09 jul, 2024 - 11:50 • Eduardo Soares da Silva
O último Europeu da carreira de Cristiano Ronaldo fica marcado pela falta de golos, as titularidades indiscutíveis e um rol de críticas às prestações do melhor marcador da história da seleção nacional. Mas o que dizem os números?
Concluídos os quartos de final, só quatro jogadores de campo fizeram mais minutos do que Cristiano Ronaldo. Todos eles são ingleses: Declan Rice, John Stones e Kyle Walker foram totalistas com 510 minutos e Jude Bellingham jogou 491 minutos. Depois, vem Ronaldo com 486 minutos, aos 39 anos de idade.
Paulo Alves foi ponta de lança internacional, marcou sete golos em 13 internacionalizações. Atualmente, é treinador e acredita que foi feita uma má gestão com Cristiano Ronaldo, face à idade.
“Não foi a melhor forma de gerir o grupo e Cristiano Ronaldo. Não foi bom para ninguém. E não é porque não correu tão bem, mas porque dificilmente poderia ter sido diferente desta forma”, explica.
Ronaldo tornou-se o primeiro jogador da história a disputar seis Europeus e tinha marcado em todos: dois em 2004, um em 2008, três em 2012, três em 2016 e cinco em 2020. Juntam-se ainda cinco Mundiais a faturar. Ficou pela primeira vez em branco.
A idade pesa e jogar praticamente todos os minutos do Europeu colocou as fragilidades de Cristiano ainda mais à vista, segundo o ex-jogador: “Ele ainda tem instinto goleador, a presença, mas já não tem a explosividade e resistência que sempre teve. Dificilmente se retira o melhor dele ao jogar 90 sobre 90, sobre 120, sobre 120. Até porque o desgaste nesta fase da época é enorme”.
A eficácia de Cristiano Ronaldo é a estatística que mais salta à vista. Neste caso, a falta dela. O avançado português – melhor marcador da história das seleções com 130 golos -, rematou 23 vezes, mais do que qualquer outro jogador no Euro, mas não marcou nenhum.
No top-10 de rematadores do Euro, todos marcaram à exceção de Cristiano Ronaldo e o jovem espanhol Lamine Yamal, de 16 anos, que rematou menos dez vezes do que o português e assistiu três golos.
Mbappé, Havertz, Depay, Harry Kane, Dani Olmo, Ndoye, Fabián e Gakpo são os restantes nomes e todos faturaram, ainda que alguns deles estejam a ser igualmente criticados por Europeus abaixo das expectativas criadas.
“O Ronaldo ainda sabe onde estar, ainda tem coisas dentro dele. No essencial, ele não está fresco o suficiente, ou com leveza suficiente para definir melhor. Sendo mais a espaços, não teria tido tantos remates, mas alguns poderiam ter funcionado melhor. É senso comum num jogador desta idade. O tempo é determinante para retirar o cansaço, que já não sai tão rapidamente. É a lei da vida”, explica.
Acrescentam-se outras estatísticas que pintam uma imagem negativa de Ronaldo na prova: foi oito vezes apanhado em fora de jogo, mais do que qualquer outro, e rematou oito vezes desenquadrado com a baliza, um registo superado apenas por Depay e Thuram. Junta-se ainda o penálti falhado contra a Eslovénia.
Ronaldo não conseguiu quebrar o recorde de Luka Modric e tornar-se o mais velho de sempre a marcar num Europeu. A pressão de não chegar ao golo poderá ter pesado no capitão da seleção, segundo Paulo Alves.
As lágrimas após o penálti falhado contra a Eslovénia, nos oitavos de final, são um indício: “Ele nunca pareceu ter problemas com a pressão. Até parecia que quanto maior, mais ele conseguia produzir resultados. Nunca foi um problema assumir responsabilidades. Havendo muito desgaste acumulado, é normal que interfira com o psicológico. A reação ao penálti é o comportamento humano a desenrolar-se na ansiedade normal. Martínez deveria ter retirado pressão ao Ronaldo de ainda carregar todas as expectativas de um país”.
Paulo Alves foca muitas críticas em Roberto Martínez, partindo do “senso comum que é o treinador que define a estratégia”. “Se há outras coisas por trás, não consigo saber e ultrapassa-nos”, ressalva.
Mas é difícil tirar Cristiano Ronaldo do 11 inicial? O avançado, que não marca um golo numa grande competição há nove jogos, reagiu mal ao ser substituído no último jogo da fase de grupos do Mundial do Qatar, que levou a que o capitão ficasse no banco na partida seguinte dos oitavos de final.
Meses mais tarde, o antigo selecionador viria a assumir, numa entrevista ao jornal "A Bola", que Ronaldo "interpretou mal" a condição de suplente.
Paulo Alves, com um vasto currículo como treinador e no qual se destaca o recente título da II Liga com o Moreirense, acredita que tomar decisões difíceis é uma característica que se exige aos selecionadores.
“Acredito que seja difícil tirá-lo, não estamos a falar de um jogador qualquer. Vai deixar um legado extraordinário, mas aos treinadores exige-se liderança para tomar decisões difíceis. O que me parece é que - e não sei se aconteceu -, deveria ter existido uma conversa de Martínez com Ronaldo a explicar que ele é importante, nem que seja só pela presença, mas que poderia, numa ou outra situação, tomar decisões diferentes. As grandes lideranças são assim. De certeza que é difícil, mas, tudo explicado previamente, seria mais simples. Acho que Ronaldo teria tido outro rendimento e a equipa também”, conclui.
O estilo de jogo poderá também não ter beneficiado as características atuais de Ronaldo: “O andamento e a força já não são os mesmos”.
“Não podemos esperar que Ronaldo venha buscar a bola mais atrás, virar-se e fazer como há cinco ou dez anos e ir para a frente e ainda conseguir encarar o guarda-redes. Não há milagres, a idade não espera por ninguém”, acrescenta.
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Por isso, Paulo Alves avalia que alas que jogam na linha contrária ao seu pé dominante - canhotos na direita e destros na esquerda – potenciam cruzamentos “que apanham sempre o Ronaldo de costas e com a defesa em cima”.
“Seria preciso outro tipo de futebol, com cruzamentos mais tensos, que encontrassem o Ronaldo com os apoios para a baliza. Isso ele ainda domina. Tem instinto, é um goleador. Não há mal nenhum em jogadores de pé contrário, mas deve haver a noção que com Ronaldo em campo, é preciso também ir para fora, cruzar mais rapidamente, apanhá-lo mais para os desvios. Devia potenciar-se isso também”, explica.
Até aos “quartos”, Portugal foi a equipa com mais cruzamentos (153), com uma diferença considerável para o segundo da lista, a Alemanha (115). As restantes seis seleções que chegaram à mesma fase ficaram entre os 80 e 90. Para além do elevado número de cruzamentos, acrescenta-se a agravante da taxa de aproveitamento ser a pior de todas as últimas oito equipas em prova. Apenas 32 chegaram ao destino.
Terminado o Europeu, é tempo de olhar para o futuro: há espaço para Cristiano Ronaldo no Mundial 2026?
Paulo Alves acredita que sim, mas nunca nos mesmos moldes: “Referiu que seria último Europeu, não que era a última competição. É diferente. Terá esperanças de ainda ir a um último Mundial”.
E conclui: “A presença do Ronaldo seria sempre importante, e acho que ele ainda tem coisas importantes dentro dele, mais não seja a vontade. Com outra gestão, as coisas seriam muito diferentes. Ronaldo pode estar a vida toda com a seleção, será sempre uma referência. Tem é de haver alguém que ajuste as coisas e fale com ele. Acredito que entenderá. É preciso alguém com carisma, sem constrangimentos".