Opinião de Manuel Pinto
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Entre apocalíticos e integrados

29 fev, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


É interessante constatar, a este propósito, que Eco foi criticado, nos anos finais da sua vida, pelo seu azedume acerca de alguns desenvolvimentos proporcionados pela Internet e pelas redes sociais.

Umberto Eco foi, como sabemos, um inteletual multifacetado, de cuja autoria nos ficaram obras marcantes. Foi igualmente um cidadão atento e interveniente no mundo em que viveu, em especial no que respeita às indústrias culturais e aos meios de comunicação. A sua ‘obra aberta’ a uma multiplicidade de sentidos - equilibrada, digamos assim, com as reflexões acerca dos ‘limites da interpretação’ - constitui, ainda hoje, um convite dirigido a cada um para que assuma e reconheça que a construção de sentido não depende apenas das mensagens que nos chegam, mas de tudo aquilo que carregamos connosco no encontro com essas mensagens.

Continuamos a defrontar-nos com o desafio de buscar um caminho entre os ‘apocalíticos’ que vaticinam a ruína cultural e moral e os ‘integrados’ e mais ou menos encantados com a dose diária de distracção que as indústrias culturais e mediáticas debitam. Tal busca pode parecer mais facilitada pela parafernália de possibilidades tecnológicas cada vez mais disponíveis (ainda que de forma desigual). Não é, porém, seguro, que estejamos a progredir nessa capacidade de busca, tal a vozearia e a dificuldade de triagem.

É interessante constatar, a este propósito, que Eco foi criticado, nos anos finais da sua vida, pelo seu azedume acerca de alguns desenvolvimentos proporcionados pela Internet e pelas redes sociais. Foi muito citada a declaração que fez em meados de 2015, num discurso na Universidade de Turim:

“Os media sociais dão o direito de palavra a multidões de imbecis que, antes, apenas falavam no bar, depois de beberem um copo de vinho. Não prejudicavam a comunidade e depois calavam-se. Agora, têm o mesmo direito a falar que o vencedor de um Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas”.

Perpassa aqui alguma sobranceria e nostalgia, próximas daqueles discursos antidemocráticos dos que se opuseram, em fases sucessivas, ao voto dos pobres, dos jovens ou das mulheres. Mas quem criticou Umberto Eco evitou citar a declaração completa, desvalorizando o facto de ele ter também referido aspetos positivos das redes sociais e sublinhado que "o grande problema da escola de hoje consiste em ensinar as crianças a filtrar as informações da Internet”. E acrescentou, naquele ambiente universitário e docente: “Os próprios professores são uns neófitos diante desta ferramenta". Dito de outro modo: não chega maldizer a escuridão; é necessário acender uma luz.

Comentários
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  • António Costa
    29 fev, 2016 Cacém 11:02
    Gostei do seu artigo. Somos todos seres humanos. Só que, às vezes os "Prémios Nobel", "sem padrinhos" e sem dinheiro acabavam mesmo no "bar" do bairro.....Recentemente, um matemático russo resolveu um problema matemático com 100 anos cujo prémio era "só" de um milhão de dólares. Este matemático russo chamado Grigori Perelman que demonstrou a "Conjetura de Poincaré" ( o problema matemático ), recusou tudo. O ter resolvido o problema foi suficiente para ele. E Recusou o "Prémio Nobel" da Matemática, a "Medalha Fields".....e isto apesar de viver de forma bastante modesta.