​Crimes políticos e espionagem
Inserido em 11-10-2018 06:39

O fim da guerra fria não acabou com os assassinatos de espiões e de pessoas que, por qualquer motivo, não agradam aos poderes políticos.

Quando acabou a guerra fria, que tinha sido recheada de episódios de espionagem e de assassinatos políticos mais ou menos encobertos, houve quem receasse o fim de livros policiais sobre espiões, como os de J. Le Carré. Mas este brilhante escritor britânico já escreveu novos livros. E infelizmente hoje não faltam casos nesta área obscura.

Não restam dúvidas sobre a multiplicação, a partir da Rússia ou por ela comandada, de interferências em processos eleitorais através da internet. Por esta via os russos influenciaram eleições nos Estados Unidos e na Europa – e certamente vão continuar a fazê-lo, apoiando as forças eurocéticas que querem acabar com a integração europeia. No princípio deste mês, agentes russos foram apanhados por uma unidade de contraterrorismo holandesa a tentar entrar na rede wireless da Organização para a Proibição de Armas Químicas, em Haia, quando esta tinha em mãos duas investigações envolvendo Moscovo, uma em Sainsbury, Reino Unido, e outra em Douma, Síria, anunciou o Ministério da Defesa da Holanda.

Em Sainsbury aconteceu a tentativa, falhada (porque o alvo e a sua filha acabaram por sobreviver), de a polícia secreta russa assassinar um “traidor” (nas palavras de Putin), isto é, um antigo agente do KGB que passou para o Ocidente, Sergei Skripal. Terão sido dois os autores do crime, um deles médico da polícia secreta russa – por isso conhecedor de venenos. Tinha, aliás, sido várias vezes condecorado por Putin (um ex-KGB, convém lembrar). Assassinatos desse tipo, mas não frustrados, já tinham acontecido em Londres.

Por outro lado, não é de excluir, até lendo Le Carré, que tenham sido liquidados por serviços secretos ocidentais espiões que passaram para a ex-União Soviética. Não foi esse o célebre caso de Kim Philby e de outros quatro ex-estudantes de Cambridge, recrutados pela secreta soviética no final dos anos 30. Kim Philby chegou a chefiar a extensão da secreta britânica nos EUA; mas ele e mais dois fugiram para Moscovo antes de serem denunciados. Ali morreram.

Vítimas de assassinatos têm sido, em número preocupante, jornalistas que investigam corrupção. No sábado passado foi encontrada morta uma jornalista búlgara que tinha um programa de televisão onde expunha suspeitas que incomodavam as autoridades, como desvios de fundos europeus. Foi preso na Alemanha um romeno, suspeito desse crime, mas, a confirmar-se, importará saber se alguém lhe encomendou o assassinato. Em fevereiro foi morto em casa um jornalista eslovaco que investigava as ligações do governo do seu país à máfia. Há um ano, em Malta, outro Estado membro da UE, foi também assassinada uma jornalista que investigava um aparente caso de corrupção.

Na Turquia desapareceu sem deixar rasto um jornalista saudita que foi ao consulado do seu país em Istambul por causa de uns papéis de que necessitava para se casar com uma mulher turca. Os serviços de segurança turcos sugeriram que o jornalista teria sido morto no consulado saudita. A ironia da situação é que Erdogan, o presidente todo poderoso da Turquia, se tem especializado na prisão de dezenas de jornalistas turcos. Entretanto, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, que tomou algumas medidas modernizadoras, como permitir que as mulheres conduzam automóveis, intensificou a repressão autoritária no seu país – pelo que a hipótese de homicídio no consulado não é absurda. Trump mostrou-se preocupado e fará alguma pressão sobre os seus amigos sauditas para que esclareçam credivelmente o assunto.

Em matéria de assassinatos políticos, destacou-se há dias, na Venezuela – que há muito deixou de ser um Estado de direito –, a morte de um destacado opositor a Maduro, “suicidado” na prisão. A ONU exigiu explicações ao governo de Caracas, mas de pouco servirá a exigência.

O caso mais intrigante e porventura mais grave foi a prisão, na China, do presidente da Interpol. Esta organização tem sede em Lyon, França, onde por isso residia um vice-ministro chinês, que era sobretudo presidente da Interpol desde há quase dois anos, Meng Hongwei. Este homem partiu de França para uma visita à China há duas semanas – e nunca mais deu sinal, o que inquietou a mulher, que alertou as autoridades francesas. Até que chegou à sede da Interpol uma carta de demissão de Meng Hongwei. E um porta-voz do governo chinês declarou que o agora ex-presidente da Interpol se encontra detido na China para averiguações sobre alegada corrupção. Por outras palavras, o homem caiu em desgraça perante o presidente Xi Jinping.

A prisão de personalidades consideradas hostis ao poder de Xi Jinping e a sua manutenção detidas em segredo durante longo tempo é uma prática desgraçadamente corrente na China. Há dias reapareceu uma atriz famosa na China, que desaparecera há três meses e foi acusada de fraude fiscal; para ser libertada teve que pagar uma soma considerável. O mundo continua perigoso.