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Contra a "insegurança total" ou por um Portugal "de todos". Milhares de pessoas em manifestações contrárias em Lisboa

12 jan, 2025 - 00:30 • Alexandre Abrantes Neves

Milhares de pessoas marcharam contra a xenofobia e o racismo, muitas delas imigrantes e com bandeiras de Portugal na mão. A escassos metros, uma vigília do Chega reuniu mais duas centenas de pessoas, que protestavam contra o "descalabro total". Praticamente um mês depois, a polémica operação policial no Martim Moniz fez encher as ruas de Lisboa.

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Reportagem Alexandre Abrantes Neves - manifestações operação Martim Moniz
Ouça aqui a reportagem do jornalista Alexandre Abrantes Neves. Foto: Tiago Petinga/Lusa

Eman é uma autêntica agulha num palheiro. Está no meio da mancha de milhares de pessoas que enche a Avenida Almirante Reis em Lisboa – perto da Igreja dos Anjos, onde conversa connosco, é impossível avistar o início e o fim do desfile. A imagem de “solidariedade” causa-lhe algum alívio – chegou do Bangladesh há dez anos e diz que nunca sentiu tanto preconceito como agora.

“Nós só precisamos de direitos iguais para também ajudarmos este país com contribuições da segurança social. Quando cheguei era melhor. Agora, não é igual para toda a gente”, apela, para logo a seguir dar um salto nas memórias até ao final do ano passado. “A operação da polícia foi só para com a comunidade do Bangladesh. Senti-me muito triste.”.

Passou quase um mês, mas é bem audível que ninguém esquece a polémica operação da Polícia de Segurança Pública. O nome da manifestação “Não nos encostem à parede” vai ecoando pelos megafones e colunas de som. Eman vai nivelando o volume de uma destas aparelhagens a bordo de uma carrinha de caixa aberta, que atravessa a baixa velocidade um grupo de três manifestantes, a gesticular exaltadamente.

Ainda estão “zangados” pelo que viram nas fotografias na rua do Benformoso.

“Estou farto, porque estão sempre a jogar esta cartilha do medo, para tentar virar as pessoas umas contra as outras e desviar as atenções do que realmente interessa”, critica Pedro Serpa, que carrega nas mãos um cartaz contra as polícias. Ao lado, o amigo Ricardo Sequeira vai concordando com a cabeça: não compreende quem fala num aumento da insegurança nas ruas.

Essa perceção, para mim, não existe. Aliás, nesta zona do Martim Moniz, há 20 anos ninguém cá entrava e a maior parte das pessoas que cá vivia era portuguesa. A perceção da insegurança não tem a ver com a imigração. Rejeito essa ideia”, defende.

As palavras de ordem são muitas - "Portugal é de todos" -, mas a animação também. Não há pedra desta calçada que não sinta a dança dos grupos que vão cantando em crioulo “estamos juntos, estamos fortes”. A melodia e os versos vão sendo intercalados com as batidas de muitos tambores.

Nicole Travato carrega um par de baquetas. É brasileira, reconhece até que é uma “privilegiada” entre a população imigrante, mas aponta que o pior são as “micro-agressões” no dia-a-dia.

“Ou gozam com o sotaque ou olham para ti como se fosses exótico, sabes?”, clarifica à Renascença. Deixa-nos rapidamente porque, no meio de tanta gente, não pode perder o fio à meada do grupo de tambores onde participa.

Mesmo à frente, lê-se numa tarja pendurada num terraço “em cada esquina, um amigo”. E nem de propósito. Mesmo ali, quase a chegar à praça do Martim Moniz, Renato Pinto, também brasileiro, faz um relato semelhante dos primeiros tempos em que viveu em Portugal.

“A xenofobia manifesta-se com falta de oportunidade. Ou em coisas do dia-a-dia. Por exemplo, eu fui tentar abrir uma conta bancária e a funcionária mandou-me para o Banco do Brasil – ‘já que eu era brasileiro’, eu devia abrir uma conta no Banco do Brasil. É um bocado absurdo, não é?”, lança-nos a pergunta, quase a responder logo de seguida.

Dali a escassos metros, na praça da Figueira, a resposta seria provavelmente outra. A vigília marcada pelo Chega reúne mais de duas centenas de pessoas, todas elas vestidas com uma camisola preta onde se lê “pela autoridade, contra a impunidade”.

Uma delas é Elisabete Rodrigues. Veio de autocarro desde Vila Verde, no distrito de Braga, para “defender as polícias”. Fala num “país completamente inseguro, num descalabro total”, apesar de não o sentir na pele.

“Eu sou de uma vila do Norte, sou de Vila Verde. Nós lá ainda não sentimos tanto essa insegurança, mas conhecemos e temos conhecimento de pessoas do Porto e em Lisboa que sentem muito essa insegurança”, relata, para logo depois pedir. “Eu acho que as forças de segurança têm de ter mais poder”.

Quando a conversa acaba, já a comitiva do Chega abandonou o local e com eles levaram as muitas bandeiras de Portugal que ali se viram.

Também na outra marcha havia muitos imigrantes a empunhá-las – “eu gosto deste país”, dizia Eman, o primeiro testemunho deste texto.

Não o voltamos a encontrar, mas regressamos ao Martim Moniz, onde a noite já caiu, mas de onde se ouvem ainda palavras de ordem e música.

Mal chegamos, Carmo Macedo tem uma lição de história para partilhar.

“Na aldeia onde eu nasci no Alentejo, a maior parte da população emigrou para a França. O que é que seria de nós sem a imigração na altura, não é? (…) Devíamos ter vergonha de ter estas políticas”, critica.

Em cima do pequeno palco que ali se montou, passam pessoas vindas de todo o mundo. Carmo comenta, em jeito de resumo daquilo que todos pensam ali: “Não são imigrantes, são pessoas. Há pessoas boas e más em todo o lado. Portanto não é por aí”.

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  • Pepineira
    12 jan, 2025 Portugal 13:29
    É mentira que lá tenham estado "milhares", algumas centenas talvez, mas "milhares" só se os contaram várias vezes. As pessoas, como publicado na sondagem em que 57% concordam com a rusga e 65% não veem qualquer racismo ou xenofobia sabem que a PSP é o garante da nossa segurança . Estes potenciais criminosos com este alarido feito pela esquerda radical, apenas querem tentar abrir caminho para os delitos que pretendem cometer . Aliás , a maioria dos imigrantes não foi e nem apoia estes radicais esquerdolas e imigrantes marginais , pois quer integrar-se , trabalhar e ter a sua família, e quando assim é, cabe perguntar quando é que a imprensa pára com a badalação da instrumentalização desta pepineira?
  • Manif portuguesa?
    12 jan, 2025 Só lá vejo migrantes e a ralé de Esquerdalha 13:19
    Isto não é uma manifestação de portugueses contra o racismo. Praticamente só se veem hindustânicos encabeçados pelas figuras de esquerdalha radical que já ninguém suporta ver à frente com os seus chavões da treta, e já agora poucas ou nenhumas mulheres. Isto não é uma manifestação do povo português, isto é uma instrumentalização com aproveitamento de milhares de imigrantes, homens, que as mulheres não contam, para a esquerda poder berrar os seus "slogans" habituais, vazios e bolorentos. Rusgas sempre houve, e fazem-se há décadas e de forma regular, porque se faz uma barulheira destas apenas por causa de uma rusga? Será para angariar votos entre a imigração para as próximas eleições? Como já não enganam os portugueses, devem andar atrás dos "portugueses de aviário"...
  • Mario Rodrigues
    12 jan, 2025 Leiria 12:34
    Para alguns vale tudo, incluindo instrumentalizar os imigrantes e a polícia, favorecendo o Chega. O objectivo é só um: prejudicar a AD!... Para eles, os fins justificam os meios! Que indecência!...

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