O que une e separa Marcelo, Ursula e Ana Catarina?
07-10-2020 - 21:24
 • Eunice Lourenço

A presidente da Comissão Europeia, o Presidente da República e a líder parlamentar do PS estiveram nos mesmos locais que Lobo Xavier. Graça Freitas diz que testes feitos pelos conselheiros de Estado foram decisão pessoal.

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A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, garantiu, esta quarta-feira, que no caso da infeção por Covid de um conselheiro de Estado foi seguida “a metodologia adequada que se segue sempre”. Graça Freitas referia-se ao caso de António Lobo Xavier, que soube no domingo que está infetado com Covid-19 e que tinha estado na reunião presencial do Conselho de Estado de dia 29 de setembro.

“Foram seguidos os mesmos procedimentos que se seguem para a investigação de outros casos positivos”, afirmou Graça Freitas na conferencia de imprensa de atualização dos dados sobre a pandemia, onde remeteu os testes a que se submeteram os conselheiros de Estado para o âmbito pessoal.

“Fazer teste é uma iniciativa muitas vezes individual, tomada pelos próprios, pelos seus médicos assistentes, mas essa iniciativa não inibiu as autoridades de saúde de fazerem o inquérito epidemiológico que lhes competia fazer, como faz em todas as circunstâncias”, prosseguiu a diretora-geral, explicando que é “esse inquérito que permite, perante as respostas que são obtidas, estratificar os contactos em contactos de alto risco e contactos de baixo risco e é essa separação que determina as medias subsequentes”.

A responsável sanitária tentava, assim, explicar, sem concretizar e sem nomear, as atitudes diferentes das várias pessoas que se cruzaram com António Lobo Xavier. Por um lado, os conselheiros de Estado que foram testados quase de imediato e mantiveram as suas agendas. Por outro, a presidente da Comissão Europeia, Úrsula van der Leyen, que esteve a reunião do Conselho de Estado como convidada e decidiu suspender a sua agenda até passar uma semana do encontro. E, ainda por outro, a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, que é uma das participantes regulares do programa Circulatura do Quadrado, com Lobo Xavier e Pacheco Pereira, com moderação de Carlos Andrade, que está em confinamento profilático.

Contactos diferentes, regras diferentes

O que se passa é que são contactos diferentes e com regras diferentes. No caso dos conselheiros de Estado, depois do alerta de Lobo Xavier, outra conselheira de Estado, Leonor Beleza, disponibilizou de imediato os meios da Fundação Champalimaud, a que presidente, para realizar testes aos conselheiros de forma gratuita.

Leonor Beleza esteve sentada na reunião ao lado de Lobo Xavier, mas com bastante distanciamento e com uso de máscara. A reunião, que foi a primeira a decorrer da forma presencial, foi feita no Palácio da Cidadela, em Cascais, precisamente para garantir o distanciamento entre os participantes e o arejamento da sala. Todos os participantes estiveram de máscara. E a grande maioria não esteve em nenhum momento a menos de dois metros de Lobo Xavier.

Recorde-se que um dos critérios para determinar se um contacto é de alto ou baixo risco é o facto de ter estado por mais de 15 minutos a menos de dois metros de um infetado. Quando tal não acontece, é considerado um contacto de baixo risco e pode manter a vida normal, sendo aconselhado a aumentar a vigilância sobre os sintomas, medindo mais vezes a temperatura, por exemplo. Nesses casos, passados uns dias a autoridade de saúde local deve fazer um novo contacto de vigilância para saber se a situação se mantem.

Sendo assim, a grande maioria dos conselheiros seria considerado contacto de baixo risco. E isso mesmo garantiu o Presidente da República. “Não tive nenhum contacto de alto risco”, disse Marcelo, na segunda-feira à noite, esclarecendo que Lobo Xavier estava a 10 metros ou mais da cadeira presidencial. E não tendo contacto de alto risco não teria necessidade de ser testado.

Na mesma ocasião, Marcelo tentou contrariar a ideia de que tinha havido um tratamento de privilégio para os conselheiros de Estado por terem sido todos testados numa circunstância em que portugueses comuns não o seriam. Mas acabaria por reconhecer que ele próprio tem acesso a procedimentos que a generalidade dos cidadãos não tem.

“Aqui não há privilégio nenhum, há é o respeito de um conjunto de requisitos a que, infelizmente, o comum dos mortais não tem acesso, que é a possibilidade de testar tantas vezes em tão pouco tempo”, reconheceu Marcelo, avançando que tinha feito três testes em cinco dias: um na quinta (depois do Conselho de Estado, mas antes de saber do caso), outro no domingo à noite e outro na segunda-feira. O Presidente anunciou também que “para proteger os outros”, faz testes em média duas vezes por semana.

Os conselheiros de Estado mantiveram as suas agendas, com Marcelo, Costa e Ferro a participarem nas cerimónias do 5 de outubro; no mesmo dia, Rui Rio apresentou, no Porto, a sua estratégia para os fundos euros; e Cavaco Silva e Marques Mendes apresentaram na terça-feira o mais recente livro do ex-Presidente. Todos já com testes feitos e resultados negativos. Mas poderiam ter mantido a agenda na mesma, mesmo sem testes, pois seriam contactos de baixo risco.

Ana Catarina Mendes em isolamento

Já a presidente da Comissão Europeia cancelou a sua agenda até terça-feira, apesar de ter feito um teste negativo na quinta, dia 1, e outro na segunda, dia 5. “Há regras especificas para a União Europeia”, justificou o Presidente português.

“Fui informada que participei numa reunião, na terça-feira passada, onde estava uma pessoa que ontem [no domingo] testou positivo para a Covid-19. De acordo com os regulamentos adotados, estarei em auto isolamento até amanhã [terça-feira] de manhã", escreveu a líder do executivo comunitário na sua conta na rede social Twitter, na segunda-feira.

A presidente da Comissão também faz testes duas vezes por semana, às segundas e às quintas-feiras.

Diferente ainda é o caso da líder parlamentar do PS. Ana Catarina Mendes esteve com Lobo Xavier na quarta-feira, dia 30, durante pelo menos os 50 minutos do programa Circulatura do Quadrado, sem máscara e num local fechado, um estúdio de televisão, ainda que com algum distanciamento. Ou seja, teve um contacto mais recente e com muito mais risco.

Por isso, foi-lhe recomendado pelas autoridades sanitárias que ficasse em isolamento profilático, o que fez com que não estivesse esta quarta-feira no debate sobre política geral, com a presença do primeiro-ministro. Ana Catarina Mendes não tem quaisquer sintomas, mas já fez um primeiro teste, esta terça-feira, que deu negativo, e fará um segundo até ao fim da semana.