Opinião de Luís António Santos
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​Os Panamás de todos nós

07 abr, 2016 • Opinião de Luís António Santos


O Panamá é só um sintoma. O que precisa de ser mudado é muito mais vasto e está há muito diagnosticado.

As revelações vindas a público esta semana – e que levaram já à demissão de um chefe de governo num país europeu – sobre as operações financeiras envolvendo o Panamá não podem, com franqueza, surpreender nenhum político em nenhum governo ou Parlamento deste planeta. E não podem surpreender nenhum funcionário bancário. E não podem surpreender nenhum advogado. E não podem surpreender nenhum jornalista. Todos sabem. Todos sabemos. O Panamá não é um erro, um problema, uma irregularidade. Pelo contrário, o Panamá é a norma. Aquele pequeno Estado e todos os outros paraísos fiscais (curiosa esta ligação semântica que todos fazemos, quase sem dar conta disso, entre um espaço de iniquidade e algo de bom, de incrivelmente bom) foram ‘inventados’ pelas grandes instituições financeiras do planeta (em estreita colaboração com políticos, legisladores, reguladores e entidades transnacionais) precisamente para fazer o que agora se percebe que fazem. E tudo está bem, porque tudo é legal.

Importa, por isso, não ligar muita atenção ao rasgar de vestes que alguns políticos, responsáveis por actuais ou anteriores governações, possam agora fazer na nossa frente, em ecrãs de televisão, quando se pronunciam sobre o caso. E importa não deixar que nos tentem convencer de que tudo funciona com deve ser, à excepção destes malandrecos do Panamá. E importa ainda que não lhes seja permitido aproveitar a embalagem para nos dizer que é preciso criar umas comissões ou discutir uns planos de acção, ou ajustar umas regras de funcionamento.

O Panamá é só um sintoma. O que precisa de ser mudado é muito mais vasto e está há muito diagnosticado (o último político português a tentar fazer aprovar legislação contra este tipo de situações foi praticamente repudiado não apenas pelos partidos da oposição mas até pelo seu próprio).

Precisamos de políticos que assumam, sem adoçante, um passivo tenebroso e provem o seu empenho em mudar rapidamente o muito que pode ser mudado rapidamente. E precisamos de um jornalismo célere e persistente no trabalho de revelação das inúmeras ligações do nosso sistema financeiro e a estes enormes sacos azuis.

Até agora, os ‘parceiros’ nacionais na investigação ainda só traduziram o que os outros publicaram a ainda só nos mostraram um tal Sr. Idalécio. Mas, até porque falamos do Panamá, deve ser apropriado dizer que ‘chapéus assim...há-de haver muitos...’.


Comentários
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  • Bento Fidalgo
    07 abr, 2016 Agualva 12:14
    Pois. Mas é tempo de acabar com as lamentações e passarmos à tentativa de soluções. Como isto nada tem de político mas, de honestidade, rigor e transparência, das leis, ou de quem as faz , quem as vota e quem as promulga, o povo só tem uma arma, O Voto. Portanto, ninguém vota enquanto não forem feitas leis anticorrupção, votadas por todos os partidos honestos, que contemplem o enriquecimento ilícito, a eliminação dos sigilos bancário e fiscal e, Quem Não Deve Não Teme.
  • Ricardo Pereira
    07 abr, 2016 França 12:09
    E esta agência de advogados (trafulhas) é apenas a 4ª em dimensão mundial. Imaginem as outras três. Ou seja isto é apenas a ponta do icebergue. Antigamente dizia-se que era meio-mundo a enganar o outro meio, agora sincermante não sei como andará essa percentagem.
  • Fred
    07 abr, 2016 Lx 11:40
    Só quem anda a dormir fica espantado com isto. Só tenho a dizer que a Microsoft, Google e Amazon (3 de um número imenso) pagam entre 1 e 7% de impostos pois as sedes fiscais sao na Holanda, Suica, Luxemburgo, Inglaterra, etc. Apenas estas 3 empresas, se pagassem o que deviam, dava para reconstruir o planeta.
  • passado adiado
    07 abr, 2016 lisboa 10:16
    quanto a este tema tenho um pequeno comentário: segundo parece houve uma "denúncia" anónima entregue aos jornalistas! a minha questão começa aqui mesmo, não no tema. quem faz a denúncia (dum tema tão "corriqueiro" e sabendo nós que até na Madeira existem "ófi-shóris") sim quem faz a denúncia? com que propósito? qual o objectivo? qual o efeito que espera alcançar? sempre que alguma "situação bombástica rebenta num canto do mundo" nunca ninguém coloca estas questões . . .
  • António Costa
    07 abr, 2016 Cacém 07:48
    Os "offshores" existem à dezenas de anos com total impunidade. Nunca se fez lei nenhuma contra. A empresa "visada" é a quarta mundial "especialista" nestes assuntos. Nem sequer é a mais importante! A "lavagem de dinheiro" é um meio de "fugir e esconder lucros". Um meio usado nas "democracias" para não pagar aquilo que se "deve". Nas ditaduras quem é "lavado" são os opositores ao regime, que acabam com uma bala na nuca, no fundo de algum rio. Nas ditaduras os únicos benificiários dos impostos são os ditadores, que usam os "offshores" para negociatas com "personalidades" do mundo "democrático".