Os “mal-entendidos”
27-08-2020 - 06:15
 • Francisco Sarsfield Cabral

Os meios sérios de comunicação social rejeitaram sem hesitações uma prática proibida pelo código deontológico dos jornalistas – a divulgação de algo cujo acesso não foi legal. Mas o caso também confirmou a impaciência do primeiro-ministro perante quem dele discorda ou faz perguntas “inconvenientes”.

Os meios sérios de comunicação social rejeitaram sem hesitações uma prática proibida pelo código deontológico dos jornalistas – a divulgação de algo cujo acesso não foi legal. Mas o caso também confirmou a impaciência do primeiro-ministro perante quem dele discorda ou faz perguntas “inconvenientes”.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, tem falado frequente e sensatamente sobre muitos problemas na área da saúde. Foi dele que partiu a iniciativa de solicitar um encontro com o primeiro-ministro, para tentar desanuviar um ambiente carregado, sobretudo depois de se saber que A. Costa teria classificado de “cobardes” médicos que, alegadamente, se teriam recusado a ir a um lar.

Ao fim de uma reunião de três horas com a Ordem dos Médicos, na passada terça-feira, o primeiro-ministro disse esperar que “todos os mal-entendidos” estivessem esclarecidos. Quem viu na televisão a cara do bastonário Miguel Guimarães não ficou com a ideia de ele estar satisfeito com as declarações de A. Costa. O que ontem se confirmou, numa carta do bastonário aos cerca de 50 mil filiados na Ordem, acusando o primeiro-ministro de ter um discurso em privado e outro em público. Concretamente, não tendo nas suas declarações públicas transmitido fielmente “aquilo que minutos antes tinha reconhecido” no encontro.

Ou seja, este mal-entendido não está encerrado. Mas teve, pelo menos, um aspeto positivo.

Como se sabe, o caso foi desencadeado por uma frase de António Costa, dita em conversa privada com os jornalistas do “Expresso” que o tinham acabado de entrevistar. Os meios sérios de comunicação social, a começar pelo próprio “Expresso” e incluindo televisões, rejeitaram sem hesitações uma prática proibida pelo código deontológico dos jornalistas, noticiar algo obtido ilegalmente. Aqui, na Renascença, a diretora de informação Graça Franco foi das primeiras vozes a assumir que não vale tudo para os jornalistas darem notícias.

É uma questão ética; e também está em jogo o respeito indispensável para manter a confiança entre os jornalistas e as suas fontes.

A posição responsável dos jornalistas não foi seguida pelas redes sociais. Era de esperar, pois na selva da internet a responsabilidade não é um valor apreciado. Por vezes, ali insultam-se pessoas a coberto do anonimato – o cúmulo da cobardia...

Passados alguns dias, tendo o caso entrado no espaço público, a generalidade dos “media” referiu que o primeiro-ministro tinha, em “off”, considerado “cobardes” médicos que, alegadamente, se teriam recusado a tratar doentes em lares. Esta crítica de A. Costa, que não deveria ter sido divulgada, confirma uma visível e crescente impaciência do primeiro-ministro face a perguntas agressivas de jornalistas e a opiniões discordantes. E a duplicidade denunciada ontem pelo bastonário da Ordem dos Médicos não prestigia o primeiro-ministro.

Talvez pressionado pela pandemia, António Costa está a perder a serenidade. Já começa a tratar mal jornalistas que fazem o seu trabalho, lembrando Sócrates, que procurou interferir nos “media” (TVI). É uma característica infeliz dos autocratas: o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán calou muitas vozes da oposição promovendo a compra de jornais e televisões por pessoas que o apoiam; Trump considera os jornalistas como seus inimigos pessoais; Bolsonaro insulta quem lhe faz perguntas, como é obrigação dos jornalistas, etc.

É vital que posições destas não se repitam entre nós, porque elas representam perigosos recuos na democracia. A atual promoção pelo governo e pelo PS de figuras ligadas à desastrosa governação de Sócrates não inspira confiança nesta e noutras matérias.