Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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Os média e a catástrofe

23 mar, 2016 • Opinião de Luís António Santos


Nós, nos inúmeros acessos ao universo da Comunicação que temos hoje na ponta dos dedos, deveríamos ser também prudentes na republicação de mensagens e informações cuja origem desconhecemos.

É em momentos como os que se vivem por estes dias que mais sentimos falta de informação exata e com enquadramento relevante. Mas é também em momentos como estes que nos apercebemos de algumas fragilidades crónicas do sistema mediático. Não sendo, na maioria dos casos, deliberadas, aumentam os níveis de ‘ruído’ e não ajudam a entender o complexo.

A primeira área de preocupação é a simples revelação de factos. Sobretudo com empresas de média como as que temos em Portugal - em situação financeira má e com muito menos jornalistas ao serviço do que seria necessário - a ocorrência de erros nas primeiras horas de cobertura de eventos como os atentados de ontem em Bruxelas é quase uma certeza (numa das televisões vimos, por exemplo, de forma repetida, imagens de videovigilância do interior do aeroporto que, afinal, eram de uma outra situação, num outro aeroporto, ocorrida há algum tempo).

Como lidar com isto? De formas diversas, naturalmente, assumindo cada um de nós papéis e responsabilidades diferentes. Os média deveriam sempre confiar mais em informações recolhidas no local junto de fontes credíveis não anónimas e deveriam fazer um esforço para verificar a consistência de factos novos antes de os divulgar.

Nós, nos inúmeros acessos ao universo da Comunicação que temos hoje na ponta dos dedos, deveríamos ser também prudentes na republicação de mensagens e informações cuja origem desconhecemos (porque um gesto nosso engrossa uma tendência que pode, por sua vez, inquinar ainda mais a informação que chega aos jornalistas).

Uma segunda área sensível é a do comentário. Nem sempre, em situações inesperadas, os média conseguem aceder aos especialistas que querem e nem sempre, sobretudo na atual conjuntura concorrencial em que todos parecem sentir a necessidade de ‘estar em direto’ durante horas, os especialistas são suficientes para tanto tempo. Corre-se, portanto, um risco acrescido de aparecimento de opiniões pouco enquadradas, cheias de generalizações (algumas - percebeu-se ontem - bem perigosas até) e, na essência, distantes de uma avaliação serena de algo que é sempre muito pouco claro.

Por último, uma terceira área de risco é a da linguagem adoptada. E o risco, uma vez mais, está presente no discurso informativo, no comentário e até nas nossas próprias ações. Por exemplo, inevitavelmente, eventos como os de ontem (ou como os de Paris, em novembro passado) parecem ter sempre um ‘cérebro’, um ‘cabecilha’, um ‘orquestrador’.

Sem qualquer facto de suporte, decidimos, todos em conjunto (nós também, a cada vez que repetimos estes disparates), que a ocorrência é uma espécie de filme do 007, com um supervilão, todo-poderoso, responsável supremo. Talvez seja mais simples (se prendermos o tal ‘cérebro’ já podemos voltar às nossas vidinhas) mas não é, de certeza, o mais próximo da realidade.

O que chamamos aos atacantes, o que chamamos à sua ação, o que chamamos à operação policial (é quase sempre uma ‘caça-ao-homem’), dizem, às vezes, muito mais sobre o nosso desconhecimento e medo do que sobre a vontade de perceber o problema que temos em mãos.

Os média erram em situações de catástrofe. Erram com frequência. Compete-nos, por uma questão de cidadania, entender esses erros, mas também contribuir ativamente para que eles sejam cada vez menos.

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