita pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A Avenida da Liberdade e ruas adjacentes é a zona de maior risco da capital. Para ver na reportagem multimédia “Um próximo dilúvio”.

O estudo da Faculdade de Ciências, encomendado pelo sector segurador, analisou também a cidades de Porto, Gaia, Coimbra e Algés e identifica a possibilidade de danos médios de 10% no interior de lojas e habitações ao nível da rua nas zonas mais críticas daquelas cidades.

Em Lisboa, são 285 edifícios em risco, sobretudo, recheios de lojas ou habitações ao nível do rés-do-chão. Algumas lojas de luxo da Avenida da Liberdade grande risco e podem ser atingidas com frequência, como já acontece em situações de chuva torrencial.

É o caso do quarteirão situado entre os cruzamentos com a Rua das Pretas e com o Largo da Anunciada. O Teatro Tivoli e o centro comercial anexo estão numa zona de risco de inundação.

Mas a zona mais crítica é a Rua das Portas de Santo Antão, onde as águas podem atingir rapidamente um metro de altura, devido à incapacidade da rede de drenagem e ao transporte da água que vem de zonas mais elevadas.

Pouco ou nada parece escapar. Lojas, restaurantes, até os átrios do Coliseu dos Recreios e da Sociedade de Geografia. Depois de alguns danos, o Teatro Nacional D. Maria II já incorporou o risco de inundações no seu plano de emergência. Em todos estes locais usam-se comportas de ferro para travar a entrada de água nos pisos térreos.

Com risco ligeiramente menor, encontram-se a Avenida Almirante Reis e, sobretudo, a Baixa, onde as águas têm terreno mais largo para escoamento.

Os cenários climáticos não mostram especial agravamento dos danos em todas estas zonas, já que não é claro que a frequência de eventos extremos aumente de forma continuada até ao final do século na capital.

Algés, caso bicudo
De todas as áreas estudadas, a baixa de Algés é a que está em maior risco de dano. Tem 242 edifícios expostos a inundações. As cheias são frequentes numa zona construída no leito de uma ribeira que desagua no Tejo.

Com excepção das próprias estruturas dos edifícios, o dano médio potencial por ano é de cerca de 10% no interior das caves e rés-do-chão. Há escritórios e estabelecimentos de comércio que podem vir a ter um dano acima de 20% no seu recheio.

Os cenários climáticos apontam para um aumento do risco até 2069 num modelo de aumento de frequência das precipitações de curto e médio prazo. Mas, devido à ribeira sobre a qual está construída e ao efeito das marés cheias do Tejo, Algés sofre danos consideráveis mesmo com precipitações relativamente baixas.

Coimbra, nem o estádio novo escapa
O estudo de Coimbra exclui os impactos do galgamento das margens do Mondego. A avaliação de cheias ou inundações urbanas aponta para mais de 580 edifícios expostos a inundação em duas áreas.

A baixa da cidade, que inclui aqui a Avenida Sá da Bandeira, com um dano médio anual de 6%. E outra zona, onde há mais casos graves, corresponde às imediações do Estádio Cidade de Coimbra e Vale das Flores. Aqui o sistema de drenagem de águas pluviais segue numa zona de linhas de água já existentes.

O estádio Cidade de Coimbra por exemplo apresenta um dano de 2% numa zona em que a média é de 10% ao ano. Os modelos climáticos apontam para uma diminuição de eventos extremos em Coimbra nas próximas década e um agravamento nos últimos 30 anos deste século.

Porto e Gaia unidos nos danos
O caso de Porto e Gaia é diferente de todos os outros. Os investigadores consideram que a avaliação deve basear-se nas cheias provocadas pelo Douro e não por precipitação elevada. É um facto que permite sublinhar o controlo que é feito na libertação de caudais pelas várias barragens a montante. Ainda assim , há dano numa área que congrega mais de 1000 edificios expostos a este risco. Na margem do Porto, as zonas da Alfândega e Ribeira são as que apresentam maior risco. Gaia está mais exposta, nomeadamente em toda a frente ribeirinha. Os maiores impactos estabelecem-se ao nivel dos edificios residenciais que podem chegar aos 10% nas caves, se considerarmos ambas as margens do Douro.

Problema que vem de longe
As cheias mataram 968 pessoas em Portugal entre 1900 e 2010, número que sobe para 1.202 vítimas mortais se incluirmos os deslizamentos de terras. Os números são do projecto DISASTER, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, que analisou as noticias de mais de 145 mil exemplares de 16 jornais nacionais desde 1865.

Se alargarmos a análise a 150 anos, chegamos à conclusão que estes fenómenos causaram 1.310 mortos e 41.484 desalojados. Os números são muito inflacionados pelas cheias de 1967 na Grande Lisboa – a segunda maior catástrofe natural portuguesa depois do terramoto de 1755 – que fizeram entre 495 (número “oficial”) a 700 mortos (estimativa mais provável).

Na década 2000-2010, há registo de 145 cheias que fizeram 75 mortos.

Estudo pioneiro
Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa desenvolveu pela primeira vez em Portugal uma série de cartas de inundações e de risco em cenários de alterações climáticas.

O projecto CIRAC, como foi designado, sob encomenda da Associação Portuguesa de Seguradores, analisou os índices de vulnerabilidade de várias regiões do país e detalhou os danos médios anuais causados por inundações em diversos cenários.

Os gráficos e mapas produzidos foram comentados por investigadores do CIRAC para a reportagem multimédia "Um próximo dilúvio". Um trabalho de José Pedro Frazão e João Santos Duarte, com edição de Edgar Sousa e grafismo de Rodrigo Machado.