Mais de metade dos jovens não chega à universidade
07-01-2019 - 10:23
 • Renascença com Lusa

Em Portugal, “as famílias representam mais de um quarto do financiamento do ensino superior”, quando na União Europeia representam 15%, diz Cláudia Sarrico, que passou pela Manhã da Renascença antes de ir para Convenção do Ensino Superior, que começa nesta segunda-feira.

Em Portugal, mais de metade dos jovens fica todos os anos fora da universidade, entrando no mercado de trabalho depois de concluírem o ensino secundário. É o dobro da média europeia.

Dentro do grupo de portugueses com idade entre os 25 e os 64 anos, apenas 6% têm uma licenciatura. Os dados são apresentados esta segunda-feira na Convenção do Ensino Superior – uma iniciativa do Conselho de Reitores que tem como principal objetivo pensar o futuro do ensino superior.

A qualificação dos portugueses é o primeiro tema em debate. Na opinião Cláudia Sarrico, analista de Políticas Públicas de Ensino Superior da OCDE, é preciso “uma maior diversificação da oferta” para atrair mais alunos.

“Seria preciso ter oferta, por exemplo, a tempo parcial, com novos currículos para estudantes mais velhos. Também já se está a caminhar para os cursos curtos, de dois anos”, aponta.

“Portugal também tem expandido essa oferta, mas ainda está aquém de outros países onde essa oferta tem mais expressão no ensino superior”, acrescenta, lembrando o que “aconteceu no secundário, em que diversificámos a oferta do ensino regular para o ensino profissional”.

Convidada na Manhã da Renascença, esta oradora da Convenção do Ensino Superior considera que também é importante apostar mais nas ajudas ao financiamento.

As propinas podem não ser o maior entrave no acesso ao ensino superior, mas as famílias portuguesas ainda têm encargos acima da média.

"De facto, as famílias representam mais de um quarto do financiamento do ensino superior em Portugal, o que é mais do que a média da OCDE, de 22%, e seguramente mais do que a média da União Europeia, de 15%. Portanto, é possível que haja pessoas que gostariam de estudar e não o farão por causa desse encargo”, reconhece Cláudia Sarrico.

Noutros países, avança, “há propinas e propinas igualmente elevadas, mas há mecanismos de apoio, seja através de bolsas para estudantes menos favorecidos, seja cada vez mais através de empréstimos, contingentes ou rendimentos. Ou seja, empréstimos que o estudante pagará uma vez diplomado, se e quando atingir determinado nível de rendimento”.


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Em 2017, no programa da Renascença Da Capa à Contracapa (uma parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos) o vice-reitor da Universidade de Lisboa, António Feijó, o professor da Faculdade de Letras, Miguel Tamen, e o antigo secretário de Estado do Ensino, João Queiró, debateram a educação universitária.



Uma agenda para a década

A convenção que começa esta segunda-feira no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa quer debater o futuro do ensino superior em Portugal e reúne, para tal, representantes de instituições de ensino, académicos, alunos e decisores políticos.

A iniciativa vai decorrer ao longo do ano e em 2020. O objetivo é, segundo a reitora do ISCTE e ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, “colocar a política do ensino superior na agenda do debate público”.

Mas não só. Os reitores têm pouco tempo para refletir, defende o presidente do CRUP e reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, António Fontainhas Fernandes.

“Portugal precisa de ter uma agenda para a próxima década, não podemos pensar a curto prazo. Os reitores muitas vezes não têm tempo para pensar. Estamos sempre a ser solicitados com novas arquiteturas legislativas e estamos sempre em permanente resposta. Penso que é importante refletir”, defende.

O CRUP (Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas), que organiza a iniciativa, quer que da primeira sessão da convenção – e das que se lhe seguirem –saia uma "agenda para a década, que dê ao ensino superior uma ideia delineada de futuro".

Nesta segunda-feira, estarão em análise temas como o acesso ao ensino superior; o financiamento; as condições de vida dos estudantes, desde o alojamento à ação social escolar, a comparação com os restantes países europeus e a inovação no ensino, como pistas tentar explicar a razão de em Portugal mais de 60% dos jovens não prosseguirem estudos superiores.

No total, a convenção terá seis sessões, algumas ainda em 2019, antes das eleições legislativas, duas delas a decorrer nas universidades de Aveiro e do Porto.

Ministros também vão participar

Cada um dos painéis de discussão vai contar com um reitor – no papel de moderador, não de interveniente – e com um membro do Governo, ao qual caberá um comentário sobre os temas em debate por académicos e peritos, deputados, representantes sindicais, estudantes e outras individualidades.

Na sessão de abertura, participará o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor e como "comentadores finais" dos temas em discussão em cada um dos painéis estarão o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, o secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, a secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro, Mariana Vieira da Silva, e o secretário de Estado do Orçamento, João Leão.

Ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, caberá fazer o encerramento da primeira sessão da Convenção Nacional do Ensino Superior 20/30.