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Hora da Verdade

Carlos Moedas desafia PS a "assumir a derrota" e deixar Montenegro governar

26 set, 2024 - 07:00 • Tomás Anjinho Chagas , Beatriz Pereira (vídeo) , Samuel Alemão (Público) e Rui Gaudêncio (Público, imagem)

Presidente da CM Lisboa venceu as eleições há três anos. Agora, mantém o segredo sobre futuro e não diz se vai recandidatar-se. Moedas pede responsabilidade aos partidos do centro e acredita que os portugueses não querem ir novamente a eleições.

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Moedas BO
Carlos Moedas em entrevista. Foto: Rui Gaudêncio/Público. Vídeo: Beatriz Pereira/Renascença

Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, apela ao PS para "assumir a derrota" e deixar o governo da AD, liderado por Luís Montenegro, fazer o seu trabalho.

No dia em que assinala três anos desde que venceu as eleições autárquicas, o antigo comissário europeu é o convidado do Hora da Verdade, programa de entrevistas da Renascença e do jornal "Público", e prefere não anunciar se vai voltar a recandidatar-se nas autárquicas de 2025.

Moedas rejeita que a viabilização do Orçamento do Estado passe pelo Chega e pede ao PS e ao PSD para assumirem a responsabilidade de "partidos moderados". O autarca da capital admite que a sucessão de casos judiciais em torno do governo regional da Madeira não é bom para a imagem dos social-democratas.


[Esta é a primeira parte da entrevista a Carlos Moedas. Clique aqui para ler a segunda parte, sobre os problemas na cidade de Lisboa]

Carlos Moedas não tem maioria na câmara. Como é que tem passado orçamentos municipais em minoria?

Têm sido três anos em grande dificuldade, a fazer muito, mas em grande dificuldade, porque é muito difícil, em minoria. Tenho conseguido, através dos consensos, através da minha abertura e também o meu posicionamento acima dos partidos, conseguir aprovar orçamentos. Ainda temos um pela frente, de 2025, que é muito importante e espero conseguir, mais uma vez, ultrapassar esse obstáculo, que é grande, uma vez que preciso da oposição para ter orçamento para os lisboetas. Mas posicionei-me sempre acima dos partidos, acima das tricas partidárias.

É muito importante que isso aconteça também a nível nacional, que os líderes partidários estejam acima daquilo que é o partidário e estejam com a política pública, com as pessoas. Se assim for, o orçamento nacional será aprovado, se as duas partes se entenderem, mas sobretudo se o Partido Socialista, que está aqui na oposição, conseguir, de uma vez por todas, perceber que perdeu as eleições e que há aqui um governo que foi eleito e que tem governado.

Acha que há uma disponibilidade real do primeiro-ministro para negociar com o PS?

Sim, penso que o primeiro-ministro tem mostrado essa responsabilidade, tem mostrado aquilo que é o programa do Governo. E aqui nós entramos. A política hoje vai ser cada vez mais complicada, porque, no fundo, estou em minoria. Aqui, o Governo também está com uma situação delicada. É preciso que o partido que perca, ou o partido que não está a governar, seja, de forma adulta, responsável. Que perceba que quem está a governar é aquele que ganhou as eleições.

Acha que o PS está a ser adulto?

Acho que o PS não está, ou melhor, não consegue, de certa forma, perder. Estou há três anos na câmara e o PS Lisboa ainda não percebeu que perdeu as eleições em 2021. Penso que quando os partidos se instalam no poder durante tantos anos, no caso da câmara durante 14 anos, no caso do governo nacional durante sete ou oito anos, o que acontece é que o PS não admite a derrota. Está na oposição a pensar que está a governar. E isso não funciona. Ainda há aqui algo que tem que acontecer no próprio PS, que é assumir a derrota. Ou seja, assumir que perdeu Lisboa, assumir que perdeu as eleições nacionais e deixar governar. Obviamente, com negociação. Aliás, é o que faço há três anos, a negociar constantemente, mas também com muitos bloqueios, com muitas dificuldades.

Mas esses bloqueios e essa necessidade de negociação não são normais em democracia?

A negociação, aliás, tem sido a maneira com que eu faço política. É negociar constantemente, não só com o Partido Socialista, mas também com outros partidos. Depois, há um posicionamento, a negociação tem que ser feita com respeito por aquele que está no poder. Não se pode negociar com aquele que é o primeiro-ministro, neste caso, a impor o programa do partido que não ganhou as eleições. Houve muitas coisas que não fiz, por bloqueios, porque o PS, muitas vezes, não quis, e isso, no meu contexto, também fez com que não pudesse governar da maneira que queria para os lisboetas. Mas isso são as condições que temos, seja no local, seja no nacional.

Se, a dada altura, a AD concluir que não é possível viabilizar o orçamento do Estado com o PS, deve tentar conversar com o Chega?

Há um problema muito grave na política, que são os extremos. E não podemos apenas focalizar no extremo da direita, também na extrema-esquerda. Há uma volatilidade criada pelos extremos que é muito má para o sistema. E isso aumenta a responsabilidade dos moderados. Os moderados da AD, os moderados do Partido Socialista. As pessoas estão a olhar, num mundo cada vez mais polarizado, como esses moderados se comportam. Há uma responsabilidade acrescida do PS, e, obviamente, do partido de Governo, é que esse tem a responsabilidade total. Espero que os partidos moderados se entendam.

Obviamente que o partido que está no governo deve falar com todos os partidos. Não deve é esperar muito dos extremos. Quando falo com a extrema-esquerda no meu executivo, não espero muito dessa extrema-esquerda. Tenho uma extrema-esquerda, com o Partido Comunista, que é uma extrema-esquerda responsável, mas com a qual não estou de acordo em nada e é muito difícil chegar a acordo. Depois, temos uma extrema-esquerda representada pelo Bloco de Esquerda, que é uma extrema-esquerda irresponsável. Ainda vai haver muitos capítulos neste tema do orçamento do Estado.

Se ele vier a ser chumbado, acha que a melhor solução seria ir a votos novamente?

Penso que os portugueses não querem eleições. Ninguém quer. O partido que provocar essas eleições será penalizado. Nem quero acreditar que isso possa acontecer. Penso que a pressão que está a ser posta pelo senhor Presidente da República e pelo primeiro-ministro são pressões importantes. Porque aqui não podemos vacilar. Ninguém quer ir a eleições. Temos que respeitar os portugueses. Temos que continuar a governar. Este governo está a governar. E está a tomar medidas muito importantes para o país. É continuar. Não podemos estar a ir a eleições todos os anos. E isso, cá está, é política partidária. Um partido com a história do PS estar a chumbar este orçamento…isso não faz qualquer sentido, no momento actual. As duas partes têm de se entender.

O Governo Regional da Madeira tem vários arguidos. Isto é uma boa imagem para o PSD?

A imagem na justiça de políticos que sejam arguidos ou acusados nunca é boa. Tenho sido, aliás, exemplar em que sempre que aconteceu ter alguém que foi acusado, essa pessoa se retire das suas funções. Tem sido essa a minha filosofia. Porque, obviamente, o ser arguido é estar protegido perante a lei para poder defender-se. Outra coisa é estar acusado. Obviamente, o que me preocupa, porque isso é que reforça a extrema-direita e a extrema-esquerda, de certa forma, é que. ao descredibilizar os moderados ou termos cada vez mais pessoas que sejam arguidos ou acusados, cria-se essa percepção em relação à política que é cada vez mais negativa. Temos que ser exemplares.

Neste caso concreto da Madeira, acha que Miguel Albuquerque deveria colocar o lugar à disposição?

Cada pessoa e cada político, num momento certo, deve tomar as suas decisões. Falo em relação àquilo que eu, como presidente da Câmara de Lisboa, tenho sido e tenho sido exemplar nesse sentido. Mas não devemos ser ou estar a dar conselhos a outros. Se Miguel Albuquerque, neste momento, está com a sua consciência tranquila, penso que deve seguir o seu caminho. Não faço julgamentos sobre outros políticos de qualquer partido. Cada um sabe de si.

O congresso do PSD foi adiado por causa dos incêndios. Vai assumir mais responsabilidades no partido, daqui em diante? Está disponível, por exemplo, para ser vice-presidente do PSD?

Sou presidente da câmara a tempo inteiro e a minha missão é ser presidente da câmara. Posso sempre estar disponível para ajudar no partido, como ser o número um do Conselho Nacional, mas estou muito focalizado naquilo que é a acção executiva de ser presidente da câmara. Não tenho muito tempo disponível para estar na política activa exactamente por isso. Mas Luís Montenegro sabe que conta comigo. Aliás, aceitei ser conselheiro de Estado e com muita honra fui eleito para isso. Mas não posso ter cargos que envolvam mais ou muito tempo da minha parte, uma vez que ser presidente da Câmara é 24 horas por dia.

Significa que está disponível para continuar?

Não faço… Ao contrário de outros políticos, e penso que isso é tão mau para a política, as pessoas estarem sempre a pensar ou a posicionarem-se no futuro e serem candidatos.

Mas é o futuro próximo…

Não, temos um ano. Percebo que para o jornalismo essas perguntas são importantes, mas também respondo com aquilo que é a minha consciência. Estou presidente da Câmara de Lisboa, tenho muito ainda para fazer durante o próximo ano. Se estivesse aqui para me apresentar, que não estou, como candidato a alguma eleição, a partir daí, já não poderia estar, todos os dias, a ser presidente da câmara. Acho que os lisboetas não me perdoariam isso. Precisam de saber com o que contam.

Não se quer comprometer porquê? Está cansado? Acha que é o fim de um ciclo político?

Não, não… Penso que, de tudo aquilo que fiz na vida, é o trabalho mais intenso, mas é aquele também que me dá mais energia, que é resolver os problemas das pessoas. Não anunciarei antes de tempo posicionamentos ou o ser candidato a alguma coisa. Nunca o farei na vida e, portanto, não contam comigo para isso. E exactamente por isso, porque as pessoas contam comigo para estarmos a falar do que é preciso fazer na cidade. Não contam comigo para eu ser candidato um ano antes, seja ao que for.

Não teme que essa sua cautela seja interpretada por algumas pessoas como um tacticismo? Como “lá está ele a pensar saltar para um cargo maior”...

Não, porque as pessoas poderiam pensar o contrário. Se já fosse candidato a uma determinada função, era porque só pensava em ser candidato. Aquilo que faço é ser presidente da câmara e ser presidente da câmara exige uma concentração total naquilo que é o dia da cidade. E sabem os dois muito bem o que é a absorção diária. Eu não posso andar em campanha, tenho que andar a fazer aquilo que são os pontos importantes para os lisboetas. Dizer se é ou não candidato? Neste momento, não é a altura para qualquer anúncio. Nem será nos tempos que aí vêm, porque nós estamos em 2024 e as eleições são no fim de 2025. Não faria qualquer sentido.

Mas, apesar disso, já falando em autárquicas, tem-se perfilado uma frente esquerda, com o PS e o Livre manifestar já abertura para isso. Acha que o PSD também devia ir a votos com uma frente direita com a Iniciativa Liberal, por exemplo?

Na verdade, essa “frente de esquerda” já não existe, uma vez que o Partido Comunista Português, ou a CDU, lançou o seu candidato. Pode haver uma coligação de partidos de esquerda, mas isso já existia antes. O Partido Socialista foi a eleições com o Livre e os Cidadãos por Lisboa. Acredito que poderá haver aqui uma coligação, como eu também tive uma coligação. Eu seguramente vou ter uma coligação. Mas não estou aqui a pensar o que é que será o futuro, o que é que seria essa possibilidade. Neste momento, estou a governar para os lisboetas e qualquer tema que tenha a ver com campanha eleitoral não é o tema para mim, neste momento.

Mas a Iniciativa Liberal é um parceiro natural?

A Iniciativa Liberal é um partido que respeito, é um parceiro natural da minha área política, na área da economia. Talvez seja menos um parceiro na área daquilo que são as políticas sociais. O Partido Social Democrata, por definição, é um partido da área social. Agora, muitas das ideias da Iniciativa Liberal, na área económica, eu estou de acordo com elas. Tenho mais o lado social e ser presidente da câmara é, sobretudo, isso. Mas não vou fazer nenhum anúncio, porque não seria o tempo. O futuro dirá. Mas tenho muito respeito pela Iniciativa Liberal.

E pelo Chega?

Nunca tive qualquer reunião ou qualquer contacto com o Chega, portanto eu ganho as eleições…

E para a frente também não vai haver?

Repito. Tenho, pessoalmente, para os meus filhos, para os vossos filhos, para a nossa vida, muito medo da extrema-direita e da extrema-esquerda. A extrema-direita e a extrema-esquerda estão aqui para destruir o sistema. A união com as extremas-esquerdas e as extremas-direitas são más para a democracia e eu posiciono-me como político da moderação contra os extremos.

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  • Anastácio Lopes
    26 set, 2024 Lisboa 08:02
    Será alguma vez a preocupação que este político mostra pelas dificuldades em governar por parte de Montenegro, que aquele assume as responsabilidades inerentes ao cargo que ocupa e pelo qual é pago pelo erário público português? Quando nos provará Moedas estar igualmente preocupado em dar resposta aos mil e um problemas que a cidade de Lisboa continua a ter por resolver mas que este político, no fim deste seu mandato, não resolveu e continua a fazer vista grossa dos mesmos? Recordo Moedas que mais de um ano após a vinda do Papa Francisco a Lisboa, informá-lo que o Bairro da Serafina também, é Lisboa, que a CML nada fez até hoje para dar alguma dignidade habitacional aos que naquele bairro sobrevivem, inclusive, em pleno século XXI sem água potável, e sobre esta vergonha municipal nunca mostrou preocupação alguma, como a realidade disso nos faz prova diariamente. Preocupe-se com as responsabilidades diretas e indiretas da CML, que tal como no Bairro da Serafina também existem na Quinta do Ferro, Bairro da Liberdade, etc, e faça o que nunca fez dando alguma dignidade habitacional aos que sobrevivem neste s bairros, para que tais concidadãos possam ter alguma razão para se lembrarem da sua pessoa e pare de fingir que estas vergonhas municipais não existem, pois até quem está em Roma as conhece, como não pode conhecer aquele que soube pedir o voto aos cidadãos de Lisboa, para rigorosamente nada fazer em prol das segurança, dignidade habitacional e melhoria da qualidade de vida.

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