Cristãos, refugiados, imigrantes e rivais. Este é o dérbi mais improvável do mundo Cristãos, refugiados, imigrantes e rivais. Este é o dérbi mais improvável do mundo

Cristãos, refugiados, imigrantes e rivais Este é o dérbi mais improvável do mundo Cristãos, refugiados, imigrantes e rivais. Este é o dérbi mais improvável do mundo

 

Conhecida como a Jerusalém sueca, Södertälje tem a maior concentração de cristãos do Médio Oriente no mundo ocidental. O Cristianismo une-os, mas muita outra coisa os separa, incluindo o futebol.

Filipe d’Avillez, na Suécia
 
 

Nem são 17h, mas a noite já caiu e o frio está difícil de aguentar. O meu interlocutor, um cristão sírio, está com ar pesaroso. Pergunto-lhe como é que tem sido este último ano. “Escuro, muito escuro. Preto mesmo”, responde. A desolação na voz é tal que nem convida a explorar mais a questão.

Os cristãos do Médio Oriente têm muito com que se preocupar: guerra civil na Síria, instabilidade no Iraque e no Curdistão, perspetivas económicas cada vez mais reduzidas nas suas terras ancestrais. Mas não é a nada disso que se refere este jovem. O que o deprime é o futebol.

O seu clube, o Assyriska, está a minutos de mais uma derrota. São 22 jogos seguidos sem vencer e a descida à quarta divisão está consumada. É um golpe duro para esta equipa que esteve vários anos no principal escalão e que até chegou a uma final da taça.

O Assyriska considera-se o representante da comunidade cristã oriunda de uma região que abrange parte da Síria, da Turquia e do Iraque. Na bancada oposta, em festa, estão os adeptos do Syrianska, um clube que se considera representante da comunidade cristã oriunda de uma região que abrange parte da Síria, da Turquia e do Iraque e que com esta vitória garante o acesso ao play-off de subida à segunda divisão.

Confuso? Ainda nem começámos. Os clubes são da mesma cidade, Södertälje, que fica a cerca de 30 quilómetros de Estocolmo, capital da Suécia.

Por dentro do dérbi de Södertälje
 

Nacionalidade? Cristão

 
 

“Os primeiros siríacos a chegar a Södertälje vieram do Líbano, mas originalmente tinham fugido da Turquia. Entre 1967 e 1968 a Cruz Vermelha financiou voos completos para Estocolmo, onde precisavam de mão-de-obra”, explica Metin Rhawi, um destacado membro da comunidade, enquanto saboreamos uma refeição tradicional siríaca na cantina da Suroyo TV, um canal que transmite por satélite em siríaco, a língua mais próxima da que era falada por Jesus.

Hoje são cerca de 35 mil os membros desta comunidade, mais de um terço da população da cidade. A esmagadora maioria pertence à Igreja Siríaca Ortodoxa, mas há também siríacos católicos e membros da Igreja Caldeia Católica. São conhecidos como siríacos, assírios ou caldeus, mas reconhecem que são um só povo, descendente do Império Assírio, uma das primeiras grandes civilizações do mundo, que dominou todo o Médio Oriente nos tempos bíblicos.

Uma grande parte dos siríacos tem raízes no sudeste da Turquia, mas ao longo do último século quase todos fugiram. “Foi genocídio após genocídio. As pessoas referem-se normalmente ao genocídio de 1915, mas houve outro, 20 anos antes, em 1895. Ao todo já houve cerca de 70 massacres e genocídios contra o nosso povo”, garante Metin. O mais recente, às mãos do autoproclamado Estado Islâmico, está fresco na memória e motivou nova onda de refugiados para Södertälje.

“Se me perguntar se eu sou da Turquia, respondo que sim. Nasci lá. Mas não sou turco. Andei muitas vezes à pancada nos meus primeiros anos na Suécia, quando me chamavam ‘turco de merda’ na escola”, diz Metin.

Yildiz Demirel, chefe de redação da Suroyo TV, confirma. “Chorava todos os dias quando me chamavam turca. Éramos povos diferentes, nós cristãos, eles muçulmanos. Culturalmente, linguisticamente, não temos nada em comum salvo o facto de termos nascido dentro das mesmas fronteiras.”

Os que vieram mais diretamente do Iraque, da Síria e do Líbano não têm tanto ressentimento para com os países de origem, mas todos aqueles com quem a Renascença falou sublinham em primeiro lugar a sua identidade cristã.

 
Seja na bancada, seja na sede do Syrianska, a iconografia cristã está sempre presente
Seja na bancada, seja na sede do Syrianska, a iconografia cristã está sempre presente
 

Integração

 
 

A imigração e a questão dos refugiados estão na ordem do dia na Suécia, pelo grande influxo de refugiados vindos sobretudo do Médio Oriente e África nos últimos anos. O partido de extrema-direita Democratas Suecos subiu muito nas últimas eleições com um discurso eurocético e anti-imigrantes. Mas aquilo para que a Suécia acorda agora já é realidade há anos em Södertälje.

“Recebemos uma média de mil refugiados, todos os anos, há 10 anos seguidos. Vêm cá representantes de outras cidades e de outros países para ver como são as coisas. Alguns jornalistas vêm para escrever sobre a terrível cidade de Södertälje, mas quando chegam veem outra coisa, que choca com os seus preconceitos”, diz Boal Godner, presidente da Câmara e membro do Partido Social Democrata, que é socialista.

A cidade já não se imagina sem a comunidade siríaca. “É um terço da nossa população. Acho fantástico e desafiante. Ter estes padrões exóticos do Médio Oriente como parte da nossa cidade é uma coisa mágica”, acrescenta.

A autarca tem apenas uma grande queixa. A lei permite aos imigrantes deslocarem-se livremente no país, em vez de os obrigar a fixarem-se num dado local até terem a sua situação regularizada. “O resultado é que os siríacos vêm todos para aqui, porque já existe uma comunidade, têm aqui as suas igrejas”, explica. Isso leva a sobrelotação, um mercado negro em termos de alojamento, a tentação da autossegregação e uma taxa de desemprego que é cerca de duas vezes superior à média nacional.

A União Europeia está a tentar ajudar neste campo. O programa MAP2020, financiado por Bruxelas, trabalha com cerca de 500 pessoas que procura inserir no mercado laboral. Dois terços são mulheres com mais de 40 anos, que nunca tiveram um emprego nem têm estudos; quase todas são da comunidade siríaca. “Torna muito difícil arranjar emprego, ainda que o mercado esteja bom”, explica Helén Bjornsdotter, que gere o programa.

E o mercado está bom. Está tão bom que outra agência da União Europeia, a EURES, dedica-se essencialmente a recrutar mão-de-obra de outros países europeus. “Procuramos muito enfermeiras, pessoal para a área da saúde, mas também engenheiros, cozinheiros e professores”, explica uma das responsáveis, Pia Nilssen, que diz que tem havido muito interesse de portugueses em emigrar para a Suécia.

 
Membros da comunidade convivem na sede do Assyriska
Membros da comunidade convivem na sede do Assyriska
 

É em Södertälje que encontramos a sede de duas das principais empresas da Suécia, a Scania e a AstraZeneca, respetivamente do ramo automóvel e farmacêutico, que juntas empregam dezenas de milhares de pessoas. “No ano passado faturámos 11 mil milhões de euros, mil milhões dos quais foram lucro. Empregamos 52 mil pessoas ao todo, cerca de 15 mil aqui em Södertälje”, explica Hans-Ake Danielsson, do departamento de comunicação da Scania.

“Empresas como a nossa têm beneficiado muito da União Europeia, não só no que diz respeito ao livre comércio de bens, mas também de mão-de-obra. Temos aqui pessoas de todos os países da Europa. A União Europeia tem sido boa para a economia sueca em geral.”

Tradicionalmente os siríacos que chegam a Södertälje optam por abrir restaurantes e salões de beleza, ou negócios semelhantes, mas alguns trabalham também na indústria. “O que vemos agora é que os da segunda ou terceira geração, que já foram à universidade, começam a trabalhar aqui como contabilistas ou engenheiros”, explica Danielsson.

A dificuldade em Södertälje não é, por isso, falta de oferta, mas sim a falta de qualificação, sobretudo das mulheres que compõem o programa MAP2020.

“Um dos nossos objetivos era diminuir a diferença entre homens e mulheres que completam o programa com sucesso. Temos tido bons resultados, cerca de 44% das mulheres no projeto conseguiram arranjar emprego”, aponta Helén, acrescentando que a principal dificuldade para muitos é o domínio da língua sueca.

No geral, reconhece, os siríacos estão bem integrados, mas há problemas. “Há um grupo que não está. Construíram a sua vida em torno do subsídio. Não é uma vida especialmente boa, mas para alguns chega. Muitos deles têm tudo o que precisam, têm a igreja e têm a família.”

Para Yildiz Demirel, contudo, o perigo é outro. “Seria difícil encontrar uma comunidade mais bem integrada do que nós, porque mais do que isto seria assimilação, perdíamos as nossas raízes e a nossa identidade”, refere a chefe de redação da Suroyo TV.

“É um risco para nós, porque não temos nada que nos una. Não há uma plataforma ou força política. A única plataforma comum que temos é a Igreja.”

 
A Suroyo TV é uma das vozes da comunidade siríaca. Transmite de Södertälje para todo o mundo
A Suroyo TV é uma das vozes da comunidade siríaca. Transmite de Södertälje para todo o mundo
 

Duas equipas, uma seleção

 
 

Assyriska e Syrianska são um instrumento para garantir esse equilíbrio entre integração e assimilação.

O primeiro a ser fundado foi o Assyriska, em 1974. Três anos mais tarde alguns dos fundadores do clube saíram e formaram o Syrianska. Agora existem dois clubes que alegam ser representantes de um povo sem pátria.

“Quando o clube começou, em 1974, a ideia era ter uma equipa que elevasse o nome do povo assírio. Não tanto por nós, que estamos na Europa, mas pelos outros, para sentirem orgulho, porque nos seus países não podem falar livremente, mas nós podemos. Queremos que eles percebam quem são, porque muitos não conhecem a sua história”, diz Delmon Haffo, dirigente do Assyriska.

Mattias Genc é uma lenda no futebol de Södertälje. Representou durante anos o Assyriska, mas recentemente mudou-se para o Syrianska. “É importante jogarmos pelas nossas equipas, porque nós não temos um país, portanto estas duas equipas são a nossa seleção.”

Esse facto significa que os clubes deste subúrbio de Estocolmo são seguidos a par e passo por milhares de pessoas que ainda vivem no sul da Turquia ou no nordeste da Síria, por exemplo, para não falar na diáspora siríaca no resto do mundo.

“Quando estávamos nas divisões superiores, se havia um jogo grande vinham autocarros da Alemanha e da Holanda”, destaca Christopher Yayo, um dos líderes dos Gefe Fans, a claque do Syrianska.

Metin Rhawi recorda os tempos em que o Assyriska estava na primeira divisão e a Suroyo TV transmitia os jogos. “Telefonavam-nos de Qamishli, na Síria, quando era golo e diziam: ‘Estão a ouvir os festejos?’ Ouvíamos carros a apitar e pessoas a berrar.”

Mas se o objetivo é representar o povo siríaco, ou assírio, então porquê dois clubes e não apenas um? “A maior parte dos adeptos provavelmente preferia ter apenas um clube, porque assim seríamos mais competitivos, seria mais económico e a longo prazo o clube teria melhores resultados. Não é impossível, dentro de 10 ou 15 anos talvez”, diz Isso Gursac, presidente do Syrianska.

Do lado do Assyriska, Delmon não tem tantas certezas. “Não sou contra a ideia, mas acho que não seria fácil. Somos dois clubes em dificuldade, e não é pelo facto de se juntarem dois problemas que temos um problema menor. Seja como for, estamos longe disso, mas não o excluo. Seria bom para a comunidade, mas por outro lado a concorrência faz bem.”

 
Um povo, dois clubes. Em dia de dérbi a bancada divide os adeptos do Syrianska e do Assyriska Um povo, dois clubes. Em dia de dérbi a bancada divide os adeptos do Syrianska e do Assyriska
Um povo, dois clubes. Em dia de dérbi a bancada divide os adeptos do Syrianska e do Assyriska
 

“Os mesmos skinheads, mas com roupas diferentes”

 
 

A Suécia recebeu muitos imigrantes e refugiados nos últimos anos, levando a um aumento do sentimento de intolerância para com os estrangeiros, com consequente subida da extrema-direita, o Democratas Suecos.

Curiosamente, porém, a ascensão nacional do partido não tem tido reflexo em Södertälje, o que parece indicar que a comunidade está de facto bem integrada.

Andreas Birgersson, membro do partido na cidade, sublinha que há ainda alguns problemas. “Muitas das pessoas que vieram para cá do Médio Oriente adaptaram-se e querem contribuir para a sociedade. Abrem negócios, arranjam empregos, são educados. E isso é bom, é precisamente isso que queremos.”

“Mas tem vindo tanta gente que isso torna difícil arranjar emprego depressa. Leva muito tempo. E isso leva a que algumas pessoas sejam segregadas, o que por sua vez é caminho aberto para a formação de gangues e grupos criminosos. Em Södertälje isso aconteceu, a polícia conseguiu prender muitos deles há cinco ou seis anos, mas agora estão a sair em liberdade outra vez e alguns problemas estão a voltar.”

 
Nacionalistas como Andreas Birgersson querem travar a imigração na Suécia. Delmon Haffo, hoje dirigente do Assyriska, já nasceu na Suécia
Nacionalistas como Andreas Birgersson querem travar a imigração na Suécia. Delmon Haffo, hoje dirigente do Assyriska, já nasceu na Suécia
 

Birgersson diz ainda que muitos dos cristãos siríacos de Södertälje partilham das preocupações do seu partido, nomeadamente quanto ao crescimento do fundamentalismo islâmico entre algumas comunidades. “Eles estão muito preocupados com isso, porque muitos deles fugiram precisamente de sociedades e países de maioria islâmica onde foram perseguidos por extremistas, e temem que isso venha a acontecer aqui também.”

O ativista siríaco Metin Rhawi confirma que há siríacos que se “deixam enganar” pela propaganda da extrema-direita. Ele não é um deles. “Os jovens não se lembram, mas os da minha geração sim. No meu tempo lutámos muitas vezes contra os skinheads. Se nos apanhassem sozinhos era perigoso. São os mesmos, só que agora vestem-se como nós.”

Já com os democratas cristãos, um partido histórico de direita, as relações são muito mais tranquilas. Para além de ter deputados siríacos, o partido tem sido dos principais defensores das causas dos cristãos do Médio Oriente nas instâncias políticas, tanto na Suécia como em Bruxelas.

David Winerdal é o líder dos democratas em Södertälje e não esconde a sua estima pela comunidade siríaca. “Muitos deles integraram-se na sociedade sueca e não é difícil imaginar o seu futuro na Suécia, porque já são um de nós.”

O mais complicado, reconhece, é a aceitação da importância que a religião tem para estes cristãos, num país que é dos mais secularizados da Europa. “A Igreja é importante para eles e os suecos têm dificuldade em compreender isso, perceber que eles têm as suas crenças e que seguem as instruções de uma hierarquia. Nós, políticos, vamos às igrejas e escutamos os padres, mas isso não é comum entre os políticos da Suécia. Eu sou cristão e vou à Igreja todos os domingos de qualquer maneira, mas muitos dos meus colegas só vão nessas ocasiões”, explica.

Nesse aspeto, Södertälje é uma cidade completamente atípica. A presidente da Câmara sublinha que “na Suécia, em geral, apenas 0,4% das pessoas vai à Igreja todos os domingos, mas aqui a média é de 8%. Não há outra cidade como esta no país.”

 
O peso da comunidade siríaca torna Södertälje a cidade com mais cristãos praticantes do país
O peso da comunidade siríaca torna Södertälje a cidade com mais cristãos praticantes do país
 

Jerusalém da Suécia

 
 

Não é por acaso que Södertälje é conhecida como a Jerusalém da Suécia. A variedade religiosa ao domingo é impressionante, sobretudo para um país escandinavo.

A esmagadora maioria dos cristãos são da Igreja Ortodoxa Siríaca, que tem duas catedrais na cidade, para além de várias igrejas. Há toda uma hierarquia local, incluindo pelo menos dois bispos.

A catedral de São Tiago está repleta quando a Renascença lá vai num domingo de manhã. Mulheres do lado esquerdo, homens do lado direito. Antes de entrar, os fiéis têm de passar por quatro homens musculados envergando blusões com a frase “In God We Trust” nas costas e uma cruz siríaca no braço, um reflexo da preocupação sentida pela comunidade face ao aumento do terrorismo islâmico na Europa nos últimos anos.

“As autoridades disseram que, em vez de trazer polícia regular, seria preferível ter aqui os nossos próprios jovens, que conhecem as pessoas, e assim se virem alguém suspeito podem fazer perguntas”, explica Zeki Bisso, que faz parte da direção da comunidade.

“A Igreja é muito importante, faz parte da nossa identidade, sempre desempenhou um papel muito importante entre a nossa comunidade. Embora seja um local de fé e religião, para nós é a pedra basilar da nossa nação”, explica.

A igreja onde nos encontramos é conhecida como a dos assírios, ou em sueco, assyriska. A outra catedral, servida por outro bispo, é conhecida como a dos siríacos, ou em sueco, syrianska. As alcunhas não têm diretamente a ver com futebol, mas refletem a mesma divisão social, duas visões diferentes da história da comunidade siríaca e do seu lugar no presente.

Embora sejam normalmente usados como sinónimos, uns preferem o termo assírios e outros siríacos. Os siríacos tendem a ser mais tradicionalistas, enfatizando a importância da igreja e da cultura, alfabeto e língua como parte da sua identidade. Já os assírios tendem a ser mais modernistas e desconfiados do monopólio dos clérigos na representação da comunidade. Mas a linha divisória não é clara e em muitos casos reflete simplesmente os conflitos e divisões sociais que já existiam nos países de origem, nomeadamente na Turquia.

É por isso que existem dois clubes e é por isso que nos anos 1990, quando as tensões estavam mais acesas, chegou a haver casos de violência, como a destruição da sede de um grupo cultural, o queimar de uma bandeira gigante do Assyriska e o espancamento de um jogador quando entrou no bar errado, usando um casaco do seu clube.

Conheça a variedade litúrgica da Jerusalém da Suécia

Mas estas divisões que consomem a comunidade ortodoxa passam totalmente ao lado dos outros cristãos de Södertälje, nomeadamente as pequenas comunidades de siríacos-católicos, que são da mesma tradição que a Igreja Siríaca Ortodoxa mas que estão em comunhão com Roma; dos caldeus, outra igreja católica de rito oriental; dos arménios ou coptas, que também têm uma pequena comunidade.

No final da celebração dominical da comunidade Siríaca Católica, nesse mesmo domingo, conversamos com Rayan Behnam, que pagou 13 mil euros a contrabandistas para fazer a viagem do Iraque até à Europa depois de extremistas terem atacado uma comitiva de autocarros que levava alunos cristãos de Mossul até à universidade.

Rayan não fala inglês, mas beneficia da tradução de Gabriela, que escapou de Alepo num helicóptero militar. Juntam-se à conversa o padre Paul Kass Dauod e Joseph Kastan, ambos da Síria. Pergunto se pensam voltar aos seus países de origem. “As pessoas falam muito, mas não é fácil decidirem-se a fazê-lo. Vivemos lá, nascemos lá, mas o pior é quando sentimos que já não estamos seguros lá. E ainda não é seguro”, refere o sacerdote.

Rayan concorda. Não lhe passa pela cabeça voltar e não descansa enquanto não trouxer a mãe, que está refugiada em Erbil, capital do Curdistão iraquiano. “Eu proibi a minha mãe de regressar a Mossul. O medo ainda domina as casas dos cristãos, as pessoas têm medo de viver uma vida normal, sobretudo as mulheres. Têm medo de ir às compras, podem ser violadas ou assaltadas.”

Joseph veio há mais tempo. Tem saudades, mas ri-se quando lhe pergunto se gostaria de voltar. “Se a Síria fosse mais como a Suécia, se fosse tão desenvolvida em termos de democracia e direitos humanos, talvez.”

Há uma clara diferença entre os que imigraram por razões económicas, como ele, e os que vieram por causa da guerra e da perseguição, como Rayan e Gabriela. “Por mais empatia que tentem ter, não sabem como foi porque não viveram aquilo”, diz a rapariga de 19 anos. “Mesmo os mais velhos lamentam a guerra e as mortes, mas nunca estiveram em perigo e por isso não conseguem compreender.”

Metin, que viaja frequentemente para o Médio Oriente devido ao seu ativismo a favor da comunidade cristã, diz que voltaria se um dia se criar um lugar seguro para os cristãos no Iraque ou na Síria. “Mas sozinho. Sei que a minha mulher e os meus filhos não iriam comigo. Pelo menos é o que dizem agora.”

 
Joseph e Gabriela, dois imigrantes da Síria, divididos pela idade e pelas circunstâncias da partida
Gabriela e Joseph, dois imigrantes da Síria, divididos pela idade e pelas circunstâncias da partida
 

Queridos inimigos

 
 

Uma hora antes do pontapé de saída chegamos ao estádio. Há mais polícias neste dia do que na maioria dos jogos da terceira divisão. É um dérbi, explicam, mas mostram que não esperam que haja violência. “Tivemos uns problemas no ano passado no jogo entre o Syrianska e o Dalkurd”, um clube da comunidade curda, explica um dos agentes, “mas hoje esperamos que corra tudo bem”.

Perto da entrada para uma das bancadas, os Gefe Fans, a claque do Syrianska, preparam as suas bandeiras e entram em hiperatividade, batendo em tambores e gritando quando me veem chegar. São na maioria jovens, “demasiado jovens”, queixa-se o líder Christopher Yayo, que está preocupado com a coreografia que o seu grupo preparou para este jogo.

Na bancada dos visitantes encontra-se uma mão cheia de membros dos Zelge, a claque do Assyriska. Estão taciturnos e apostados em estragar a festa do Syrianska. “Hoje eles são nossos inimigos. Amanhã podemos ser amigos outra vez, mas hoje queremos impedi-los de subir”, dizem-me.

Mal soa o apito inicial, os Gefe fazem descer um pano gigante debaixo do qual surgem vários adeptos encapuzados e com tochas. A polícia filma, mas não intervém. Os capuzes têm cruzes siríacas.

O Assyriska até começa melhor, dominando o jogo e falhando duas oportunidades claras, para desespero dos seus adeptos. Pouco depois, a situação piora quando o Syrianska marca o seu primeiro, mas a esperança volta com um golaço que dá o empate à equipa que hoje joga fora no seu próprio estádio.

Na segunda parte haverá mais dois golos do Syrianska, celebrados efusivamente pelos adeptos, com membros dos Gefe agarrados à rede que os separa do campo e a benzer-se repetidamente.

Com 3-1 no marcador, o Syrianska tem o play-off garantido e para o Assyriska é apenas mais uma derrota a somar às muitas desta época desastrosa. “Escuro, muito escuro.”

No final do jogo voltamos à sede dos Gefe e é com alguma surpresa que os encontramos alegremente a conviver com os mesmos membros dos Zelge que nos tinham jurado ódio ao Syrianska.

“Somos o mesmo povo. Somos irmãos e primos”, diz Christopher. “No ano passado, quando o Assyriska foi jogar contra o Dalkurd, fui com eles para dar apoio.” Aqui entre os ultras não encontramos ninguém que se oponha à reunificação do clube e até posam para uma fotografia conjunta.

 
Ao apito final acabam as hostilidades. Membros de ambas as claques juntam-se para a fotografia
Ao apito final acabam as hostilidades. Membros de ambas as claques juntam-se para a fotografia
 

Já depois da conversa com Zeki Bisso, Metin explicará que há uma década as direções das duas catedrais estavam de relações cortadas, mas que “hoje conversam todos os dias sobre como melhorar a situação da nossa comunidade”.

São sinais importantes de que as tremendas rivalidades internas da comunidade siríaca talvez sejam já mais do passado do que do presente. Se a perseguição movida pelo autoproclamado Estado Islâmico mostrou alguma coisa terá sido precisamente a necessidade de união de uma comunidade que corre o risco de ser extinta no Médio Oriente e de ser assimilada fora dele.

“É um sentimento terrível saber que o nosso povo está a ser massacrado no Médio Oriente, mas estes tempos tornaram-nos mais fortes, porque geraram unidade entre o povo. Deixámos de falar em termos de Assyriska e Syrianska, de discutir a que igreja vamos, tornámo-nos um, mostrámos a nossa força”, diz Delmon, o dirigente do Assyriska.

A luta pela sobrevivência das suas tradições, religião e língua é o que move os siríacos, no campo ou fora dele.

 
Cristãos, refugiados, imigrantes e rivais. Este é o dérbi mais improvável do mundo
 

Alguns dias depois de a Renascença ter voltado de Södertälje o Syrianska venceu em casa o seu jogo do play-off e empatou fora conseguindo assim regressar à segunda divisão sueca. O Assyriska está a procurar renovar a sua direção com o regresso da velha guarda, para tentar regressar às vitórias.

 

Fevereiro de 2019 – © Renascença

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