19 jun, 2024 - 09:40 • Inês Braga Sampaio
Alemanha e Hungria são velhas conhecidas, embora contabilizem entre si apenas cinco jogos oficiais. Um deles, no entanto, é considerado uma das melhores partidas de futebol de sempre. Foi no dia 4 de julho de 1954, na final do Mundial, que uma Alemanha Ocidental se fez grande perante a "equipa de ouro" da Hungria e que se concretizou o "Milagre de Berna". Setenta anos depois, tudo mudou.
"Os mágicos magiares", como eram conhecidos, somavam 32 jogos consecutivos sem perder, recorde de seleções que perdura até hoje. Aquela seleção húngara tinha Ferenc Puskás, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik e Gyula Grosics, e já tinha conquistado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e a Taça Internacional da Europa, em 1952. Também tinham vencido o "Match of the Century" ("o jogo do século"): a Inglaterra não perdia em Wembley para uma seleção não britânica desde 1901 e, em 1953, caiu perante a Hungria, por 6-3.
A fase de grupos do Mundial mostrou ao que vinha a Hungria. Goleou a Coreia do Sul por 9-0 e a Alemanha por 8-3. Nos quartos de final, superou a "Batalha de Berna", frente ao Brasil de Djalma Santos, Julinho e Didi, por 4-2. Nas meias-finais, teve de sofrer para derrotar o Uruguai, no prolongamento, também por 4-2.
Eis que chegou a final. As mais duras montanhas já estavam escaladas e, agora, a Hungria tinha pela frente uma equipa que já tinha atropelado logo na fase inicial do torneio. Uma equipa que nem tinha participado no Mundial anterior, porque a FIFA não aceitara a inscrição das três fações alemãs de então: a República Federal da Alemanha (RFA), ou Alemanha Ocidental, a República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, e o Protetorado de Sarre, integrado na RFA em 1957.
Os jogadores alemães eram semiprofissionais e tinham segundos empregos. Vinha de alguns particulares e de uma fase de qualificação com apenas dois adversários, Noruega e Sarr. Aquela Alemanha Ocidental era uma incógnita e, embora o percurso até à final tivesse sido surpreendente, ninguém pensava que fosse forte o suficiente para fazer frente à toda-poderosa Hungria.
Mas fez. As circunstâncias pré-jogo não ajudaram a Hungria. Por ter disputado o prolongamento frente ao Uruguai, a seleção magiar perdeu o autocarro de regresso a Solothurn, pelo que teve de organizar a viagem em carros privados, que só chegaram ao destino à noite. Para piorar, na véspera da final, uma festa popular até altas horas da noite perturbou o sono dos jogadores. Além disso, o adjunto do selecionador alemão transferiu-se para o hotel onde estava alojada a comitiva húngara, para dar conta da preparação adversária. Várias peripécias que contrastaram com o descanso tranquilo da Alemanha em Spiez.
Também o clima deu uma mãozinha à Alemanha: chuva forte, perfeito para as novas chuteiras da Adidas, que só os germânicos calçavam e que se adaptavam a quaisquer condições meteorológicas, por terem pitons amovíveis.
A final no Estádio Wankdorf até começou da melhor maneira para a Hungria, que se adiantou em dose dupla aos seis e oito minutos, com golos de Puskás e Czibor. Contudo, Maximilian Morlock empatou ao minuto dez e, aos 18, Helmut Rahn empatou a partida. A seis minutos do apito final, Rahn bisou e colocou os húngaros em choque. Dois minutos depois, Puskás empatou, porém, o árbitro anulou o golo por fora de jogo.
Quando o apito final soou, terminaram o jogo e a série invencível da Hungria, e a Alemanha celebrou o primeiro título de campeão do mundo da sua história. Mais três seguiriam, em 1974 e 1990, ainda como Alemanha Ocidental, e em 2014, já unificada. A Hungria nunca mais voltou a uma final.
Dizem os historiadores que o "Milagre de Berna" foi decisivo para o transbordar do descontentamento dos húngaros com o seu regime autoritário. O guarda-redes Grosics nunca foi perdoado por ter sofrido três golos e, mais tarde, foi detido. Familiares de elementos da equipa perderam o emprego e outros jogadores abandonaram o país.
Setenta anos depois, é a Alemanha que tem o ouro. Quatro vezes campeã do mundo, três vezes campeã da Europa, volta a defrontar a seleção contra a qual levantou o primeiro troféu da sua história. Desde então, as duas equipas voltaram a encontrar-se na fase de grupos do Euro 2020, jogo que terminou empatado a dois golos, e na da Liga das Nações: um empate na Hungria e uma vitória em solo alemão.
Voltam a defrontar-se esta quarta-feira, às 17h00, na segunda jornada do grupo A do Euro 2024.