O malthusianismo climático
17-11-2021 - 06:46


Por uma vez, sou capaz de concordar com a jovem Greta Thunberg: a cimeira do clima reunida em Glasgow produziu bastante “blá, blá, blá”, e deixou uma sensação diversamente caracterizável, de desapontamento, esperança frustrada, ceticismo ou desânimo. A Diretora-geral da Greenpeace declarou que os resultados tinham sido “fracos”, e que “a meta dos 1,5ºc está apenas viva, mas enviou-se um sinal de que a era do carvão está a acabar”. É dourar a pílula e encaixar, quanto possível, a posição da Índia que, ao correr do pano, lá apareceu na Escócia para dizer que irá reduzir (o que é diferente de abandonar) o uso motriz do carvão. E António Guterres, procurando reger uma orquestra desafinada, veio enunciar o óbvio: que “o nosso planeta está por um fio” e que “ainda estamos a bater à porta da catástrofe climática”.

Infelizmente, talvez o Secretário-geral da ONU tenha razão. Alguém poderia, acerca da evolução climática, escrever uma profecia apocalíptica como a que Thomas Malthus traçou, a propósito da população, em 1798. Recordemos: a progressão demográfica era exponencialmente maior do que a progressão dos recursos para a alimentar. O malthusianismo tinha diante de si economias agrárias de antigo regime e de limites insuperáveis; entretanto, a generalização da revolução agrícola, industrial e comercial veio aumentar imenso o universo dos recursos e o apocalipse de fome e de deperecimento demográfico global não se realizou – felizmente.

Confrontados com a progressão pessimista das alterações climáticas, estamos hoje como Malthus perante a população há mais de dois séculos: a deterioração do clima, as catástrofes naturais e o aquecimento global progridem a um ritmo tão rápido e, pior, tão incontrolável, que a escassez de toda a sorte de recursos (ar respirável, água potável, terra arável, clima aceitável) parece ser o nosso horizonte, ou o da futura humanidade. O drama é que não está em curso nenhuma evolução que venha a introduzir variáveis corretoras salvíficas. Dito de forma crua, o mundo precisa de mudar de estilo de vida, de preservar águas e florestas, de abrandar o consumo, de arrefecer as temperaturas, de purificar os céus e o ar (a pandemia fê-lo, mas quem é que quer viver em pandemia?). O problema é que os ricos não querem abrir mão de um nível de vida que se sustenta, muito precisamente, na exploração intensiva de recursos naturais, e os pobres argumentam que só poderão pensar em “economia verde” quando se tiverem desenvolvido ou se os mais abonados quiserem pagar os caríssimos modelos de transição energética.

Mesmo que existam todas estas vontades – o que é muito duvidável – Malthus teria um colapso se fosse vivo. A população mundial atingiu 1 bilião em 1800, 2 biliões em 1928, 3 biliões em 1961; o total era já de 4,4 em 1980, de 6,1 em 2000 e é hoje de 7,9 biliões; em 2070 atingir-se-ão os 10 biliões e em 2100 (se ainda houver planeta Terra) os 11,2 biliões. Multiplicou-se oito vezes em 220 anos, mas duplicou – repito, duplicou! – em pouco mais de quatro décadas, no curto tempo decorrido entre a minha infância e o momento atual ou, para (me) descentrar, nas décadas da globalização acelerada dos finais do século XX e do início do século XXI. Só a China e a Índia somadas têm 2,8 biliões de seres humanos, 35% da população mundial – e foram os dois grandes ausentes da COP26. As perspetivas não são, portanto, nada animadoras. Somos um planeta demasiado envelhecido; e somos, os que nele vivem, demasiados, para os recursos que responsavelmente esse mesmo planeta, que é finito, nos pode disponibilizar. Não me lembro de nenhuma ironia mais dramática do que esta.