Francisco Guerreiro: "Europa claramente desiludiu no combate às alterações climáticas"
15-05-2024 - 18:00
 • Alexandre Abrantes Neves , João Campelo (sonorização)

Francisco Guerreiro teme que o crescimento da extrema-direita dificulte a aprovação de medidas ambientais na Europa. Quanto aos protestos de jovens ativistas, o eurodeputado independente aponta o dedo à "incoerência" destes movimentos, mas critica que "muitas vezes" haja uma resposta "desajustada".

Montras de lojas partidas, estradas bloqueadas, líderes políticos atingidos por tinta verde e vermelha. Os protestos pelo clima têm marcado a atualidade nos últimos meses – de um lado, os jovens ativistas pedem para ser mais ouvidos nestes temas; do outro, muitas vozes dizem que estas formas de protesto não ajudam a causa climática.

Neste episódio do Geração Z da Renascença e da EuranetPlus, convidamos um eurodeputado e lançamos um punhado de questões para cima da mesa: afinal, há ou não razões para protestar? A União Europeia tem tido uma postura exemplar nesta matéria? E em Portugal? O que é que podemos esperar da próxima legislatura?

Francisco Guerreiro esteve cinco anos sentado no hemiciclo europeu. Eleito pelas listas do PAN, acabou a desvincular-se do partido em 2020, mas não abandonou o grupo dos Verdes Europeus.Uma legislatura europeia depois, Francisco Guerreiro considera que a Europa “claramente desiludiu” aqueles a quem prometeu ser uma referência no combate às alterações climáticas – principalmente, desde a pandemia e a guerra na Ucrânia.

O ainda eurodeputado relembra que, em 2019, “houve muitos debates e aprovação de legislação nesse sentido, nomeadamente com o Pacto Ecológico Europeu (PEE)”. Ainda assim, e nos últimos quatro anos, a Europa “não está a legislar a um ritmo adequado” para cumprir as metas do PEE.

Perante o diagnóstico da Agência Europeia do Ambiente – que avisou, no final de 2023, que a Europa pode não cumprir a maioria dos objetivos ambientais até ao fim da década –, Francisco Guerreiro é rápido a prescrever uma receita: são necessárias medidas para alterar a fundo o “sistema altamente ineficiente”, nomeadamente na agricultura, que “não tem de ser incompatível com o ambiente”.

“Basta olhar para o consumo portugueses para vermos que é uma impossibilidade física mantê-lo. Isto não quer dizer que se vá prejudicar os agricultores. Devemos dizer-lhes: ‘se quiseres mudar para segmentos de produção diferentes, nós temos este incentivo’. (...) Acho que muitos agricultores, depois de fazerem as contas, iam perceber que não têm nada a perder”, defende.

Quanto à próxima legislatura europeia, Francisco Guerreiro prevê “mais entraves à aprovação de medidas ambientais”, mas recusa que isto se deva ao facto de Bruxelas poder vir a dar mais prioridade a temas como a defesa ou o combate à inflação.

O deputado europeu aponta o dedo ao “populismo da extrema-direita” e aos restantes grupos políticos – não só ao Partido Popular Europeu por “estar mais importado em fazer alianças com os Conservadores Reformistas”, mas também à sua família política, os Verdes Europeus, que não consegue “explicar às pessoas que a economia está diretamente relacionada com a ecologia nas políticas de habitação e de distribuição da riqueza”.

Portugal podia estar "muito mais à frente" em política ambiental

A nível nacional, Francisco Guerreiro lamenta a “falta de visão a longo prazo” de Portugal, que impede o país “de estar mais à frente” em matéria de combate às alterações climáticas e que se reflete bem na dificuldade em tomar decisões relacionadas com o ambiente, como o novo aeroporto de Lisboa.

O deputado europeu espera, por isso, que o novo Governo adote políticas sobre temas que “muitas vezes não têm o devido destaque” do debate das alterações climáticas, como a proteção da biodiversidade.

Francisco Guerreiro acredita ainda que o perfil da ministra da Agricultura – que cumpriu dois mandatos como eurodeputada – vai ajudar a “compreender melhor a ligação com a União Europeia no que toca aos fundos europeus”.

“Se Portugal quisesse avançar muito mais em matérias climáticas, poderia fazê-lo desde que o fizesse no modo justo. Há uma ideia constante de que os ‘eurocratas’ mandam nos destinos de tudo e isso é um pouco falacioso. Muitas vezes o que acontece é que os Estados membros são os primeiros a travar porque têm determinadas indústrias que não querem que sejam”, explica.

Resposta aos protestos pelo clima é "desadequada"

Neste episódio do Geração Z, Francisco Guerreiro falou ainda dos protestos dos últimos meses, de movimentos como o Climáximo ou a Greve Climática Estudantil.

O eurodeputado compreende a “frustração de uma geração que não é responsável por esta crise e que vai ter de se adaptar”, mas deixa um aviso – “não pode haver incoerência nestes protestos”.

É muito fácil apontar o dedo (...) mas se nós olharmos, por exemplo, para o site destes grupos, nós não vimos uma medida estrutural para falar, por exemplo, da agricultura ou da urgência de reduzir drasticamente o consumo de produtos animais”, alerta.

Francisco Guerreiro também aplaude as formas de protesto alternativas adotadas por alguns jovens – por exemplo, a instauração de processos a Estados Europeus por “inação climática” –, mas relembra que isso “não pode substituir a luta nas ruas, principalmente com o crescimento da extrema-direita”.

O deputado europeu pede, por isso, que a reação aos protestos “não seja desajustada” – até para não criar um “sentimento de repulsa” para com a luta climática.

“Nos protestos de agricultores, ninguém foi preso. Estes jovens, quando bloqueiam uma estrada ou entre numa faculdade, são recebidos à pancada e, muitas vezes, são presos. [A resposta é] totalmente desajustada, da sociedade civil e das autoridades. Eu acho que tem de haver aqui uma grande sensibilidade dos agentes policiais em falar com estas pessoas e também com os agricultores. A maioria percebe a urgência de o fazer e que consigamos com esta maioria fazer esse exercício”, remata.