Cada partido a tentar defender a utilidade do voto no debate em que Costa se queixou de "levar pancada de todos"
17-01-2022 - 23:32
 • João Malheiro, com Lusa

Esquerda e Direita dividiram-se na política fiscal e na Saúde, num debate que começou por discutir cenários de governabilidade.

No debate desta segunda-feira entre todos os partidos com assento parlamentar, realizado na RTP, PS e PSD tentaram apelar ao voto útil, enquanto os restantes tentaram defender a sua respetiva utilidade do voto.

Esquerda e Direita dividiram-se na política fiscal e na Saúde, mas António Costa "levou pancada de todos", como se queixou, a certo ponto, ao moderador Carlos Daniel.

O primeiro tema foi mesmo o da governabilidade do país. Quais são os cenários pós-eleitorais que o país pode antecipar, depois da noite decisiva de 30 de janeiro?

António Costa foi chamado a esclarecer se rejeita um apoio do PSD, mas não deu uma resposta clara, apenas garantindo que "não vai virar as costas ao país", caso não alcance a tão desejada maioria absoluta. E a palavra que usou, desta vez, foi mesmo "absoluta".

E se perder as eleições? Demite-se na noite eleitoral, "com certeza".

Já Rui Rio apelou ao voto útil no PSD, explicando que estas eleições são uma escolha entre quem será o primeiro-ministro: ele próprio ou António Costa.

O social-democrata não acreditou num cenário de marioria absoluta e pediu disponibilidade para negociações a quem ganhar e a quem perder.

E, apesar de não antecipar o seu futuro no partido, caso saia derrotado, Rio garante que não está agarrado à presidência do PSD.

"Estou a cumprir uma missão", disse.

Catarina Martins contestou Rio: "Aqui não há uma escolha de primeiro-ministro, aqui vota-se para um parlamento e a maioria determinará o que é que existe no dia seguinte."

Em representação da CDU, o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, contrapôs que "a estabilidade de qualquer Governo não depende dos acordos e dos papeis que são assinados, depende da política que é executada" e manifestou disponibilidade "para convergir com todos aqueles que queiram convergir".

O cabeça de lista do Livre por Lisboa, Rui Tavares, voltou a defender "uma ecogeringonça" que seja "o mais ampla possível" e, ao contrário do BE, apontou como prioridade "procurar viabilizar um Orçamento" para 2022. "Não temos o luxo do tempo. É preciso viabilizar um Orçamento para criar espaço negocial e um Programa de Governo", disse.

O presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, mostrou-se disponível para "construir uma solução alternativa à esquerda" mesmo que o PSD não vença as eleições, se os partidos à direita forem maioritários no parlamento: "Inaugurou-se uma nova praxe parlamentar, e temos de dar mérito ao doutor António Costa, como de resto aconteceu com os Açores".

André Ventura, presidente e deputado único do Chega, repetiu que exigirá presença no Governo se o seu partido "tiver votação expressiva, acima dos 7%".

O presidente e deputado único da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, afirmou abertura para discutir com o PSD "uma alternativa de Governo", com "ímpeto reformista", mas sem certezas sobre o resultado: "Não sei se vai ser fácil ou não vai ser fácil".

Política fiscal divide partidos

Catarina Martins defendeu um sistema fiscal "justo" e apelou a um reforço dos apoios sociais.

A líder bloquista defende a redução do IRS e do IVA da eletricidade.

Mas Rui Rio "não concorda muito" e critica a governação socialista: “Quando distribuímos o que não temos, desequilibramos isto tudo".

O social-democrata garante quer fazer uma reforma, mas não uma revolução. "Não quero partir tudo. Quero fazer uma mudança", garante.

Já António Costa preferiu realçar os bons resultados já alcançados pelo seu Governo, apelando à continuidade.

"A economia cresceu sete vezes mais do que nos anos anteriores, temos mais meio milhão de portugueses empregados e o crescimento assentou no aumento do investimento privado que em 2021, em nove meses, investiram 21 milhões de euros, o que mostra confiança”, apontou.

Inês Sousa Real defendeu uma política "que estende a mão às pessoas" e pediu o fim dos estágios precários.

O PAN também pediu uma revisão dos escalões do IRS - um desdobramento dos escalões e uma redução na incidência da taxa.

Já a Iniciativa Liberal apontou que que Portugal "é o país da Europa ocidental com o salário líquido mais baixo".

João Cotrim Figueiredo apelou, assim, a um "sistema fiscal mais amigo do investimento".

Por sua vez, André Ventura disse que era preciso "moralizar para não termos quem quer fugir ao sistema e receber apoios sociais".

“É urgente olharmos para as famílias e para as pessoas”, afirmou o líder do Chega.

Rui Tavares atacou diretamente a IL por não esclarecer se a taxa única proposta pelos liberais "beneficiava os mais ricos".

"A progressividade dos impostos é uma questão de justiça", defendeu o candidato do Livre.

Costa e Rio trocam acusações na Saúde

Na Saúde houve uma maior divergência entre Esquerda e Direita, mas também uma troca de acusações entre António Costa e Rui Rio, relativamente à gratuitidade do SNS.

Rui Rio acusou António Costa de inventar uma narrativa sobre a posição do PSD para a Saúde.

"Queremos um SNS tendencialmente gratuito. Não há dúvidas", garantiu.

Já o atual primeiro-ministro voltou a insistir que os sociais-democratas querem que a classe média pague o SNS.

“Rui Rio pode jogar com as palavras mas apresentou um projeto de revisão constitucional para que o SNS deixe de ser tendencialmente gratuito”, criticou.

António Costa acusou ainda Rui Rio de ter "uma habilidade de disfarçar o que propõe o seu programa".

Francisco Rodrigues dos Santos defendeu a liberdade de escolha na Saúde, em que o Estado paga se o utente optar por se dirigir e critica o PS por não ter conseguido garantir um médico de família para cada português.

João Oliveira respondeu diretamente ao líder do CDS, dando o exemplo de um português que ficou dinheiro para tratar um cancro, depois de gastar 15 mil euros, e que teve de recorrer ao SNS.

"O SNS está a ser alvo de um processo de desmantelamento dia a dia”, apontou, ainda.

Já Catarina Martins elogiou os profissionais de Saúde, mas diz que não têm condições para trabalhar no SNS.

A líder bloquista criticou a direita de tentar enganar as pessoas e diz que todos os líderes dessa ala política estão "implicados no tempo da troika, com grandes cortes na Saúde".

Em resposta, André Ventura recusou qualquer culpa e criticou também António Costa por estar sentado no sofá relativamente ao SNS.

João Cotrim Figueiredo deu o exemplo de países como Alemanha e Holanda para defender o sistema de saúde que propõe para Portugal.

"São sistemas que têm proporcionado muitíssimo melhor qualidade de resposta", defende.

Por sua vez, Rui Tavares disse que não trocaria o SNS pelo serviço de saúde da Bulgária "que tem das piores taxas de vacinação da Europa" e voltou a criticar o modelo defendido pela IL.