Escravatura, assédio, pais incógnitos. A mulher na fábrica antes do 25 de Abril
01-05-2024 - 18:15
 • Liliana Carona

Abuso, assédio, perseguição, escravatura, pais incógnitos: antigas operárias têxteis recordam como era trabalhar numa fábrica de lanifícios na região da Serra da Estrela, antes do 25 de abril. Relatos, agora sem medo, que recordam como ainda meninas de 10 e 13 anos começaram a urdir.

Há muitas ruínas de fábricas na Serra da Estrela, algumas ainda com bidons cheios de tinta e aquele cheiro químico que nunca mais desaparece. Só os ruídos não existem mais, senão na memória de Fernanda Costa, 69 anos, 35 como operária da extinta sede da fábrica Fisel/Beiralã, do concelho de Seia. Começou a trabalhar aos 14 anos, mas antes já ajudava os pais no campo. As brincadeiras ficaram num passado muito distante.

A ideia era levar um ordenado para casa “porque a agricultura dava muito pouco”, recorda Fernanda Costa.

“Naquela altura, nós não tínhamos terras nossas, as terras eram dos grandes senhores das terras. E nós tínhamos de pagar parte daquilo que cultivávamos a esses senhores. E daí surge já a minha grande revolta, eu sentia-me já revoltada de ter de ir levar tanto a quem nada fazia”, lamenta a antiga operária fabril, que fez um curso de cerzir, de oito meses, para entrar na unidade têxtil.

“Fazíamos esse curso de oito meses, ganhávamos sete escudos e 500 [7,5 escudos] e davam-nos 25 tostões para o transporte. A minha tarefa era os cortes, cerzir os cortes. Os cortes saíam dos teares, vinham para nós, para tirarmos as imperfeições e metermos as faltas que eles tinham ou buracos. Nessa altura, trabalhava umas nove horas. Havia alturas que nos era pedido também para fazermos horas. Havia muitas encomendas”, conta à Renascença.

No ano de 1930, o setor têxtil em Portugal, que viria a beneficiar da conjuntura bélica internacional, com a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e a II Guerra Mundial (1939-1945) - diminuição da concorrência externa e necessidade de fardamentos militares -, tinha 877 fábricas que empregavam 37.917 operários, sendo que, numa estatística industrial de 1943, referida pela investigadora Elisa Pinheiro, o lugar de destaque no contexto nacional pertencia à Covilhã: 132 fábricas, de um total de 404, o equivalente a 33% das fábricas de Portugal e a 40% dos trabalhadores de lanifícios do país.

A região da Serra da Estrela, abrangendo a Covilhã, Guarda (62 empresas), Seia (18 fábricas) e Gouveia (15 fábricas), era o principal centro de lanifícios do país. Atualmente, segundo a ANIL - Associação Nacional dos Industriais de Lanifícios, há mais de 40 unidades instaladas no país, empregando cerca de 3 mil pessoas. A curta-metragem documental “TRAMA” de Luísa Neves Soares, de 2014 recupera literalmente as memórias das mulheres nas fábricas, a partir das fichas profissionais deixadas ao abandono nas ruínas.

Se brincassem, eram multadas ou perdiam subsídio de alimentação

“Éramos umas crianças, havia quem entrasse com 10, 11 anos. Se brincássemos, tínhamos uma multa ou tiravam-nos o subsídio de alimentação. Não era brincadeira. Ou seja, dos sete e meio que ganhávamos, já não levávamos quase nada”, denuncia Fernanda Costa, relembrando a rotina que passou a ter aos 14 anos.

“Eu vinha para a fábrica, saía de casa às cinco da manhã. Nós picávamos o cartão, tínhamos de picar um bocadinho antes das seis horas. E íamos para o nosso posto de trabalho. Por muitos anos, muitos anos, estive sempre neste posto de trabalho. Sempre nos cortes, sempre. Já éramos uma família que ali estava. Entrámos para lá criança. Depois, a nossa juventude, depois começámos a namorar, casámos. E fomos ficando. E quando saímos, já saímos um bocadinho do meio dia para a noite”, ironiza.

Do dia para a noite, Zélia Amaral, 67 anos, de São Martinho, passou dos 13 anos da infância para a vida adulta, ao entrar na Fábrica Vodratex, no concelho de Seia. Tem nas mãos, toda a documentação que lhe foi entregue ao integrar a fábrica. “Trabalhei desde os 13 até aos 42, altura em que fechou a Vodratex. Este documento era de quando íamos ao médico. E tenho aqui as consultas todas de irmos ao médico. Tudo aqui marcado. E do meu trabalho de cerzideira davam-me bom, bom, bom, bom. Não tenho outras fotografias, só estas dos cartões de trabalhadora. Lá não deixavam tirar fotografias. Aquilo era uma repressão. Cuidado com eles. Cuidado com quem mandava, não era o patrão, eram os mestres e os encarregados”, considera a operária fabril.

Zélia ainda guarda a primeira cédula profissional, assim como o boletim dos exames médicos que teve de realizar para que com 13 apenas e a 4ª classe, começasse a trabalhar na fábrica de lanifícios, com uma rotina exigente.

“Faziam-se lá três turnos. Um das seis e meia às três. Outro das três e meia às onze e meia. Uma semana era um de manhã, outra semana era um de tarde. E outro das oito às cinco e também à meia noite, sempre a trabalhar”, descreve Zélia, insistindo nos maus tratos que recebia dos mestres.

“Os mestres refilavam muito connosco. Nós éramos umas crianças. Eu fui para lá com 13 anos, fui para as ‘metedeiras’ e às vezes tínhamos de acartar os cortes de um lado para o outro. Nós íamos com o corte às costas, aqui assim no ombro. E os senhores mestres iam com um papel ao lado, mais velhos do que nós”, descreve.

“Tínhamos meia hora para o almoço, íamos às seis da manhã. Eu vinha a pé de São Martinho para Vodra. Quer chovesse, quer nevasse. Chegávamos lá todas molhadas, tínhamos de nos enxugar como podíamos, com outros farrapos que para lá andavam perdidos. Mas muita coisa que lá acontecia, eram os mestres que não respeitavam as crianças que iam para lá. E nós éramos umas crianças com 13 anos. E então a gente nem podia com os cortes. Nem podia com os cortes”, salienta, explicando o ofício.

“Quando a fazenda era tecida, e às vezes ficavam aquelas falhas, porque ali tinha muitos arames, a metedeira metia os fios que ficavam nessas falhas. Tinha o urdido, que era ao comprido, e tinha a trama, que era a atravessar. E nós, com uma agulha, não era uma agulha qualquer, era uma agulha especial, com dedal, metíamos aquele fio”, exemplifica com o material que ainda guarda até hoje. Zélia Amaral recebia de ordenado quatro contos e entregava aos seus pais.

“Os meus pais trabalhavam no campo, cada um com a sua junta de bois. E nós, porque o campo não dava nada, para governar seis filhos, a nossa féria é que ajudava”, relata sobre a sua infância na fábrica.

Mulheres não podiam usar calças e trabalhavam com medo

Correu as secções todas, teceu, trabalhou no tricô, enrolou e fez novelos. Zélia Amaral nunca se queixou, até porque não podia.

“Havia um dialeto próprio dos lanifícios, até porque não podíamos refilar. Tínhamos medo. Se às vezes lá chegássemos...um bocadinho atrasadas, porque íamos a pé, tiravam-nos logo o subsídio da alimentação. Já não recebíamos”, lamenta.

Zélia recorda o dia em que a colega de secção ficou ao portão da fábrica. “Era uma rapariga nova, muito vaidosa, de Loriga, que veio de calças, os senhores guardas não a deixaram entrar. Ficou à porta. Os mestres é que estragaram muitas vezes a fábrica. Nós não podíamos denunciar. Tínhamos de nos calar. Eles chegavam às máquinas. Tinham lá aquela maneira de pôr as máquinas com a rotação toda. Nós não aguentávamos as máquinas a trabalhar, era escusado. Além de sermos novas, não aguentávamos aquilo a trabalhar. Nem que quiséssemos fazer mais. E melhor não podíamos. Muitas vezes lá chorámos, muita lágrima e com fome. Só tínhamos meia hora para vir cá fora. E cinco minutos antes já tínhamos de estar na máquina para trabalhar”, pormenoriza a operária de São Martinho.

Zélia Amaral não tem outra forma de classificar o que viveu na fábrica onde trabalhou até aos 42 anos: escravatura é a palavra que lhe ocorre. “Pois, coitadas, as mulheres eram mais prejudicadas, nem podiam comer, nem podíamos chupar um rebuçado. Os próprios mestres, para subirem de posto, para receberem mais, escravizavam as mulheres. Era escravatura. Era escravatura mesmo, mesmo. E mais, carregavam-nos a nós umas crianças, com o corte, com 50 metros de fazenda, ainda pesava para uma criança, e os mestrezitos iam ao lado com um papel”, sublinha.

Assédio sexual era uma realidade

Da escravatura ao assédio. Zélia Amaral olha para trás e percebe com nitidez que as atitudes dos mestres e encarregados para com as mulheres, constituíam assédio sexual.

“Passavam por nós e mexiam-nos, logo assim, davam-nos beliscões, na nádega, assim, na nádega. E eu também tive isso. E já era assim, crescidinha e tratava-os mal, e às vezes punham-me de castigo. Houve um mestre que andou muito tempo sem me falar. Punham-nos ao portão. E depois só entrávamos quando o patrão chegasse e entendesse que nós devíamos entrar. Nunca esquecemos essas memórias”, diz, visivelmente perturbada com as recordações que partilha.

Quando faziam o turno entre as 7 da tarde e as 7 da manhã, as meninas, crianças, tinham sono, mas se dormissem eram castigadas. Perdiam parte do salário ou o subsídio de alimentação. Zélia Amaral só queria ter um “mês bom”.

“Um mês bom era quando nós chegávamos ao fim do mês e levávamos a fériazita aos nossos pais, íamos tão contentes porque os nossos pais trabalhavam no campo, cada um com a sua junta de bois e nós tínhamos de trabalhar e então era uma alegria imensa quando levávamos o ordenado completo aos nossos pais para eles governarem a vida e se orientarem”, afirma Zélia, sem deixar de lembrar que nem sempre eram meses bons.

“Quando fazíamos alguma coisa, tiravam-nos logo o dinheiro, quando nos atrasávamos cinco minutos, tiravam-nos o subsídio de alimentação e ainda uma hora, não era só o subsídio de alimentação. E nós ao fim do mês não éramos senhoras do nosso dinheiro, os nossos pais é que o tinham, porque era assim a vida, era a pobreza”, conclui.

“Eu comecei a rezar o terço em volta da máquina”

Homenageadas publicamente pelo Movimento Estrela Viva, no Conservatório de Música, em Seia, no passado dia 20 de abril, as mulheres operárias dos lanifícios da Serra da Estrela, partilharam as histórias e relatos de quem viveu as agruras da falta de direitos laborais, antes da Revolução do 25 de Abril.

Joana Viveiro, do Movimento Estrela Viva, explica que o motivo da organização da iniciativa “foi realizar uma homenagem particular às mulheres operárias dos concelhos de Gouveia e Seia”.

“Quisemos fazer esta homenagem porque vivemos tempos estranhos, e estes tempos têm nos mostrado que infelizmente não há direitos perpetuamente adquiridos, tudo é reversível, e em particular os direitos das mulheres e relativamente à igualdade de género”, destaca Joana Viveiro.

O Movimento Estrela Viva é um grupo informal de cidadãos com ligações à Serra da Estrela e regiões limítrofes que surgiu após os incêndios de outubro de 2017, com a missão de proteger e valorizar o território através de ações de preservação da natureza e de desenvolvimento do meio rural.

A homenagem começou com a leitura do poema ‘Calçada de Carriche’ de António Gedeão e aos primeiros versos “Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada”,

Maria do Céu Ferreira, 77 anos, sindicalista toda a vida, lembrou-se da sua mãe. “A minha mãe ia sempre a correr para a fábrica. Sempre, sempre, sempre a correr. Aliás, o guarda já sabia que ela era a última a entrar. Porquê? Porque não era fácil ter três filhos, viver longe, vir a casa fazer almoço. Era realmente uma vida de muito trabalho. Uma vida muito, muito difícil”, considera Maria do Céu, que trabalhou na Sociedade Industrial de Gouveia de 1963 a 1981 (data de encerramento).

Foi a ver a mãe e as dificuldades sentidas que Maria do Céu quis seguir-lhe os passos e lutar pelos direitos das mulheres dentro e fora das fábricas de lanifícios.

“Eu sentia que tinha de fazer alguma coisa. Eu quando vou para a fábrica, a minha mãe não queria, mas eu sentia que eu tinha de ir para a fábrica porque era lá o meu lugar. E comecei a reivindicar, a fazer coisas junto das pessoas”, defende, realçando aquela que foi a “primeira história”.

“Eu comecei a rezar o terço em volta da máquina. Imaginem. E... da mesma forma que eu rezava o terço, também ia à frente dela pedir ao patrão que isto não podia ser. E aí as coisas começaram a complicar-se. Bem, e é evidente que eu não tinha a noção que cada pessoa que subisse ao sindicato, imediatamente o patrão sabia no outro dia”, recorda Maria do Céu, que começou a trabalhar aos 16 anos.

“Eu fui mais tarde, apenas aos 16 e voluntariamente, porque a minha mãe não queria que eu fosse para a fábrica. Mas fui porque queria ajudar a família, o salário fazia falta, mas também porque achava que como católica, eu tinha de fazer a minha dimensão social do catolicismo, tinha de estar junto daqueles que precisavam. Sindicalizei-me logo que fui para a fábrica, porque antigamente era obrigado, o Sindicato Cooperativo, imediatamente sindicalizavam as pessoas, mesmo que as pessoas não quisessem. Era um sindicalismo perverso”, esclarece a antiga sindicalista, referindo-se à dificuldade em fazer greve ou outras formas de luta.

“As máquinas eram mais respeitadas do que nós”

Maria do Céu Ferreira sabia que existia assédio sexual dentro das fábricas de lanifícios, apesar de nunca ter vivido na primeira pessoa. Enquanto sindicalista observou que os “direitos das mulheres eram poucos ou nenhuns” e dá exemplos. “A mulher é que tinha de fazer tudo em casa. A mulher cuidava dos filhos, cuidava do jantar, cuidava do almoço, fazia tudo e ainda ia para o campo. O homem, em alguns casos, ajudava. E realmente o assédio, junto da mulher, era uma coisa terrível. mas é evidente que era preciso ter alguma estrutura por trás que me permitisse dizer isto. Eu muitas vezes dizia, nem que tenha de ir lavar pratos, hei de arranjar emprego. Não tem de ser a fábrica”, defendia a operária fabril.

Maria do Céu nunca teve medo, mas sentia o receio das colegas em ter voz. E por isso falava por todas. “Por exemplo, quando começou a vir o fio fino, para fazer tecido, portanto, que não eram de lã, as máquinas tiveram de ter um ambiente mais húmido. Por exemplo, tinham de ter ar condicionado. Eu achava uma parvoíce. Portanto, as máquinas eram mais respeitadas do que éramos respeitadas nós. Tínhamos de meter cavacos em cima de um bidon, para nos aquecermos”, relembra Maria do Céu Ferreira, contando ainda que "não tinha mais do que 20 minutos para a pausa de almoço, porque tinham de picar o cartão, comer, voltar a picar o cartão, e estar na máquina antes de perfazer os 30 minutos do horário da refeição". Também na maternidade, a antiga sindicalista observa que "as mulheres que trabalhavam nas fábricas, quando engravidavam, não tinham direitos, não havia regalias. As mulheres pariam e iam trabalhar”, destaca.

“Eu sou uma neta incógnita de um administrador de uma empresa”

E recordando a maternidade, Maria do Céu, denuncia outra realidade esquecida, os filhos e os netos de pais e avós incógnitos. Ela que fala na primeira pessoa. “Esta questão dos filhos incógnitos, eu sou uma neta incógnita. O meu avô era um administrador de uma empresa. E eu tive noção disso, muito depois do 25 de Abril. Portanto, isto não era uma coisa falada em casa. E nós também éramos pequenos, portanto não era percetível. Mas, por exemplo, a minha avó dizia: ‘avô sem dor’. Portanto, é um avô que não pariu, porque não era pai. Era algo que estava ocultado, que as pessoas não denunciavam. Não sabiam. Só que eu, quando o meu irmão mais novo nasceu, que tem menos de 10 anos que eu, é que eu ouvi: é as trombas chapadas do teu avô. E a minha mãe contou-me. E de certo modo, eu hoje sinto que ela, foi protegida na fábrica, e a minha avó também, por essa situação”, assume.

O advogado Vítor Moura, antigo deputado na Assembleia da República na VIII Legislatura (1999-2022), natural de Loriga, confirma essa mesma realidade, dos filhos e netos de pais e avós incógnitos, no contexto das fábricas de lanifícios. Eu nunca vivi no setor, simplesmente nasci numa terra de filhos de pais incógnitos durante toda a juventude. Os pais incógnitos acabaram oficialmente, com a alteração do Código Civil e a proibição de alguém ser registado na Conservatória, sendo filho de pai incógnito, portanto pode ser pai desconhecido, mas nunca de pai incógnito”, explica Vítor Moura, deixando um alerta. “É uma realidade que eu acho que merecia uma investigação, há poucos, mas ainda há alguns e é das coisas mais marcantes que anatemizou muitos daqueles jovens e que os marcou profundamente. E era fruto desta realidade que se vivia nestas fábricas, de mão de obra intensiva, em que as mulheres, além de exploradas em termos laborais, eram vítimas de outra exploração, de ficarem com o seu corpo à disposição de quem mandava, não só dos patrões, mas também dos mestres e de tantos outros e de alguns encarregados”, detalha o advogado.

Mais de 50% de trabalhadores eram mulheres

Em 1973, o então Sindicato Cooperativo do distrito da Guarda e Viseu reivindicava mil escudos para todos os trabalhadores e na Covilhã, os operários fizeram uma greve de mais de 26 dias, com esse propósito. “Nós não fizemos uma greve durante tanto tempo por causa da grande divisão que o Salazar fez, depois de em 1933 ter instituído o Sindicato Cooperativo. Havia uma sede em Gouveia, um sindicato em São Romão, em Loriga havia um sindicato em Vila Cova, havia um sindicato na Guarda e outro nos Trinta. Quem nomeava os dirigentes sindicais era o patrão, não era um trabalhador, nem eram eleitos. Eleitos, só a partir de 1969”, conta a antiga sindicalista Maria do Céu Ferreira, sem deixar de observar a solidariedade que existia no setor. “Quando fui fazer o 2º ano do liceu, as minhas colegas diziam-me: Vai para a casa de banho, que a gente toma conta da tua máquina. Na década de 60, a maioria eram mulheres. Nós tínhamos 6 mil operários, inscritos no Sindicato Cooperativo do distrito da Guarda e Viseu. Mais de 50% eram mulheres. Em 1961, com a guerra colonial e com a emigração, há o fluxo de mulheres para a fábrica”, elucida.

As fábricas de lanifícios referidas nesta reportagem, já não existem, mas as recordações das rotinas profissionais das mulheres continuam a ter voz. Cantar era e continua a ser a salvação para espantar os males. “Chama-se o grupo Geração em Ação”, aponta Zélia Amaral, em cima do palco, aquecendo a voz. “Nós na fábrica cantávamos muito, todas. Às vezes chegava lá o patrão e dizia: qual é o conjunto que se está a tocar hoje?”, relembra a ex operária. “É certo que nós sofremos lá um pouco um pouco muito, mas também tínhamos amor àquilo que fazíamos e também queríamos deixar para aqueles que viessem”, acrescenta a colega Fernanda Costa.