"Inverdades", "imaturidade" e "extrema-direita fofinha". Migrantes e Ucrânia agitam debate a 8 para as europeias
28-05-2024 - 00:40
 • Ricardo Vieira

Ao longo de mais de uma hora e meia, os candidatos do PS, AD, Chega, Iniciativa Liberal, Bloco de Esquerda, CDU, Livre e PAN trocaram argumentos na RTP rumo às eleições de 9 de junho.

O polémico Pacto das Migrações, as novas regras orçamentais da União Europeia e o crescimento da extrema-direita, mas também a Ucrânia e a guerra em Gaza, marcaram o debate desta terça-feira na RTP com os oito cabeças de lista às eleições europeias dos partidos com assento parlamentar.

Ao longo de mais de uma hora e meia, os candidatos do PS, AD, Chega, Iniciativa Liberal, Bloco de Esquerda, CDU, Livre e PAN trocaram argumentos rumo às eleições de 9 de junho.

A socialista Marta Temido admite que este não seria o Pacto das Migrações que o PS assinaria em condições normais, mas acabou por aprovar porque "com a alteração do contexto político que se prefigura as coisas vão ficar ainda mais complicadas". A antiga ministra acusa que quem fala na revisão do Pacto, como a AD, "está a pensar que vai colocar os migrantes no Ruanda, como diz o Partido Popular Europeu, ou vai construir muros?"

Sebastião Bugalho, da AD, admite que é preciso "melhorar" o Pacto das Migrações e acusa Marta Temido de dizer "inverdades" sobre a posição da Aliança Democrática nesta matéria de imigração. "A Dra. Marta Temido disse que éramos a fazer da política do Ruanda. Como podem ver nesta notícia, nós somos contra a política Ruanda. Sabe quem é o autor dessa política? O governo socialista da Dinamarca. Sabem quem tem muros físicos em Espanha? O governo socialista."

O candidato do Chega, António Tânger Corrêa, considera que o Pacto das Migrações "é uma armadilha porque obriga países a receber um determinado número de migrantes". Cada país é que deve determinar a imigração que quer e que precisa, defende.

Tânger Corrêa considera que a imigração é uma "bomba relógio", Portugal tem as portas abertas e relaciona a chegada de estrangeiros com criminalidade e violência: "Estive ontem em Vila Nova de Mil Fontes, no Alentejo. Recomendo aos meus colegas de painel que vão lá e falem com as pessoas que têm medo, que vivem aterradas e que têm de sair de Vila Nova de Mil Fontes e de outros sítios no Alentejo porque não têm condições de vida".

O diplomata diz que um terço dos imigrantes registados em Portugal, em 2022, vivia em risco de pobreza. "O que é que a pobreza gera fundamentalmente? Violência. Temos que tomar cuidado com isso. Temos que ver quem queremos em Portugal. As pessoas que são necessárias, com certeza. Em excesso...", defendeu Tânger Corrêa.

João Oliveira, da CDU, acusou Tânger Corrêa de defender "conceções antidemocráticas, racistas, xenófobas, que associam a pobreza à violência, a imigração à criminalidade". "Quem é que quer viver num país destes que o Chega quer construir? O Chega quer construir um país de ódio, onde as pessoas olhem para as outras desconfiadas e com medo. Nós queremos o oposto disto", sublinhou o cabeça de lista da CDU.

João Oliveira critica o Pacto das Migrações, considera que o Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas europeus "escancaram as portas à ideologia xenófoba e racista da extrema-direita" e acusa a União Europeia de financiar países que "despejam migrantes no deserto".

João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, defende que é preciso resolver o problema dos migrantes sem-abrigo e que "as regras que já existem devem ser aplicadas", nomeadamente a prova de meios de subsistência dos imigrantes para viverem em Portugal. Outro problema é o preenchimento no sistema automático de pré-agendamento para a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) sem verificação dos dados por falta de recursos. O antigo deputado considera que o Pacto das Migrações não é o ideal, mas é melhor do que o que havia.

Pelo Bloco de Esquerda, Catarina Martins considera prioritário investir em canais seguros de imigração e na integração e alerta para as consequências humanas do Pacto das Migrações, que PSD e PS "lamentam, mas votaram a favor".

A candidata bloquista responde ao Chega para dizer que "não há portas escancaradas" à imigração - "só aos Vistos Gold" - e acusa a extrema-direita de "criar uma falsa guerra contra os imigrantes".

Visita de Zelensky. "Dia de festa"?

Em dia de visita de Volodymyr Zelensky a Portugal, a guerra na Ucrânia foi outro dos temas do debate entre os oitos candidatos às eleições europeias dos partidos com assento parlamentar.

Sebastião Bugalho, da AD, disse que a deslocação do Presidente ucraniano a Portugal foi um "dia de festa para a democracia portuguesa", que "demonstrou que está do lado da paz, da Europa e da solidariedade com o povo ucraniano".

A CDU e o PS criticaram a "ligeireza" com o cabeça de lista da AD abordou o tema. "Sebastião Bugalho disse que a visita de Zelensky é dia de festa e eu não posso deixar de ficar muito incomodada por isso, porque acho que é uma manifestação de imaturidade. Ficamos contentes com a visita [de Zelensky], mas o Presidente de um país em guerra que vem a outro país pedir ajuda é dia de festa? Isso é de uma imaturidade brutal", afirmou a candidata socialista Marta Temido.

Sebastião Bugalho respondeu que "claro que celebro com ele e espero celebrar com ele a vitória ucraniana".

Sobre a utilização de armas europeias contra alvos na Rússia, o cabeça de lista da coligação PSD-CDS-PPM e a candidata do PS considera que a "linha vermelha" são alvos civis.

Marta Temido referiu, também, que o acordo assinado esta terça-feira entre o Governo de Luís Montenegro e a Ucrânia "poderia ser eventualmente mais generoso".

João Cotrim Figueiredo considera que "o apoio de Portugal à Ucrânia deve ser incondicional" para travar Putin e impedir que a Rússia continua uma política de expansão territorial. "Os valores europeus estão em causa nesta guerra e não podemos vacilar no apoio", sublinhou.

Em sentido contrário, o candidato da CDU opõem-se ao envio de mais armamento para a Ucrânia e a uma escalada da guerra. "Apoiar verdadeiramente apoiar a Ucrânia era a UE e Portugal empenharem-se na paz. Um acordo de paz não é um acordo de rendição nem de derrota. Insisto nas palavras do Papa: que loucura é esta para onde nos estão a empurrar? Estamos a falar de potências nucleares envolvidos numa guerra", alertou João Oliveira.

Tânger Corrêa, do Chega, diz que "para fazer paz é preciso ter força e "uma Ucrânia em estado de fraqueza não pode negociar a paz" com a Rússia.

A bloquista Catarina Martins diz que nada a "choca mais do que os generais de sofá que tão facilmente querem mandar os filhos dos outros para a guerra e temos visto isto na Europa". A UE deve apoiar a Ucrânia, mas “nunca para fazer uma escalada que leve a uma guerra nuclear”.

Pedro Fidalgo Marques, do PAN, defende o direito da Ucrânia à autodefesa, mas uma incursão de tropas de Kiev em território russo "seria um erro".

O candidato do Livre, Francisco Paupério, defende uma atuação de acordo com o Direito Internacional e o uso de armas pela Ucrânia também deve ser escrutinado para não atacar alvos civis. "O povo ucraniano deve decidir quando e como acaba esta guerra, cabe-nos a nós apoiar, mas sempre com escrutínio quando falamos da indústria militar e de uma escalada do conflito", sublinhou.

Portugal deve reconhecer Palestina?

Espanha, Noruega e Irlanda reconheceram esta semana o Estado da Palestina, mas o Governo português prefere esperar por uma posição conjunta da União Europeia.

Sebastião Bugalho considera que Portugal deve reconhecer a Palestina "o mais depressa possível, no quadro mais multilateral possível" e Marta Temido diz que "sozinhos não, mas não podemos esperar por todos".

Bloco de Esquerda, CDU, PAN e Livre defendem que Portugal já devia ter reconhecido o Estado palestiniano, numa altura em que continua a guerra na Faixa de Gaza. Catarina Martins assinalou o facto de a UE começar a discutir a possibilidade de aplicar sanções a Israel.

Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, é favorável, mas com duas condições: a Autoridade Palestiniana deve ficar a gerir a Palestina e grupos terroristas, como o Hamas, devem ficar de fora.

Tânger Corrêa considera que reconhecer a Palestina neste momento "é completamente errado", apesar de o Chega apoiar a existência de dois Estados palestiniano e israelita.

Von der Leyen e a "extrema-direita fofinha"

No debate desta terça-feira transmitido pela RTP, o candidato da AD desafiou a adversária socialista a apoiar Ursula von der Leyen, recandidata do PPE (centro-direita), na corrida à presidência da Comissão Europeia, numas eleições europeias que podem ficar marcadas por um crescimento da extrema-direita.

"Se concordamos que temos que defender a democracia e a paz na Ucrânia, a única forma disso acontecer respeitando as linhas vermelhas é saber porque é que a Dra. Marta Temido não apoia Ursula von der Leyen", questionou Sebastião Bugalho.

Na resposta, Marta Temido argumentou que a candidata do PPE a presidente da Comissão Europeia admite negociar com partidos com ideias radicais e sublinha que "não há uma extrema-direita fofinha e palatável" e o PS apoia Nicolas Schmidt, "de quem nos orgulhamos muito".

Nesta discussão sobre famílias europeias, o Chega integra o Independência e Democracia (ID), mais à direita no Parlamento Europeu. Tânger Corrêa diz que depois das eleições europeias se verá como é que a direita se vai rearrumar em Bruxelas e rejeita divergências com André Ventura sobre esta matéria.

Catarina Martins, do BE, deixa críticas a Von der Leyen, que "negoceia com extrema-direita a sua permanência na Comissão Europeia", e aos liberais, "que aceitaram integrar um governo liderado pela extrema-direita na Holanda".

Na réplica, Cotrim Figueiredo acusa Catarina Martins de se esquecer da posição do Partido Liberal Europeu, que condenou e abriu um processo de eventual suspensão do VVD" dos Países Baixos e de dos tempos em que, na Grécia, "o Syriza tinha um acordo com os Gregos Independentes, um partido xenófobo antissemita, nacionalista, anti-imigração". "Está engando", respondeu a candidata do Bloco.

Cotrim Figueiredo sublinha que o Partido Liberal Europeu não apoiará Von der Leyen, se a recandidata alemã fizer uma aliança com os Conservadores Reformistas (ECR).

Para a CDU, nas eleições de 9 de junho a escolha será entre extrema direita+liberalismo e a "uma Europa dos trabalhadores e dos povos", que garanta emprego, salários dignos, e direito à habitação, educação e saúde. Quem paga? "Podem ser as multinacionais que têm acumulado lucros e lucros", disse João Oliveira.

Francisco Paupério, do Livre, considera que a "deriva" de Ursula von der Leyen "não é de agora" e espera que a presidente da Comissão Europeia "volte ao espaço democrático e à transição climática".

Pedro Fidalgo Marques, do PAN, também deixa críticas à atual presidente da Comissão Europeia e mostra-se preocupado com a ascensão da extrema-direita na Europa: "As pessoas estão descontentes, mas o voto nas forças de extrema-direita vai ser um retrocesso nos direitos. O voto tem que ser em forças responsáveis e credíveis, como o PAN".