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Reportagem

Em Palaçoulo há um mosteiro onde se fala "amorês"

25 out, 2024 - 09:35 • Olímpia Mairos

Sonhado em 2016, o Mosteiro trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja, em Palaçoulo, Miranda do Douro, é fruto de um “verdadeiro sínodo” em que muitas pessoas e entidades colaboraram.

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“Sonhado certamente no coração de Deus”, diz o bispo de Bragança-Miranda, D. Nuno Almeida.

"O sonho foi-se concretizando através de mãos, de técnicos, de benfeitores e, sobretudo, através desta comunidade de monjas, que é uma comunidade maravilhosa, que ficará aqui e permanecerá aqui, nesta casa e, na nossa diocese sempre, para acolher quem quiser vir aqui a este lugar”, concretiza o prelado depois da inauguração ofical do espaço.

D. Nuno Almeida sublunha que não são necessárias “grandes formalidades, basta vir e, ao mesmo tempo, também abrir o coração à realidade bela, divina e, ao mesmo tempo, também muito humana que aqui se experimenta”.

O mosteiro está inaugurado e com ele abre-se uma nova etapa na vida das monjas da Ordem Cisterciense de Estrita Observância (Trapista). Uma vida de clausura, silêncio, oração e trabalho.

O prelado vê o mosteiro “como um grande dom de Deus” e um pólo de atração à região e, por isso, entende que cabe à diocese a responsabilidade de apoiar e acompanhar e, sobretudo, convidar “pessoas, em especial os mais jovens, as crianças e os jovens, a conhecerem, a virem, a poderem passar aqui um dia, uma tarde ou uns dias, a tomarem contato com esta comunidade e, sobretudo, com a alegria que irradia no olhar, nas palavras e nos gestos das irmãs desta comunidade de monjas”.

“Um mosteiro como este vai atrair pessoas do nosso país, pessoas de outros países, o que já está a acontecer. Eu sempre que vim aqui encontrei pessoas a falar outra língua, Mas há aqui uma língua comum, que não é só o mirandês, mas é o ‘amorês’, este ‘amorês’ que tem raízes em Deus e que, depois, se traduz em coisas muito concretas e palpáveis na vida também de trabalho, na vida de partilha, de comunidade”, aponta.

“São milhares de pessoas envolvidas neste sonho”

Com capacidade para 40 monjas, o Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja, o oitavo fundado em 50 anos pela Ordem Trapista de Vitorchiano, em Itália, contempla uma casa de acolhimento, uma hospedaria, segundo a regra de S. Bento, destinada aos visitantes e turistas, e que servirá como fonte de receitas.

“Da nossa parte, tocou-nos ser dóceis ao Espírito Santo e ajudar à concretização deste sonho, que tem muitas e muitas pessoas; são milhares de pessoas envolvidas neste sonho”, diz D. José Cordeiro.

O arcebispo metropolitano de Braga, enquanto bispo de Bragança-Miranda, foi o grande impulsionador da implantação do mosteiro em terras trasmontanas.

As monjas de Vitorchiano pretendiam uma presença efetiva em Portugal, por ocasião do primeiro centenário das aparições em Fátima, mas precisavam de um sinal, isto é, o convite de um bispo. E esse convite foi feito por D. José Cordeiro.

O sonho “aconteceu no Ano Santo da Misericórdia, em 2016. É um sinal que quer também significar que os sonhos acontecem, porque Deus sonha sempre em grande e quando há colaboradores no seu sonho, a luz acontece”, observa.

Mas para D. José o grande sinal e o sonho maior, para além da “construção e da feliz realização deste lugar num impacto tão harmonioso com a casa comum da criação, é o surgimento das novas vocações”.

“Neste momento já estão três jovens portuguesas na comunidade; já são 13 (…). Há em perspetiva a entrada de outras jovens portuguesas e é o maior dom da graça deste encontro com Cristo”, sublinha.

Quando se encontra a pedra preciosa

Uma dessas jovens é Ana Cecília, de 27 anos, natural de Alverca do Ribatejo, ex-técnica de farmácia.

A noviça conta que o despertar da vocação surgiu após um retiro na casa de acolhimento do mosteiro Trapista de Palaçoulo, onde esteve com um grupo de amigos no final da pandemia de Covid-19.

“Para mim foi muito claro quando as conheci. Eu já tinha esta pergunta do que é que o Senhor queria para mim, para a minha vida, porque sei que o que Ele quer é sempre grande, e, portanto, se Ele me permite ter este fascínio, é porque, se calhar, há uma coisa grande aqui”, conta.

“É mesmo muito simples. É como a parábola da pérola preciosa no campo que quando uma pessoa a encontra, compra o campo para ficar com aquela pérola preciosa. O esforço é ter de comprar o campo, portanto, largar as coisas que tinha”, concretiza.

Fruto de um “verdadeiro sínodo. Um mosteiro profético para a Igreja portuguesa e para a Igreja europeia”

“Este é um dia muito feliz” diz o padre António Pires, pároco de Palaçoulo e que foi procurador da comunidade monástica em Portugal, referindo-se à inauguração do mosteiro.

“Em momento nenhum, perante as dificuldades, perante alguns atrasos - que é normal -, nunca duvidei e, por isso, hoje é um dia feliz. Mas todos os dias, desde o princípio até agora, foram dias felizes, não foram dias de sacrifício, foram dias de benefício. É assim que eu me sinto”, observa.

Fruto de um “verdadeiro sínodo”, em que muitas pessoas e entidades colaboraram juntas, o padre António Pires não tem dúvidas que se trata de “um mosteiro profético para a Igreja portuguesa e para a Igreja europeia”.

“Houve aqui muitos contactos, muitas pessoas, muitas entidades com quem colaborámos todos juntos. Isto é que é o verdadeiro sínodo: os cristãos caminharem juntos; o sínodo não é um evento, é os cristãos caminharem juntos”, observa.

O sacerdote entende que “o mosteiro vai ser uma retaguarda para a ação da própria Igreja e vai ser uma referência na vida da Igreja em Portugal, neste milénio e neste século”.

“É uma escola de oração, a tal teologia de joelhos, a tal teologia orante. Hoje precisamos desta teologia, não precisamos só de conferências, de uma pastoral sem o suporte da oração”, conclui.

“Nunca perdi o sono”

Para a superiora do Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja, irmã Giusy Maffini, a inauguração foi a forma de “oficializar a presença”, em Palaçoulo.

“Agora vivemos definitivamente no mosteiro, mas era bom oficializar a nossa presença, o nosso ficar dentro deste mosteiro, os muros são feitos para ficar”, diz a monja, acrescentando que “o ambiente do mosteiro é feito por uma comunidade, com as suas relações e forma de vida próprias”.

O Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja, em Palaçoulo, Miranda do Douro, foi fundado por 10 monjas italianas, que pertencem à Ordem Cisterciense de Estrita Observância (Trapista) de Vitorchiano, em Itália, e custou cerca de seis milhões de euros. Com capacidade para 40 monjas, contempla uma casa de acolhimento, uma hospedaria, segundo a regra de S. Bento, destinada aos visitantes e turistas, e que servirá como fonte de receitas.

“Os recursos maiores chegaram, sobretudo, através da nossa Ordem, pelo mosteiro fundador de Vitorchiano e também de muitos amigos que partilham connosco a visão de fé que permite também fisicamente estas obras, porque eu não consigo distinguir o que é obra física daquilo que é a minha vida em cada dia”, conta a religiosa.

“Nunca perdi o sono a pensar quanto dinheiro tenho de gastar ou outras coisas”, remata.

“O desafio é tornar fecunda esta terra”

A comunidade tem atualmente 10 monjas, a mais nova com 36 anos e a mais velha com 83 e vieram todas de Itália, do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora de São José, em Vitorchiano, e conta já com três portuguesas - uma noviça e duas postulantes.

“Foi uma belíssima surpresa este verão ver que há muitas jovens que estão à procura da vocação, independentemente da nossa, mas têm uma pergunta sobre a própria vida”, conta a irmã Giusy.

As monjas trapistas levantam-se todos os dias às 3h40 e às 4h00 já estão na igreja, onde vão sete vezes por dia.

“Trabalhamos. O desafio é tornar fecunda esta terra. As amêndoas deram bom fruto. As videiras estão a ser plantadas, esperemos que aguentem, e, depois, estamos a produzir compotas, biscoitos… O desafio é ganhar a vida e poder acolher”, conclui.

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  • Maria Emília Saraiva
    25 out, 2024 Cascais 14:56
    Gostaria de conhecer essa terra e o Mosteiro em especial ,para ouvir e rezar com as Irmã.

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