“Aprendam com os erros da Rússia. Europa não sobrevive sem o Cristianismo”
18-09-2018 - 16:41
 • Filipe d'Avillez

O número dois do Patriarcado de Moscovo defende, em entrevista à Renascença, que a intervenção militar da Rússia na Síria é essencial para defender os cristãos naquele Estado.

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O metropolita Hilarion Alfeyev, "número dois" e responsável pelas relações externasdo Patriarcado de Moscovo defende que a intervenção militar da Rússia na Síria é essencial para defender os cristãos naquele Estado.

Aquele que é considerado, globalmente, como a segunda figura mais importante da Igreja Ortodoxa Russa concedeu uma entrevista à Renascença, durante a sua visita a Portugal.

Alfeyev fala do futuro do Cristianismo na Europa e de como católicos e ortodoxos podem trabalhar em conjunto para o preservar, bem como do papel da Rússia no atual conflito na Síria.

Está em Portugal para falar do futuro do Cristianismo na Europa. Quais as suas ideias a este respeito?

O Cristianismo tem uma longa história na Europa, mas não tem apenas valor histórico. O futuro da Europa está também no Cristianismo. Não consigo imaginar o futuro da Europa sem o Cristianismo. Embora haja muitos políticos e filósofos que acreditam que a Europa sobrevive sem o Cristianismo, não creio. Penso que sem o Cristianismo a Europa perderá a sua identidade.

Disse, recentemente, que a história do Comunismo na Rússia comprova que não se pode construir um Estado justo sem Deus. Há aí uma lição para a Europa ocidental?

Penso que é sempre melhor aprender com os erros dos outros do que sermos nós a cometê-los. O nosso país cometeu um grave erro quando os nossos representantes renunciaram a Deus. Isso levou à revolução, derramamento de sangue, repressão, perseguições e, durante 70 anos, tivemos um Estado em que o ateísmo era uma ideologia oficial.

Foi um grande erro renunciar à religião e o nosso povo sofreu muito por causa disso.

Como é que a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa podem trabalhar juntas para preservar o Cristianismo na Europa?

Já o estamos a fazer. Há dois anos o Papa Francisco encontrou-se em Havana com o Patriarca de Moscovo e tiveram uma conversa muito cordial e fraternal. Falaram de muitos assuntos, incluindo o futuro do Cristianismo na Europa. Antes deste encontro já trabalhávamos muito juntos, agora ainda mais. Este encontro abriu uma página nova na nossa relação.

Tem-se falado muito do ressurgimento da Igreja Ortodoxa Russa e os números são, de facto, impressionantes, mas há muitas críticas sobre a ligação próxima entre Igreja e Estado. Não temem que a Igreja seja manipulada pelo regime russo?

As relações entre Igreja e Estado na Rússia contemporânea obedecem ao princípio de não-interferência nos assuntos internos. Assim, o Estado jamais nos diria quem deve ser eleito patriarca, ou nomeado bispo, ou como devemos organizar-nos. Da mesma forma, a Igreja não se envolve em política, não apoia um candidato a eleições. Podemos comentar o programa eleitoral de certo candidato, mas não podemos dizer que a Igreja apoia um contra outro, porque estamos abertos a pessoas de todas as orientações políticas.

O segundo princípio é o da colaboração em áreas em que isso seja apropriado. Não tememos qualquer influência do Estado, porque existe esta separação muito clara.

Durante a sua estadia em Portugal, vai visitar Fátima. Por um lado, Fátima é um fenómeno que aproxima católicos e ortodoxos, pois levou milhões de católicos a olhar para o sofrimento dos cristãos russos, mas, por outro lado, alguns ortodoxos não gostam da noção da Conversão da Rússia, de que Nossa Senhora falou. Qual é a sua perspetiva?

A conversão da Rússia já aconteceu. Há 30 anos que temos testemunhado esta conversão, o regresso do povo russo à fé ortodoxa. Para mim, esta visita é muito interessante, pois li e ouvi muito sobre Fátima. Mas, como diz um provérbio russo, é melhor ver uma vez do que ouvir cem vezes.

Outro tema que o traz cá é o apoio prestado pela Igreja Ortodoxa Russa aos cristãos do Médio Oriente. Que apoio é esse?

Ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, houve uma série de processos que prejudicaram a população cristã, levando a um êxodo de milhões de cristãos do Médio Oriente. Por exemplo, no Iraque, a população cristã era de cerca de 1,5 milhões, dos quais só uma décima parte é que ainda permanece no país. A maioria fugiu. Na Líbi,a praticamente já não há cristãos e muitos abandonam o Egito. Ainda durante a guerra civil na Síria, muitos tiveram de abandonar as suas casas e procurar abrigo noutros países.

Por isso, se quisermos proteger o Cristianismo no Médio Oriente, temos de implementar medidas extraordinárias, não apenas de natureza humanitária, mas também de natureza política. A Igreja Ortodoxa Russa está diretamente envolvida na distribuição de ajuda humanitária. Em fevereiro deste ano, por exemplo, distribuímos 77 toneladas de ajuda humanitária, comprada com dinheiro recolhido não só por ortodoxos, mas também por outras comunidades cristãs e não cristãs na Rússia.

Mas mais do que ajuda humanitária, para garantir a sobrevivência dos cristãos no Médio Oriente é preciso ajuda política. Se as coisas continuarem como estão no Médio Oriente, há uma forte possibilidade de o Cristianismo ser completamente expulso da região onde nasceu.

Todavia, em muitos países ocidentais a Rússia costuma ser apresentada como parte do problema pelo seu papel na Síria e pelo apoio dado ao regime de Assad…

Eu não sou especialista em política, mas posso dizer que, ainda hoje, em Moscovo, o grão-mufti da Síria vai encontrar-se com o nosso Patriarca. Ele, como muitos outros líderes religiosos na Síria, diz que se o regime de Assad cair não há futuro para o Cristianismo. Esta foi também a mensagem dos líderes cristãos da Síria depois de as forças aéreas do Ocidente terem bombardeado o país. Disseram-no de forma clara, aberta e franca.