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Geração Z

Jovens querem cada vez menos ter filhos, mas é "injusto" culpá-los. "Não lhes damos boas condições"

03 jul, 2024 - 18:00 • Alexandre Abrantes Neves

Há quem não queira ter filhos para "não perder liberdade", outros têm medo de trazer uma criança ao mundo em plena crise climática. Ainda assim, há jovens com vontade de aumentar a família - só lhes falta tempo e dinheiro. Afinal, não ter filhos é mesmo um problema geracional?

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Jovens querem cada vez menos ter filhos, mas é "injusto" culpá-los. "Não lhes damos boas condições"
Ouça aqui o episódio desta semana. Foto: D.R.

É injusto pressionarmos os jovens para terem filhos quando não lhes damos boas condições de vida. O diagnóstico é feito por Lara Tavares, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas em Lisboa, que se senta esta semana à mesa do Geração Z da Renascença e da EuranetPlus para mostrar que a baixa fecundidade “não é só uma moda” e veio para ficar.

Segundo o relatório “Society at a Glance 2024” publicado este mês de junho pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), os Estados-membros devem “preparar-se para um futuro de baixa fertilidade”, principalmente porque o índice necessário para renovar as gerações - 2,1 filhos por mulher em idade fértil – está longe de ser cumprido: em 2022, ficou-se pelas 1,5 crianças.

Para Lara Tavares, os baixos salários, a “incerteza dos trabalhos atípicos com menos segurança” e “claro” a dificuldade em conciliar a vida profissional e pessoal são algumas das principais razões para os jovens não terem filhos – e, por isso, pede aos decisores políticos para olharem para “o fenómeno como algo que não é episódico nem temporário” e para criarem políticas adaptadas, eficazes e "justas" para esta nova realidade.

“O que se tem tentado fazer até agora é encontrar soluções para voltar ao ideal dos 2,1 filhos. Isso implica uma pressão sobre os jovens injusta, porque não lhes damos condições para isso (...). Segundo a OCDE, metade dos jovens não são financeiramente independentes e a habitação é um dos principais problemas. (...) As novas medidas do governo para a habitação parecem-me, por isso, um passo no bom sentido”, defende.

No que toca à realidade portuguesa, Lara Tavares explica que Portugal continua a ser um dos países com taxas mais baixas de mulheres sem filhos, mas sublinha que “entre os últimos dois relatórios da OCDE, esses números duplicaram”. A especialista acredita, por isso, que este “é só mais um exemplo que revela como Portugal está na cauda [da Europa]” e que o país “está a seguir a mesma tendência que os outros países, simplesmente partiu de um ponto mais atrás”.

“Antes sentia-me culpada, agora fico enervada quando me dizem que ainda vou mudar de opinião”

Além dos fatores económicos, grande parte deste fenómeno é também explicada, segundo Lara Tavares, pela “emancipação das mulheres, que ganharam direito a estudar, a participar no mercado de trabalho e, portanto, a ter outros interesses para além do seu papel enquanto mães”,

Carolina, de 40 anos, é uma delas. Não tem filhos nem se sente arrependida – tanto ela como o parceiro nunca sentiram vontade de aumentar a família. Apesar de hoje já não se “sentir culpada”, relembra os comentários menos positivos que recebeu e “o medo de desiludir a família, que podia achar que era egoísta”.

Apesar de “uma mudança muito recente” nas sociedades permitir às mulheres “afirmarem publicamente com maior facilidade que não querem ter filhos”, Lara Tavares sublinha que pensamentos como os de Carolina são “muito comuns”. Segundo a especialista, podem até motivar sentimentos de “incompreensão”, porque estas mulheres sentem que “[quem comenta] não conhece a sua história pessoal nem as razões que as levam a não ter filhos”.

Ana também não se vê a ser mãe no médio prazo – não só devido “aos riscos e alterações no corpo”, mas também porque sente que “as mulheres ainda têm mais trabalho doméstico que os homens”. Este é um motivo que, segundo a convidada do Geração Z desta semana, é também muito evocado lá fora.

“[Temos] o exemplo dos países nórdicos, que são conhecidos por serem dos países mais avançados do ponto de vista da igualdade de género em geral, no mercado de trabalho, etc. No entanto, a fecundidade está a descer e os demógrafos acharam isso muito intrigante. E os estudos apontam nessa direção – a divisão de tarefas em casa continua a penalizar mais as mulheres”, descreve.

Alterações climáticas também aumentam medo de ter filhos?

Outro dos testemunhos deste Geração Z é o do Gonçalo, que também afasta entrar na paternalidade num futuro breve – uma das razões passa pelo facto de “a educação [de um futuro filho] não depender só de mim, nomeadamente devido à exposição em demasia às redes sociais”.

Lara Tavares enquadra este motivo num conjunto comum de narrativas mais “catastróficas” e que englobam outros temas – por exemplo, o medo das consequências das alterações climáticas.

“Este tipo de narrativa é muito mais comum até em relação às questões ambientais. Hoje em dia, é uma tendência crescente a dizer que não quer ter filhos porque tem medo do mundo em que ele em que eles iriam crescer”, detalha.

Para esta demógrafa, os jovens dão hoje maior importância “ao lado negativo da parentalidade e da responsabilidade de serem pais”, do que propriamente às “consequências positivas”. Lara Tavares indica como exemplo desta mudança de postura o facto de “antes as pessoas terem filhos para as ajudarem quando fossem mais velhas” e agora ser “completamente o contrário, (...) até acham egoísta”.

Ainda assim, a também economista social está em crer que as redes sociais e a partilha de experiências de parentalidade em grande escala vá fazer aumentar o desejo de ter filhos.

“Está-se a enfatizar demasiado os custos e as consequências negativas de ter filhos . As redes sociais, nesse sentido, podem ajudar a mostrar os dois lados da balança. Há todo um lado muito positivo de ter filhos que eu acho que ultimamente tem sido pouco mostrado e a literatura mostra que as redes sociais podem ser utilizadas como instrumento positivo”, remata.

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