14 nov, 2024 - 10:50 • Hugo Tavares da Silva
Quando Patrick Stephan tinha sete ou oito anos, os heróis não eram os da Marvel. Ele tinha apenas um, só um, e até usava a mesma capa no dia a dia. E jogava na mesma posição. Kluivert só tinha olhos para um futebolista que parecia um edifício construído com o melhor material já inventado.
“O meu grande exemplo era o Marco van Basten”, confessou num dos palcos da Web Summit, em Lisboa, confirmando assim que todos os miúdos têm os seus heróis. “Jogava na mesma posição do que eu. Eu queria ser exatamente como o Marco van Basten. Ter ali um homem e um jogador como ele era impressionante.”
Kluivert jogava nos infantis quando van Basten foi jogar para o AC Milan. Aquele golo maravilhoso à URSS, na final do Euro 1988, foi executado quando o seu pequeno fã da academia do Ajax tinha apenas 11 anos.
A presença de Patrick Kluivert, que encantou enfiado nas camisolas de Ajax, Barcelona e Países Baixos, foi uma trégua na Web Summit. Não veio vender nada. Não falou de uma empresa inovadora com a melhor ideia do mundo. Não usou palavras difíceis, não convocou inteligência artificial ou códigos de programação. Kluivert foi como uma viagem à nostalgia. E uma viagem no tempo.
Desta vez os futeboleiros tiveram exatamente o que queriam: uma conversa futeboleira. Kluivert refletiu sobre pressão, referências, reconheceu quem foi a figura mais importante para ele no futebol e revelou que por sorte Ronaldo “Fenómeno” escolheu o PSV em vez do Ajax, então abriu-se uma vaga de avançado que ele aproveitou.
Voltou à pressão e ao nível a que jogou, à atenção mediática que pode morder mas que também é benéfica para os jovens de hoje. Ainda dissertou sobre mentalidade, nomeou Clarence Seedorf, que “não tem o reconhecimento que merece”, como o futebolista com mais talento e capacidade de trabalho que viu.
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Mas comecemos pelos momentos de que se orgulha mais na carreira. Sim senhor, aquele golo ao AC Milan na final da Liga dos Campeões, em 1995 e com apenas 18 anos, foi bom, mas ele prefere outros dois episódios. Nada lhe aquece a lembrança como os golos ao Brasil e à Argentina na fase final do Mundial de 1998, em França.
Este neerlandês com sangue do Suriname, tal como Seedorf, atribuiu ao mesmo Campeonato do Mundo o momento mais devastador da sua carreira, e dos companheiros de geração. “Quando falo nisso, sinto algo errado. É uma pena que tenha corrido assim”, desabafou. A Holanda caiu nos penáltis, na meia-final, contra o Brasil de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto.
Voltemos às histórias boas, sim? “A pessoa mais importante para mim foi o Louis van Gaal”, declara, sem grande surpresa. Quando ele meteu o golo ao AC Milan, em 1995, foi esse treinador que apostou no adolescente. “Foi uma figura paternal para mim.”
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Quando conversamos com este tipo de futebolista, há sempre a tendência para puxar o assunto da pressão, como se pudessemos entender aquele cérebro, como é que o pé não abana? “Se tens talento, a pressão é boa”, anuncia. O mais importante, salienta, é ter consistência. E fintar armadilhas.
“Quando jogas àquele nível, o mais importante é manteres-te perto de ti próprio, tu sabes as tuas habilidades”, explica. “Tudo é novo. Senti que os jogadores à minha volta me abraçaram, senti-me muito bem.” Naquele Ajax jogavam os irmãos de Boer, Danny Blind, Litmanen, Rijkaard e os jovens Davids, Seedorf e Kanu. Que barbaridade, hein?
“Perguntam-me muitas vezes sobre a pressão. Não havia, para mim”, admite. “Eu estava muito confiante naquela equipa, tive jogadores que me guiaram e mostraram como me comportar como jogador de primeira equipa.”
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O entrevistador perguntou-lhe então sobre as redes sociais e os muitíssimos artigos que há hoje sobre os jogadores, sobre essa atenção mediática. Kluivert, que tem vários filhos futebolistas (um deles no Casa Pia, Ruben), vê-o como uma ferramenta de promoção, mas somente se houver equilíbrio. “Tens de ter a mentalidade certa para te exibires como jogador e ser humano. Se fores bom, vais para debaixo do holofote. O grande exemplo é o Lamine Yamal.”
Kluivert, depois de uma carreira especial como futebolista, já foi dirigente, foi também responsável pela formação do Barcelona, a La Masia, e ainda desenvolveu alguns trabalhos como treinador. O último aconteceu na Turquia, em 2023/24, no Adana Demirspor.
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